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segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Neusa Alves: “Que todos e todas venham para a luta”

Neusa Santana Alves é a presidenta do Sindicato dos Trabalhadores do Centro Paulo Sousa do Estado de São Paulo (Sinteps).  Em junho deste ano, Neusa e a diretoria do Sinteps dirigiram  uma greve de 30 dias por melhores salários e melhores condições de ensino.

O Sinteps representa aproximadamente 17 mil trabalhadores e trabalhadoras das escolas técnicas do Estado de São Paulo e tem combatido firmemente a truculência do Governo do Estado de São Paulo e a crescente precarização do ensino profissional no estado. A seguir, entrevista de Neuza Alves ao jornal A Verdade.

A Verdade – Qual a situação das escolas técnicas, as Etecs, no Estado de São Paulo?

Neusa Santana Alvess – A situação das Etecs infelizmente não é boa. Os problemas vão desde a falta de infraestrutura, passando pela própria realidade dos cursos. Estes, muitas vezes, não têm relação com a região na qual estão, oferecendo uma formação desvinculada da realidade local, fazendo com que, depois de formado, o jovem tenha que se mudar ou trabalhar em outra cidade. Falta também a participação política dos estudantes na maioria das unidades. Falta ainda bandejão, e isso é uma necessidade, porque pela manhã, na maioria das unidades, existe o ensino médio e, à tarde, o profissional, e não há uma estrutura básica para o estudante permanecer na escola.

E as condições de trabalho?

Não são boas. Temos um sério problema de infraestrutura. Por exemplo: não temos, praticamente, laboratórios. Durante a greve alguns professores tomaram coragem em fazer denúncias, de que, por exemplo, eles trazem o material para poder trabalhar, para a aula na oficina ou no laboratório funcionarem. Tem professor que coloca até parte do que ganha para fazer determinada aula andar. Isso mostra que falta, para esses trabalhadores, condições de trabalho. Já tivemos melhores dias. Com a realidade dos cursos mudando para cursos de serviços, isso piorou. A tecnologia tão sonhada e o conhecimento tecnológico passam longe daqui e do Governo do Estado.

Para os professores e funcionários não existe um plano de carreira que atenda às nossas necessidades Tivemos um reajuste muito baixo, um valor da hora-aula pequeno: 12 reais (antes do reajuste eram 10). Nossa realidade é diferente daquela da rede básica. Nós não somos contratados por jornada de trabalho, e sim por hora-aula. Então, para ter um salário digno, conseguir manter sua vida, o professor tem que compor sua jornada em várias unidades, se desgastando com o transporte e a locomoção entre um local e outro.

E a jornada de trabalho? É possível viver apenas com o salário pago pelo governo?

Não é possível. A maioria trabalha em mais de um local. Entre aqueles que dão aula à noite, grande parte tem emprego na indústria. Os que dão aula pela manhã ou à tarde não conseguem e acabam compondo o seu salário indo para várias unidades escolares. Esse professor não tem uma carga total de horas-aula em uma única unidade, já que geralmente a carga total é de 37 horas. Ninguém consegue mais isso, por conta da pulverização de cursos; são vários cursos com poucas disciplinas; então você tem que se dividir e ir para várias unidades todas as semanas para completar a jornada de trabalho. O professor fica nos turnos da manhã, tarde e noite girando nas regiões para dar aula. A nossa luta quanto à carreira era pela jornada de 40 horas, dividindo essas horas entre sala de aula, planejamento, trabalho na comunidade, enfim, onde você pudesse de fato ser professor, ser educador, se dedicar a isso, ter contato com os estudantes, ter contato com a instituição, coisa que hoje não tem.

Como é a situação nas Etecs da cidade de Mauá?

Mauá é o 10º município  no ranking dos mais pobres do Estado. É um município com 50% de jovens, na faixa etária de 12 a 16 anos e com uma carência absurda na educação.  Nós estamos com uma campanha de abaixo-assinado, porque a Etec na verdade praticamente não existe. Essa Etec foi a primeira extensão que aconteceu na região do ABC: a extensão da Etec Júlio de Mesquita em Mauá. Era um curso de química, um curso bom, justamente pelo fato de aquela região ter um polo petroquímico muito grande. Começou bem. Mas por questões políticas fecharam a extensão. Com muita luta do município, veio a Etec de Mauá; um prédio da educação especial foi desalojado para abrigá-la. Essa Etec não tem ensino médio, não tem mais o curso de química; começou com um curso de informática e abriram mais um de administração. Depois veio a Fatec, no mesmo prédio; logo constataram que não cabiam os dois. Optaram então por espremer um para manter o outro. A Etec tem apenas dois cursos até hoje – isso já dura uns quatro anos. Pressionamos para que a Etec seja ampliada, mas, por questões políticas entre os governos do município e do Estado, isso ainda não ocorreu. Existe uma extensão da Etec de Mauá em Santo André, num bairro afastado, que impossibilita que os estudantes de Mauá cheguem. Com tantas escolas em Mauá, por que esse governo não fez uma na própria cidade?

Recentemente, os trabalhadores realizaram uma greve por melhores condições de trabalho e de ensino; o governo atendeu às reivindicações?

Tivemos uma greve de 30 dias muito qualificada, na qual os trabalhadores participaram mesmo. Mas o próprio governo fez a quebra da isonomia, dando um reajuste para 53% que eram os chamados “progressão automática”, e o restante vai  ter que amargar aguardando alguns critérios que nem o próprio governo consegue entender. Por enquanto, ninguém conseguiu passar. Ele tentou resolver os problemas de quem estava entrando na instituição, porque 10 reais por hora-aula não estavam atrativos para esses profissionais, que muitas vezes acabavam por optar pela indústria. Estava acontecendo uma grande evasão e, então, o governo propôs um reajuste de 10% e, depois, de 12%, mas apenas para estes profissionais, cerca de 50% da categoria. Fizemos a luta para que fosse para todos, sem discriminação. Estamos processando o governo, para que todos os trabalhadores sejam atendidos, mas infelizmente esse é um governo truculento. A greve saiu justamente porque não havia acordo de reajuste, não havia nenhuma possibilidade de se fazer a discussão de plano de carreira, nem nada. Com a greve é que conseguimos abrir um canal de negociação para discutir a carreira, para discutir o reajuste, enfim, os direitos dos trabalhadores. Mas nossa luta continua, e já temos uma nova greve para o início do próximo ano, praticamente anunciada. Só tivemos os reajustes que tivemos em greve. Tem que ser assim. Para negociarmos as perdas salariais, só com greve e com luta dos trabalhadores. Para o ano que vem, além dessa luta, temos a democratização do Centro Paula Souza para construir, porque temos uma superintendência colocada pelo governo. Queremos de fato alguém que represente os trabalhadores. No ano que vem a luta será pela carreira, tentando que estas perdas salariais entrem no nosso plano de carreira, por uma carreira decente, pela democratização do Centro e pela manutenção do vínculo com a Unesp.

Ao contrário do que ocorre na maior parte dos sindicatos, as figuras principais do Sinteps são mulheres. Como você avalia este fato?

É isso mesmo. Vemos que os bancários, depois de 100 anos, colocam uma mulher na sua presidência. Nosso caso é incrível, porque nossa categoria é predominantemente masculina. Sempre foi assim na educação profissional. Procuramos mesclar nossa diretoria, compor os cargos com homens e mulheres. Entendemos que o trabalho deve ser realizado por todos, independentemente do sexo. Em conjunto. Acredito que é uma forma de as mulheres perceberem que possuem essa possibilidade em qualquer outra categoria. Engraçado é que, na educação básica estadual, há essa dificuldade de colocar mulheres na sua diretoria. Tem uma mulher como presidente, mas a maioria de sua direção é de homens. Precisamos continuar lutando, mostrando para as mulheres que elas também têm esse poder, que precisam ocupar o espaço político, o espaço público. É difícil, porque sabemos que muitos homens se colocam para nos intimidar. Mas estamos mudando isso; nós mulheres precisamos continuar lutando, para que tenhamos de fato igualdade de direitos. Nós, no sindicato, procuramos sempre trazer as mulheres, levantar essa discussão com elas, estimulando-as a que se inscrevam para as instâncias de representação. Nossa proposta é que todos e todas venham para a luta, porque somos trabalhadores.

Carol Vigliar, São Paulo

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