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terça-feira, 5 de julho de 2022

A leitura e a luta na Ocupação Eliana Silva

A leitura e a luta na Ocupação Eliana SilvaDepois de ressurgir de suas próprias cinzas, como uma fênix sobrevoando e pousando novamente nos terrenos abandonados da cidade, contrariando os interesses da prefeitura e das elites, a Ocupação Eliana Silva conquistou mais uma vitória. Partindo das ideias do poeta Bartolomeu Campos Queirós, descritas no Manifesto por um Brasil literário, de que “A leitura literária é um direito de todos e que ainda não está escrito”, e que a literatura “se instala no desejo dos homens e mulheres promovendo os indivíduos a sujeitos e responsáveis pela sua própria humanidade”, no dia 29 de agosto realizou-se o Ato de Fundação da Biblioteca Comunitária da Ocupação Eliana Silva, chamada de Bibliocupoteca, representando a ocupação dos espaços também pela leitura e a literatura. Um ato antes de tudo político, e cultural, para levar a produção literária e científica a espaços aonde ela praticamente não chega, devido aos interesses do capital, que busca manter o acesso ao conhecimento para uma parcela mínima da população, restando aos demais o acesso às informações básicas necessárias para compor a mão de obra.

A criação do espaço, que buscará contribuir com a formação da comunidade e o desenvolvimento da luta também no campo das ideias, contou com a participação de dois grandes apoiadores. Marcos Túlio Damascena, idealizador da Borrachalioteca de Sabará – projeto que começou como uma biblioteca dentro de uma borracharia e hoje é um dos principais projetos de leitura do país – doou vários livros para a nova biblioteca, inclusive um importante acervo de literatura infantil, e participou do recital de cordel realizado pelo cordelista Olegário Alfredo (Mestre Gaio). Ele, que é um dos maiores cordelistas do país, apresentou e disponibilizou para a comunidade parte de sua vasta obra, que retrata nesse patrimônio da cultura popular brasileira a vida, a história e os costumes do povo mineiro.

A leitura e a luta na Ocupação Eliana SilvaAlém da instalação de um varal de cordéis, outra importante ação ocorreu. O primeiro livro doado foi o clássico da literatura brasileira Capitães da Areia, romance que retrata a vida de crianças abandonadas vivendo nas ruas de Salvador. A obra é um símbolo de luta e resistência, e inclusive foi perseguida pela ditadura Varguista, sendo apreendida e queimada em praça pública. A história dos meninos e do próprio livro tem grandes semelhanças com a luta da comunidade, por isso a escolha da obra como símbolo da biblioteca, e como homenagem ao centenário do mestre Jorge Amado, um dos maiores nomes da literatura brasileira, além de grande militante e defensor dos negros, dos meninos de rua, dos pescadores, da cultura popular, da capoeira, do candomblé, enfim, de todos os grupos e povos oprimidos do mundo.

Assim, a biblioteca comunitária surge para possibilitar o acesso da comunidade à produção literária e contribuir para a sua formação, trabalhando a literatura de uma forma não pragmática e como ferramenta de incentivo à criação, que é uma necessidade humana, pois como disse ainda Bartolomeu, “O sujeito anseia por conhecimentos e possui a necessidade de estender suas intuições criadoras aos espaços em que convive” e “a literatura, pela sua configuração, acolhe a todos e concorre para o exercício de um pensamento crítico, ágil e inventivo”. A literatura vem para colaborar na busca pela recuperação da humanidade dos indivíduos, cada vez mais desumanizados pelas ações e ideologia do capital, e para o desenvolvimento de uma educação popular e emancipadora que possibilite “uma sociedade em que a qualidade da existência humana é buscada como um bem inalienável”.

A luta da Ocupação Eliana Silva continua, e os livros serão mais uma das armas usadas pelos homens, mulheres e crianças que vivem 24 horas na batalha pelo sagrado direito à moradia, travada também no campo ideológico; como nos disse José Martí, “Trincheiras de ideias valem mais que trincheiras de pedras”. Mesmo com toda a truculência da polícia militar, enviada pela prefeitura e o governo estadual para massacrar a população pobre que luta pelos seus direitos, a resistência não para; mesmo com violência, repressão e desocupação a luta continuará porque ela é como a Fênix, e ainda que morra renascerá inúmeras vezes enquanto houver opressão e injustiça.

Enquanto morar for um privilégio, ocupar é um direito!
Somos todos Eliana Silva!

Christian Coelho, Belo Horizonte

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