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quarta-feira, 29 de junho de 2022

Ditadura do capital financeiro desemprega milhões no mundo

Fila de desempregados na Espanha

Desde setembro de 2008, e, em particular ao longo deste ano, o mundo vive a agonia do sistema capitalista e o desenvolvimento de sua crise. Como todos já perceberam, não se trata da crise de um país, os EUA, ou de um grupo de países, a União Europeia, ou de uma moeda, o dólar ou o euro, como insistentemente os grandes meios de comunicação da burguesia divulgam, mas de uma crise geral do capitalismo, a maior desde a Segunda Guerra Mundial, e  que afeta todas as economias. Até a economia chinesa já mostra sinais de desaceleração e uma possível crise no mercado imobiliário com os bancos chineses reconhecendo que de 23% dos créditos sofrem um risco sério de não serem pagos. É a globalização, não a tão cantada em prosa e verso pelos apologistas da economia de mercado, mas sim a da pobreza e do desemprego.

A destruição provocada por essa crise é gigantesca. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), nos últimos anos, 80 milhões de trabalhadores foram demitidos em todo o mundo. Somente nos EUA, maior economia do planeta, e, outrora a locomotiva do capitalismo, são 22 milhões de desempregados. O Reino Unido, 3ª maior economia do mundo, tem 8,3% da população desempregada, mas entre os jovens de 16 a 24 anos, o desemprego é de 21,9%. Na Espanha, 45,8% dos jovens não têm emprego. Na Itália, metade das mulheres estão fora do mercado de trabalho e 29% dos jovens estão desempregados. No total, ainda segundo a OIT, os desempregados no mundo já somam mais de 205 milhões e 1,6 bilhão de pessoas estão em situação de emprego vulnerável. .

Até setores da economia que registram aumento de lucros, demitem. Relatório da consultoria Gartner informa que no terceiro trimestre deste ano foram vendidos 440,5 milhões de telefones celulares no mundo, crescimento de 5,6% em relação ao mesmo período do ano passado. Entretanto, a joint-venture Nokia Siemens Networks, segunda maior fabricante de aparelhos para telecomunicação sem fio, anunciou em 25 de novembro, que vai demitir 17 mil, 23% do quadro de funcionários da empresa.

Assim é o sistema capitalista: produz a crise, mas joga sobre os trabalhadores todo o seu ônus. Por isso, cresce em todo o planeta o número de familias sem teto, de prostituição e do comércio mundial de drogas.

Em 2008, disseram os governos e os economistas burgueses que o caminho para sair da crise era  o Estado utilizar os recursos públicos para salvar os bancos e monopólios. E assim foi feito. Trilhões de dólares foram injetados no sistema financeiro internacional. No Brasil, lembremos que o governo salvou da falência os bancos Votorantim, de Antonio Ermirio de Morais, e o Panamericano, de Silvio Santos e financiou a juros baixíssimos as  montadoras de automóveis.

Portanto, para salvar a oligarquia financeira ou “essa gentalha”, como diria Quico, personagem do programa Chaves, os Estados se endividaram, tomando dinheiro emprestado exatamente do capital financeiro a juros altíssimos e entregaram quase de graça para os bancos. Resultado, as dívidas públicas dispararam: a Alemanha deve 83% do PIB; a França, 86%; a Itália, 121%; Portugal, 106%, a Espanha, 65% e a Grécia 151,9%. A dívida do Japão atinge 200% do seu PIB e a dos EUA, 100%, cerca de 14,5 trilhões de dólares.

Golpe de mestre

O mecanismo do capital financeiro para fazer dinheiro fictício na crise é bastante engenhoso.

Primeiro, as agências de risco, empresas que têm os bancos entre seus proprietários, avaliam negativamente um país e reduzem sua nota. Em seguida, como o risco para investir nos papéis desse país passou a ser maior, os bancos cobram uma taxa de juros mais elevada pelos títulos colocados à venda. Com a recessão, consequência da queda do poder de compra dos trabalhadores, os governos arrecadam menos e têm menos recursos para fazer investimentos, manter os serviços sociais, os gastos com as Forças Armadas e com a Polícia. Estimulados pelo mercado financeiro, os Estados pagam altas taxas de juros pelos novos empréstimos. Seguem assim até que todos descobrem que o rei está nu, ou seja, que estão inadimplentes e suas dívidas se tornam impagáveis. Para se ter uma ideia, a dívida da Itália supera a  2,5 trilhões de euros, mas o Fundo de Estabilização Europeu criado para atender os países sem dinheiro para pagar dívidas, só tem em caixa 250 bilhões de euros. Aí, entram em ação, os representantes oficiais da oligarquia financeira – o FMI, o Banco Mundial, o Banco Central Europeu e, de resto os bancos centrais dos países, que em troca de novos empréstimos para refinanciar as dívidas exigem medidas antipopulares.

Por isso, os títulos dos governos da Espanha (6,6%), da Itália (7,3%), Portugal, Reino Unido, (3,7%) não param de subir.  A França também entrou na roda. As agências de risco ameaçam tirar a nota AAA do país e que já paga juros de 3,7%. E a Alemanha, que ria à toa, no final de novembro, tentou vender 6 bilhões de euros em títulos mas só conseguiu compradores para 3,6 bilhões.  Mesmo o Brasil, país que segundo o governo está imune à crise, paga juros de 11% por seus títulos e até outubro, gastou a pequena fortuna de R$ 197 bilhões com juros da dívida pública.

Para pagar esses juros, os governos cortam investimentos, verbas da educação e da saúde, arrocham o salários dos servidores, aumentam a idade para o trabalhador se aposentar e demite trabalhadores. Agem assim, mesmo sabendo que essas medidas só pioram a situação, pois, como mostra a Grécia, o receituário recomendado pelo FMI e pelo Banco Central Europeu, está levando o país para o quinto ano seguido de recessão.

Por esta razão, os lucros dos bancos, mesmo com a crise, aumentam. Segundo o The Wall Street Journal, os bancos norte-americanos tiveram entre julho e setembro deste ano, lucro de US$ 35 bilhões, o maior dos últimos quatro anos. No Brasil, entre janeiro e setembro de 2011, o Itaú registrou o maior lucro da história, R$ 10,9 bilhões e o Bradesco, R$ 8,30 bilhões no mesmo período.

Em Portugal, por exemplo, o governo pegou emprestado do BCE e do FMI e de bancos internacionais 79 bilhões de euros. Deste montante, 12 bilhões de euros vão para salvar bancos portugueses, operação chamada elegantemente de recapitalização dos bancos. Por esse empréstimo, o estado português, portanto o povo, pagará de juros 34,40 bilhões de euros. Ou seja, socializa os prejuízos e privatiza os lucros. Grécia, Portugal e Irlanda passaram pela mesma via crucis.

Para a continuidade dessa política, é necessário que a oligarquia tenha total e absoluto controle sobre os governos. Por isso, a intervenção da troika, Banco Central Europeu, FMI e a União Europeia nos governos da Europa impondo primeiros-ministros e planos econômicos.  Dizem que são técnicos que entendem mais de economia, mas, na verdade, são interventores do capital financeiro internacional para assegurar que os recursos públicos sigam direto para os bolsos dessa minoria que se apoderou do mundo.

Eles são surdos

Contra essa política, mas ainda não contra esse sistema, os trabalhadores e a juventude, não param de lutar para que os ricos paguem a conta da crise.  Em outubro ocorreram manifestações em 85 países contra a política dos governos capitalistas de sacrificar o povo para salvar banqueiros e monopólios. No dia 24 de novembro, Portugal realizou sua maior greve geral da história. Na Grécia, só este ano foram realizadas cinco greves gerais. Na última, mais de meio milhão de pessoas ocuparam as ruas centrais de Atenas contra o governo dos lacaios do FMI e do Banco Central Europeu. Na Itália, no dia 17 de novembro, milhões foram às ruas contra o desemprego e as medidas do governo de corte dos direitos. Nos EUA, aumenta o número de movimentos como o Ocupa Wall Street, o Ocupe Califórnia; o Ocupe San Francisco e o Ocupe Oakland.  Na América Latina, também no dia 24, a juventude foi às ruas na maioria dos países contra a privatização e em defesa da educação publica e gratuita.

Ora, o capitalismo é um sistema econômico que tem como único objetivo garantir o enriquecimento da burguesia, da classe capitalista. Acontece que a burguesia, uma classe reduzidíssima de pessoas, centraliza o conjunto das riquezas produzidas na sociedade em suas mãos, enquanto a maioria da população vive com baixos salários e na pobreza. Em virtude dessa contradição, o consumo das massas populares, os principais consumidores de uma sociedade, é cada dia menor, ocasionando a crise de superprodução: tem mercadorias mas não têm compradores.

Logo, para resolver a crise, seria necessário recuperar o poder de compra das massas trabalhadoras, garantir salário digno e trabalho para todos, mas o capitalismo não tem nenhum objetivo social, seu objetivo é obter o lucro para a classe capitalista, não importa a que custo ou que conseqüências isso provoque.  Resultado, as massas veem, a cada ano, seu poder de compra diminuir e o desemprego crescer. Com efeito, segundo estudo da OIT, de 118 países, 69 registraram aumento da piora das condições de vida da população e nunca o mundo teve tanta gente passando fome. Por outro lado, o mercado global de luxo, voltado para a elite mundial, cresce e movimenta 191 bilhões de euros.

Para agravar esse quadro, com a crise, acelera o processo de concentração do capital, isto é, diminui  ainda mais o número de capitalistas proprietários dos meios de produção. De fato, segundo o estudo The network of global corporate control (rede de controle global das transnacionais), realizado pelo Instituto  Federal de Tecnologia de Zurique,  após exame de 43.000 empresas mundiais, 80% dessas empresas são controladas por somente 737 outras empresas, bancos, grandes grupos industriais ou fundos de investimentos e pensões. Entre essas 737 empresas ou entidades, estão o banco britânico Barclays, os norte-americanos JP Morgan, Merrill Lynch, Goldman Sachs, Morgan Stanley e grupos bancários franceses, alemães e ingleses.

Em resumo, o mercado nada mais é que menos de 800 bancos e monopólios que controlam a economia mundial e nomeia primeiroS-ministros, decidem as guerras, para que bolsa ou paraíso fiscal deve ir o capital finaceiro, qual deve ser o país a ser esfolado e espalham a fome e destroem o meio-ambiente.

A propósito, vale a pena lembrar as palavras de Lênin escritas em 1917, quase um século atrás, mas de grande atualidade: “Há meio século, quando Marx escreveu O Capital, a livre concorrência era, para a maior parte dos economistas, uma “lei natural”. A ciência oficial procurou aniquilar, por meio da conspiração do silêncio, a obra de Marx, que tinha demonstrado, com uma análise téorica e histórica do capitalismo que, a livre concorrência gera a concentração da produção, e que a referida concentração, num certo grau do seu desenvolvimento, conduz ao monopólio. Agora, o monopólio é um fato. ”

(…)

“O capitalismo na sua fase imperialista, conduz à socialização integral da produção nos seus mais variados aspectos; arrasta, por assim dizer, os capitalistas, contra a sua vontade e sem que disso tenham consciência, para um certo novo regime social, de transição entre a absoluta liberdade de concorrencia e a socialização completa.”

“A produção passa a ser social, mas a apropriação continua a ser privada. Os meios sociais de produção continuam a ser propriedade privada de um reduzido número de individuos. Mantêm-se o quadro geral da livre concorrência formalmente reconhecida, e o jugo de uns quantos monopolistas sobre o resto da população torna-se cem vezes mais duro, mais sensivel, mais insuportavel.”

 Para abolir esse sistema, não basta, pois, medidas macroprudenciais; é preciso acabar com a  ditadura da oligarquia financeira sobre os governos e a economia, é preciso nacionalizar os bancos e as companhias de seguros, cancelar as dividas públicas e, principalmente,  socializar os meios de produção. Enfim, para resolver a crise, é preciso acabar com sua verdadeira causa, a contradição entre apropriação das riquezas por uma minoria e o caráter social da produção. Portanto, a própria crise capitalista colocou o dilema: ou se tem governos impostos pelo mercado, pela oligarquia financeira, ou se tem governos a favor dos trabalhadores.

Lula Falcão, membro do Comitê Central do PCR e diretor de Redação de A Verdade

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