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Opinião: Bolsonaro, de mãos sujas, prefere Barrabás

O presidente, com apoio do ministro Moro, concede liberdade a bandidos de farda enquanto milhares de inocentes esperam julgamento. 

Lucas Marcelino


Foto: Reprodução

Uma das passagens bíblicas mais conhecidas e sempre citada na véspera de Natal conta que havia um costume no Império Romano de todo ano, neste mesmo dia, ser concedido perdão a um preso. 

Em uma dessas ocasiões buscavam o perdão um bandido famoso (Barrabás) e um inocente injustamente preso (Jesus). O sanguinário Poncio Pilatos – responsável pela decisão em nome do Império – consultou uma parte da população que estava presente nesta assembleia e decidiu por manter preso o inocente e libertar o criminoso. Levando ao assassinato injusto, por parte do estado, de um homem que buscava trazer paz ao mundo. 

Esse fato mudaria toda a história da humanidade e ainda traz vários ensinamentos e muitas conclusões a se tirar do ocorrido e, como a história se repete, paralelos a se fazer. 

Em toda véspera de natal o Estado Brasileiro continua concedendo hipocritamente o direito ao presidente de libertar alguns presos e, nos últimos anos, todos repetiram o erro de Pilatos. Mas 2019 foi um ano mais difícil para o povo, inclusive nesse momento. Aspirando a falsa benevolência romana, mas expirando a injustiça social, o presidente decidiu libertar milhares de bandidos contumazes enquanto ignorou injustiçados. 

Ainda hoje, uma parcela da população continua vibrando com a injustiça e a diferença é que se o imperador à época teve medo e procurando acalmar a plateia “lavou as mãos” tentando se livrar da responsabilidade pelo erro, hoje o postulante a imperador afunda as mãos no vaso sanitário da cela mais insalubre para alvoroçar e ampliar a parcela da população que o segue justamente por inverter o conceito de justiça em seu favor – ou naquele tempo já existiam os “cidadãos de bem” ou hoje ainda temos fariseus. 

Bolsonaro decidiu libertar agentes de segurança que cometeram crimes considerados leves ou sem muita responsabilidade – chamados de culposos – no exercício da função ou em consequência dela. Entre esse crimes estão aqueles cometidos ao fazer um bico, como um policial que trabalha de segurança em uma padaria que ele estava protegendo na folga da polícia e mata o assaltante ou um agente que cometeu um crime em uma cobrança ao agir em um grupo de milícia – alegando que por ser policial teve que atirar para não ser morto por criminosos, entre outros crimes. E entre os criminosos estão policiais, agentes de trânsito, carcereiros, etc. Além disso são perdoados militares das Forças Armadas que atuaram em operações de GLO (Garantia da Lei e da Ordem) que foram banalizadas nos últimos anos com graves consequências para a população pobre, principalmente nas favelas do Rio de Janeiro. 

Advogados, policiais e especialistas de segurança pública e direitos humanos denunciam que esse ato favorece ação de milicianos ao “passar pano” para os crimes cometidos por eles e que é a medida é inconstitucional por ferir a isonomia (direitos iguais a todos) ao eleger um grupo para ser beneficiado (afinal, não são todos os presos por crimes culposos, mas somente agentes de segurança). Assim, o presidente e o ministro da justiça tentam livrar da cadeia quem nela deveria permanecer e mostram que eles é que deviam adentrar em uma, já que reforçam seus laços com esse grupo de bandidos. Bolsonaro depois de ter homenageado, ter feito amizade, convivido e dividido condomínio, ter empregado, remunerado e sustentado esquemas de lavagem de dinheiro junto com o filho e apoio de milicianos, agora concede perdão a eles. 

Junto com a justiça caminha a injustiça e mais uma vez passam bem longe da redenção do indulto natalino pessoas que cometeram crimes leves como tráfico de pequenas quantidades de drogas e pequenos furtos; vítimas da sociedade que reconhecem seus erros, pedem perdão e uma punição justa, mas não sentarão à direita do salvador porque, diferente do que a elite pensa, não há um salvador no Ministério da Justiça e porque atualmente a Justiça não serve para responsabilizar quem erra, mas para torturar e estender o purgatório na Terra. 

Milhares de pessoas, na sua maioria jovens, negros, pobres e excluídos como Jesus, passaram a noite de Natal numa cela e não em uma ceia. Só serão lembrados pelos fariseus em mensagens de whatsapp dizendo que as ruas estão mais perigosas porque bandidos “cheios de amor” terão direito à saidinha para visitar suas famílias – um direito cada vez mais limitado. Assim, essas pessoas apodrecem atrás das grades ou renascem no crime organizado depois de terem cometido erros menores que aqueles perdoados aos amigos do Bolsonaro. 

Fica parecendo que Jesus pregou a ouvidos mocos. Os esquecidos no indulto natalino muitas vezes erraram mesmo por estarem cheios de amor: são mães que tentaram levar drogas e celulares para a cela para salvar um filho da morte, filhos que não tiveram a oportunidade de estudar e trabalhar e se tornaram aviãozinho para ganhar dinheiro e sustentar a família em um país de desempregados, pais que roubaram um saco de comida para alimentar os filhos. Mas os libertos foram os que tinham emprego fixo, aprovados em concurso, com salário maior que a média e com estabilidade, com total consciência de que não agiam por amor, mas por 30 moedas ou menos. 

Felizes os que têm sede e fome de justiça porque serão fartos dela – disse Jesus. Com certeza o presidente e o ministro da justiça não estarão à direita do Senhor neste banquete. 

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