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Yzalú: “O rap é denúncia e resistência”

    Yzalú, 33 anos, é uma cantora, compositora e intérprete paulistana. Lançará o seu primeiro CD, “Minha Bossa é Treta”, no próximo 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Nascida na periferia de São Bernardo do Campo, em São Paulo, a cantora cresceu ouvindo rap, reggae e samba de raiz. Começou no cenário musical aos 16 anos, tomando como opção o universo da cultura hip-hop, participando do primeiro grupo de rap feminino de São Bernardo do Campo, “Essência Black”. Em 2012, ao interpretar a música “Mulheres Negras”, composição de Eduardo, ex-Facção Central, teve repercussão no cenário musical de hip-hop brasileiro. Um ano depois, lançou seu primeiro videoclipe, com a música “Cabeça de Nêgo”, do rapper Sabotage. Yzalú tem um jeito próprio de cantar, faz rima com o violão e suas letras trazem reivindicações políticas com uma interpretação emocionante. Para Yzalú, o rap é um espaço para tratar a realidade brasileira, em particular a das mulheres negras: “Quando nós nos informamos, nós nos revoltamos”, diz.

 

A Verdade: Por que você escolheu o hip-hop?

Yzalú: Na verdade, não foi uma escolha. A música e a arte, elas meio que escolhem a gente. O rap foi o portal que me mostrou a possibilidade de ser eu mesma na minha condição de mulher, preta, periférica e deficiente física. O rap me mostrou a possibilidade de que não precisaria seguir todo um padrão, então eu podia resistir, podia falar sobre esse universo tão comum a mim, que é o das mulheres, e vi que isso era possível dentro do rap. Por isso, eu agradeço muito pelo rap ter me escolhido. O rap faz parte da minha vida, pois passei por muitas situações, tive uma rotina discriminatória grande e, mesmo sem saber o que estava fazendo, totalmente contaminada pelos padrões da beleza midiática e eurocentrista, busquei em um momento, de forma inconsciente, me enquadrar nos padrões dessa classe dominante para poder ser aceita. Porém, sempre percebi que os olhares sobre mim e a tratativa eram diferentes de outras mulheres que tinham os padrões naturais aceitáveis para esta sociedade. Foi aí que comecei a entender toda a teia que desde a senzala teceram para nós. Se nos rendermos à teia, seremos sempre subalternas pelo olhar dessa supremacia, mas quando a desfazemos, enxergamos de forma transparente a ira da derrota, e o rap que faço conta essa rima, conta a história de milhares de minas como eu, que de alguma forma sofrem e sofreram opressões.

Fale para nós sobre o papel de protagonismo das mulheres.

A mulher, como protagonista, era o que faltava em nosso país, que é um país muito atrasado. Hoje, em pleno século 21, começamos a ter mulheres protagonistas. E não é tanto assim, ainda estamos caminhando. Vejo o momento muito importante que estamos vivendo, principalmente o protagonismo da mulher negra em relação ao feminismo, em que a mulher negra começa a ter seu próprio discurso. Não é uma fala feita por outros, mas pela ótica da própria mulher negra, então eu vejo tudo isso com bons olhos. A gente pode ver outros países como, por exemplo, os Estados Unidos, com Angela Davis, que era e ainda é uma protagonista mulher negra ainda da década de 1960. Por isso eu digo que ainda estamos atrasados, mas estamos no caminho certo, e tenho certeza de que essa luta feminista é contínua, e algo que vai transcender as próximas décadas. Nós, mulheres, estamos fazendo história.

O hip-hop brasileiro teve influência dos rappers americanos. Temos referências, aqui no país, dos Racionais, MV Bill, Sabotage, entre outros. Como você lida com o espaço majoritariamente masculino no mundo do hip-hop?

Acho que é um espaço crescente que nós, rappers mulheres, estamos construindo. Ainda não é o suficiente, mas nós queremos mais mulheres no espaço do hip-hop, saindo de detrás do palco e indo para frente, pois ainda existem muitas dificuldades, não só no rap, mas na música como um todo. O rap ainda é um gênero musical marginal. Que bom que é marginal, porque assim podemos resistir nesse meio todo. Nós estamos tomando o espaço, mas é tomando assim, chutando a porta, e nem pedindo licença, ocupando o nosso espaço por direito. Nós temos muitas mulheres boas, como Tássia Reis, Amanda NegraSim, Cris SNJ Preta Feminina, Lua Rodrigues, Stefanie Roberta, Karol Realidade Cruel, Shirley Casa Verde, Dory de Oliveira, Karol Conká, Nathy MC, Lurdez da Luz, entre outras. O projeto “Divas do Hip-Hop” – que é a produtora Zandara, da qual eu faço parte –, e, através de uma conversa com Dinadir, a rainha do rap, foi o estopim para eu entrar no rap de fato, porque, participando desse projeto, eu entendi de que forma eu queria ser. Ela e Lauren Hill foram as rappers que viraram referência. Esse projeto tem o intuito de valorizar as mulheres dentro do hip-hop e também a troca entre essas rappers, com seus estilos, seus públicos, com sua forma de cantar rap.

As batalhas dos raps são espaços democráticos?

Eu vim da periferia de São Bernardo do Campo, em São Paulo, que tem uma visão da exclusão, e o rap foi muito presente para mim nesse sentido, porque eu ouvia muito rap e as músicas refletiam a minha realidade. As batalhas são muito importantes para o cenário do rap. Eu acompanho, em especial uma mina, que é a Bárbara Sweet, fazendo rima contra o machismo, racismo, homofobia e a exclusão social. Nas rimas estamos questionando a sociedade, pois estamos numa sociedade muito machista, então a gente não pode apontar só o rap, o funk, pois em tudo o que a gente vier a fazer o machismo se manifesta, ele faz parte da estrutura, assim como o racismo, a homofobia, a transfobia e a lesfobia. Então, nessas rimas, estamos também apontando uma nova sociedade, sem essas opressões e essa exploração que vivenciamos no nosso cotidiano, e quanto mais mulheres aparecerem nessas batalhas só temos a ganhar.

A Verdade: O que você pensa do projeto de redução da maioridade penal? Você acha que ele diminuirá a violência no país?

De fato, não. A redução da maioridade penal é mais uma medida alienadora dessa parcela de sociedade que vive em função da Constituição, uma Constituição que está atrasada, pois não acompanha o que acontece nas ruas, não acompanha a humanização das pessoas. Então, a redução da maioridade penal, assim como a repressão policial, são medidas que servem para nos calar. Esse projeto nada mais é do que para que no futuro eles possam privatizar os presídios, pois colocar menor na cadeia vai aumentar a lotação nas cadeias. Então colocam na cabeça das pessoas a ideia de que o presídio público não presta e que o privatizado é o melhor. Se privatizarem vão ver quantos de nós serão presos. Não estamos só falando dos homens, mas principalmente das mulheres. Os dados mostram que, nos últimos dez anos, o encarceramento feminino cresceu 500%, ou seja, estamos falando que há dez anos nós tínhamos mil presidiárias e hoje temos 35 mil, e 80% delas são negras. De que forma nós vamos trabalhar isso? Essa medida está sendo feita para os “poderosos” se manterem no poder, e se depender de nós, não vamos deixar.

Facebook: Yzalú Oficial

Claudiane Lopes e Emanuele Rodrigues, Salvador (BA)

 

 

 

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