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quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Aos 73 anos, Brás da Cruz, comunista torturado na ditadura, continua militância

Brás Teixeira da Cruz é um dos combatentes revolucionários que enfrentaram as baionetas da ditadura militar que se instalou no Brasil de 1964 a 1985. Iniciou cedo sua militância política em Belo Horizonte, à qual dá continuidade até os dias atuais. Durante os anos de luta sob a ditadura, Camarada Brás sofreu inúmeras torturas, que lhe ocasionaram várias doenças, forçando-o a tomar muitos remédios para aguentar a dor das lembranças. Ainda hoje, Brás luta para que o Estado brasileiro reconheça os crimes que cometeu contra ele; seu processo chegou a Brasília em 31 de março deste ano, data do início do tempo das trevas dos militares e, ao mesmo tempo, de muita resistência do povo brasileiro.

Contudo, Brás nunca baixou a cabeça para a opressão que o capitalismo exerce sobre os trabalhadores, o que o faz hoje, aos 73 anos, ser membro do Partido Comunista Revolucionário. A seguir, a entrevista de Brás da Cruz ao jornal A Verdade, na qual nos conta um pouco de sua história.

A Verdade – Como e quando você iniciou sua militância política?

Brás da Cruz – Eu iniciei minha militância política em 1959, ainda estudante secundário da Escola Visconde de Cairu, que hoje não existe mais, e comecei participando da Ação Popular, a AP. Lá enfrentei muitos problemas pela linha religiosa que a AP tinha; então saí e conheci a Polop através de um amigo. No entanto, logo fui convidado a participar de uma reunião do “Partidão”, como o PCB era conhecido na época pela massa, e ajudar no jornal Novos Rumos. Nessa época, comecei a participar de cursos básicos de marxismo.

Mas aconteceu o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética [PCUS], e vieram as acusações mentirosas de Kruchev a Stálin, o que causou um racha internacional. No ano de 1962, as coisas estavam mais claras e o PCUS se diferenciou da linha política do Partido Comunista Chinês; todos esses acontecimentos fizeram com que nove companheiros, entre eles eu, saíssem do PCB e ingressassem no PCdoB, ainda em formação em Belo Horizonte, a partir do convite de um médico camarada nosso. Nessa época, o PCdoB tinha uma linha revolucionária, muito debate ideológico e formação política. Minhas tarefas no PCdoB eram cuidar da biblioteca do partido e ir até o Rio de Janeiro buscar o periódico Classe Operária. Tudo isso antes do golpe. Participávamos ativamente da luta, e já sentíamos que os tempos estavam ficando mais difíceis. Por exemplo, uma vez fizemos uma manifestação e usamos machados e escudos, inspirados pelo Exército Popular da China, e no meio do ato um grupo da Tradição, Família e Propriedade, a TFP, foi nos agredir; começamos uma batalha campal no centro de Belo Horizonte.

Nesse mesmo ano de 1962, o então ministro Armando Falcão mandou os tanques de guerra pra cima dos estudantes na cidade do Rio de Janeiro, e a sede da UNE foi metralhada. O resultado foi uma greve geral puxada pela UNE, que contou com a participação dos estudantes universitários e secundários. Como disse, começamos a sentir o que poderia vir pela frente.

A Verdade – Onde você estava quando aconteceu o golpe militar?

Brás – Exercia uma militância ativa no PCdoB em Belo Horizonte, fui para a clandestinidade. Começamos a fazer reuniões clandestinas. Nos reuníamos em praças públicas, restaurantes e no Parque Municipal, no centro de BH; eram poucos os companheiros que participavam de cada reunião – assim não chamávamos a atenção. Até que em 1967 fomos convidados para uma reunião que aconteceu num convento, com os frades dominicanos. Nos passamos por seminaristas e lá ficamos dois dias de intenso debate político. Nessa reunião estavam Maurício Grabois, Lincoln West e outros camaradas da direção nacional do PCdoB.

Decidimos por criar a Corrente Revolucionária, que era o nome que assinava os panfletos e aparecia para a massa. Começamos a organizar greves, paralisações em várias fábricas, principalmente na Cidade Industrial, bairro do município de Contagem, e no Bairro das Indústrias, na região do Barreiro, em BH. Alugamos aparelhos nesses locais, camaradas cederam suas casas e partimos para uma luta mais efetiva. Deliberamos também, nesse encontro, o caminho da luta armada.

Debatemos táticas e decidimos seguir a linha do Marighella, da guerrilha urbana, debatemos a Guerra de Guerrilhas, de Che Guevara, mas entendemos que não era o melhor para as condições geográficas do Brasil.

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A Verdade – Como aconteceu a sua prisão?

Brás – Fui preso duas vezes – a primeira no início de 1968, quando panfletava na porta da Vallourec & Mannesmann, uma importante fábrica de Minas Gerais. Estava no ato da panfletagem quando a polícia chegou; fui enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Fiquei preso no Dops durante três semanas, e me libertaram. Depois sumi, mudei de setor e fui fazer um trabalho no município de Divinópolis; era um dos responsáveis pela “PC Indústria e Comércio de Conserva”; este PC significava “produto camponês, fizemos uma brincadeira com o nome. Essa pequena fábrica arrecadava fundos para o partido, era importante para nosso trabalho de finanças. Até que chegaram dois caras na fábrica com carteira da Fiesp, se dizendo industriais de São Paulo interessados na nossa marca de conserva. Mas, na verdade, eram policiais e me levaram preso. Durante o tempo em que estava preso, foram até minha casa e bateram em minha esposa, que estava grávida, o que a fez perder o nosso filho. Essas coisas revoltam a gente. Fiquei pulando de prisão em prisão; de Divinópolis, fui para o presídio de Dutra Ladeira, que fica em Ribeirão das Neves, Região Metropolitana de Belo Horizonte. Depois, me levaram para Juiz de Fora. Fui barbaramente torturado em todas as prisões por que passei. Além da tortura psicológica, num desses caminhos de uma prisão a outra, o policial me disse: “Tá vendo este matagal? Este lugar é que é bom pra fuzilar comunista”. Era um terror psicológico muito grande. Cinco meses depois, fui libertado.

A Verdade – Depois da prisão, como foi continuar a militância?

Brás – Quando saí, fui para o Morro das Pedras, uma comunidade de BH, e retomei o contato com o partido. Continuei minha militância política clandestina. Mas fiquei com várias seqüelas. Não podia ouvir fogos de artifício que me lembrava das torturas. Tive de tomar vários remédios pesados, tarja preta. Fui internado várias vezes. Só no Hospital Galba Veloso dei mais de 160 entradas para internação, de 1974 a 1978. Desmaiava na rua e acordava no hospital, tudo na base dos remédios. As lembranças sempre me vinham à cabeça. Em 78, entrei no INSS, mas ainda me sentia muito mal. Só fui ficar melhor em 1995, quando comecei a trabalhar no Colégio Magnum, na varrição. Lá eu me sentia bem, até ajudava os alunos com mais dificuldade, falava da revolução russa e de outros acontecimentos, fiz amizades. Mais tarde me tornei coordenador dos alunos; agora estou afastado pelo auxílio-doença.

A Verdade – Para você, qual será a grande importância da abertura dos arquivos da ditadura?

Brás – Bem, os arquivos devem ser abertos, para conhecimento dos fatos que ocorreram durante a ditadura militar, principalmente os documentos sobre os companheiros desaparecidos, de que os familiares não sabem, até hoje, onde os corpos estão enterrados. Mas tem pessoas ligadas ao imperialismo internacional, EUA, que estão ligados a esses processos. Nós, comunistas revolucionários, devemos lutar para que sejam completamente abertos os arquivos, levar as informações às universidades, escolas, e fazer debates para mostrar que esse famigerado braço armado do Estado foi muito violento, não respeitava ninguém; em nome de uma democracia de que “eles” falavam, assassinaram e torturaram. Nós queremos os arquivos totalmente abertos, para todos saberem. Pois nós lutamos por uma verdadeira democracia, a ditadura do proletariado.

A Verdade – Mesmo depois de todos esses anos, você continua militante comunista. Qual é o recado que você dá aos seus companheiros de combate?

Brás – Gostaria com imenso prazer elogiar os companheiros que foram torturados, perderam seus empregos e continuam na militância revolucionária, como dizia Che Guevara, “O dever do revolucionário é fazer a revolução”, e a revolução está nos nossos corações, que é lutar por uma pátria livre, por um mundo novo.

Renato Campos e Jonatas Henrique, Minas Gerais

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