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domingo, 25 de setembro de 2022

FNT: queremos a democratização do lazer

A Verdade entrevistou o presidente da Frente Nacional dos Torcedores (FNT), João Hermínio Marques, sobre a organização dos torcedores no Brasil e a situação do estádio do Maracanã. A FNT teve grande destaque na campanha pela saída do corrupto Ricardo Teixeira da CBF e está na linha de frente da luta contra a privatização do estádio.

A Verdade – Por que a FNT luta contra a privatização do Maracanã?

João Hermínio Marques – A privatização do Maracanã é uma derrota para o futebol brasileiro. O estádio é símbolo do futebol nacional, é cartão-postal do país, e privatizá-lo é como vender uma praia. Pior que isso, mais de um bilhão de reais do dinheiro público estão sendo gastos em uma reforma destrutiva para “higienizar” o estádio. Acabaram com a geral, com a arquibancada e, agora, para piorar, querem privatizar o estádio todo. Somos contrários à privatização do Maracanã porque entendemos que somente com gestão pública podemos cobrar o atendimento da função precípua do estádio, qual seja a democratização do lazer e da cultura.

Qual a importância da organização dos torcedores de futebol?

O futebol é um eixo da identidade nacional, é o esporte mais popular do mundo; está nas escolas, nas praças, nas ruas, nos estádios, o futebol está em nosso cotidiano. A politização do torcedor é um caminho a ser aberto para profundas mudanças sociais. O torcedor é um grande militante de seu clube. Compra ingresso, camisa, material esportivo, vive o dia a dia do clube. Se a gente O conseguir para a luta social, o povo ganha. É evidente que inicialmente devemos partir dos nossos problemas porque, afinal, o futebol sofre muito com o avanço do capital. Eis o fenômeno nefasto da elitização do futebol.

O Estatuto do Torcedor trouxe algum avanço para o futebol?

O Estatuto foi progressista no que tange à cobrança de transparência dos cartolas, na imposição de uma organização desportiva melhor. Também foi avançado na questão do plano de jogo. O grande problema do Estatuto, porém, foi a Lei nº 12.299/2010, que veio para estabelecer a “ditadura na arquibancada”, condicionando faixas e bandeiras ao crivo policial. Sem falar na criminalização da pirotecnia. Enfim, o Estatuto hoje criminaliza e sufoca a cultura torcedora ao mesmo passo que não são cumpridas as boas normas em prol da transparência, da organização e do plano de jogo. O plano de jogo nada mais é do que um diálogo entre os envolvidos na segurança da partida (torcidas, clubes e polícia) dias antes de sua realização, coisa que, infelizmente, não ocorre. 

O movimento conseguiu a saída de Ricardo Teixeira da CBF, mas, aí, entrou José Maria Marin. Mudou alguma coisa?

Mudou. Dizer que não mudou nada é pessimismo exacerbado. Ricardo Teixeira é amigo da Globo e de congressistas, era tido como “incaível”. Era o homem forte da Copa do Mundo 2014 e possível futuro presidente da Fifa. A situação era extremamente temerária. A queda dele era uma necessidade básica, uma batalha a ser vencida. Vencemos. A ascensão de Marin, malufista e ex-governador biônico de São Paulo, gerou enorme turbulência na CBF. Há uma crise declarada, uma fragilidade institucional. Teixeira era o chefe, e, quando o chefe cai, sempre temos um clima de instabilidade. Assim, a batalha contra Ricardo Teixeira foi vitoriosa. Agora a atmosfera é oportuna para uma tomada revolucionária torcedora. Estamos diante de um momento revolucionário no futebol.

Como você vê a Copa do Mundo no Brasil? O país gasta bilhões com estádios e corta verbas para a saúde e educação…

Quem gosta de futebol ama Copa do Mundo. Infelizmente, porém, desde 1974 (Copa da então Alemanha Ocidental) a Copa é um jogo de empresários. João Havelange, brasileiro, filho de um belga traficante de armas, então presidente da Fifa, vendeu o torneio a um grupo de empresários. Assim, a bola – nas Copas do Mundo desde a década de 70 – é exclusividade de uma marca esportiva. Então, desde 1974 a Copa do Mundo já não é a Copa do Mundo dos amantes do futebol. O objetivo da Copa não é mais a popularização do futebol pelo mundo, mas, sim, a busca do lucro empresarial. Sobre a Copa no Brasil, entendo que não há mais volta. Portanto, o dever dos movimentos sociais é lutar por um legado social. Sabemos da dificuldade que isso implica, mas nosso dever é seguir na luta, é evitar a privatização do Maracanã, é derrubar Ricardo Teixeira, por exemplo. Nesse momento estamos pautando no Congresso Nacional uma PEC [Proposta de Emenda Constitucional] para que o Estado possa regulamentar as organizações desportivas. Como no sistema em que vivemos a CBF não pode ser estatal, que pelo menos ela seja regulamentada pelo Estado, criando-se diretrizes democrático-populares. Isso é lutar por uma Copa do povo.

Rafael Colleto, Rio de Janeiro

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