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segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Joana Saraiva: “Não se faz música sozinho”

Joana 1Em suas andanças culturais, o jornal A Verdade conheceu no Dia Nacional do Choro, 23 de abril, numa atividade do Grupo 100% Suburbano, no bairro de Olaria, a flautista Joana Saraiva. Joana nos deu o prazer de conversar durante algumas horas sobre a importância da música para a vida e para a transformação do ser humano. A seguir esse nosso bate-papo. 

A Verdade – Como começou sua paixão pela música?

Joana Saraiva – Paixão? Está sendo uma paixão. Mas no começo sempre é difícil identificar esse sentimento. Quando era criança, tinha vontade de tocar violão, mas não foi para frente essa história. Por morar em Arraial do Cabo, uma cidade pequena do Estado do Rio de Janeiro, não havia escola de música. Mas sentia vontade de escutar música, não necessariamente de tocar. Fui morar no Rio de Janeiro com 15 anos e, andando pelo Centro do Rio, vi alguém tocando flauta e me apaixonei.

Comprei uma flauta e entrei para a Escola de Música Villa-Lobos, e esse primeiro contato não foi muito musical. As aulas eram muito técnicas, era para aprender a ler e executar partitura, muito intelectual. Num ensino tradicional de conservatório você não trabalha a sua musicalidade, não toca em conjunto. Só tem que fazer aqueles recitais em auditórios, tudo meio dramático, um repertório que não está muito próximo de você, da sua realidade. Aprendi a ler e a tocar. Não descobri a música em mim. Fui fazer outra coisa. Estudei e me formei em Ciências Sociais. Trabalhei nessa área algum tempo e o retorno para a música foi muito tempo depois, em 2004, quando fui fazer uma oficina de música com Itiberê Zwarg, baixista da banda de Hermeto Pascoal, que tinha outra proposta didática, totalmente diferente, que se chama Corpo Presente: você vai para a sala com vários estudantes de música e instrumentistas em diferentes níveis. Trabalha com a prática de compor e arranjar música com os outros, sem estar mediado pela partitura. A ideia é você fazer música com criatividade. A partitura é importante, mas ela é só um suporte de registro. Nós temos uma herança colonialista de que tudo que é oral é ruim, para você se gabar de uma alta cultura tem que saber ler e escrever, para o mundo musical não é isso. O que importa é saber escutar.

O chorinho é um ritmo brasileiro. Mas é pouco conhecido, principalmente fora do Rio de Janeiro. Por quê?

Em meados do século 19, como qualquer país latino americano, as músicas que se ouvia eram trazidas do Império, das danças que estavam na moda, como a Polca. A melodia e harmonia eram base europeia.

O choro hoje tem 150 anos de história advinda de várias influências, mas com características que os músicos brasileiros introduziram no decorrer do tempo. Hoje o choro é um ritmo brasileiro. A identidade cultural se faz pela apropriação, influência musical, o seu desenvolvimento histórico que resulta na transformação de algo novo. Quando você consegue se comunicar através desse ritmo. Nesse sentido, o choro é bem brasileiro, bastante carioca. O Choro consegue despertar interesse de diversos músicos ao redor do mundo e em diversas cidades do Brasil. Existe o Festival do Choro, que acontece no Brasil em seus diversos estados. Tem o Clube do Choro aqui e em outras partes do mundo, e esses músicos vêm ao Brasil tocar o nosso repertório. Entre os músicos e instrumentistas está havendo uma febre em relação ao choro.

A gente toca na rua porque tem uma resposta popular. A música instrumental, como o choro, toca o público, mesmo que ele ainda seja restrito.

O que a levou a aprender o choro? O que a encanta nessa música? 

A vontade de tocar. Para você aprender a tocar choro você tem que estar tocando com outros músicos. Existe essa tradição. Você tem que estar numa roda, estar com outras pessoas. É uma tradição oral de aprendizado. Você assiste, e os músicos mais experientes ensinam como tocar. Quando comecei a tocar, o que me atraiu foi essa possibilidade de trocar experiências com os outros músicos e ter uma interação com o público. No cenário da Cidade do Rio de Janeiro o choro é uma música popular.

A presença feminina numa roda de samba, de choro, não é muito comum. Como você se sente? 

Nunca senti constrangimento de às vezes ser a única mulher numa roda de choro. Sempre fui muito bem acolhida. Esses espaços são mais masculinos, assim como outros ritmos, como o samba. Essa questão de numa roda de choro só ter homem tocando reflete uma extensão de um cenário da nossa sociedade machista.

O choro sempre foi tocado no subúrbio, na Zona Oeste. Ele sempre foi tocado numa outra geografia, num outro território, num outro círculo social que não aparece.

Espero que a presença da mulher seja ampliada porque o choro está deixando de ser visto como uma música menor. Está havendo uma valorização até acadêmica sobre a música popular em geral. Uma abertura do ponto de vista da cultura formal sobre essas expressões populares. Hoje as pessoas não abrem as suas casas para tocar esses ritmos, os restaurantes e bares passaram a ocupar esse lugar. Nós tentamos manter a postura de quem está numa roda de choro, não é um show.

Como vê o fato de os governos gastarem tanto dinheiro para financiar um Rock in Rio ou uma Copa do Mundo, e investir quase nada na música popular brasileira? 

Essa é uma pergunta bastante complexa. É uma questão equivocada de orientações culturais e políticas. Uma herança de não saber e querer valorizar e enxergar a cultura popular. De não valorizar pessoas, artistas como Mestre Caçula e colocá-lo numa escola para ensinar. Tornar invisível essas pessoas que fazem cultura popular realmente. Essa questão do Rock in Rio é uma extensão de uma política equivocada, de uma visão cultural que somos herdeiros até hoje. Uma sociedade arcaica, colonizada, totalmente equivocada.

Você comentou: “Quem gosta de tocar só música clássica, toca em casa”. O que isso significa?

Para quem estuda música erudita infelizmente o circuito é muito restrito. Ou você está numa orquestra ou não está. Não existem políticas culturais para ter uma porção de orquestras, conjuntos de câmara. Existe um preconceito de achar que o público não é capaz de entender essas músicas. Música de qualidade, qualquer uma que seja, todo mundo entende. As pessoas se reconhecem nela. A música tem uma vantagem diante de todas as outras linguagens artísticas de ser mais diretas, você toca e a pessoa se toca, não há intermediário, ela não se sente constrangida, não tem mediação.

O problema é que não existe uma política de educação musical. Não tive contato nenhum com a música quando era criança. Esse decreto de 2008 (Lei nº 11.769), que regula o ensino de música nas escolas, é de extrema importância. Existe uma discussão no meio artístico sobre a regulamentação dessa lei, da possibilidade real, concreta, de cumpri-la, por ser uma questão de educação.

Qual a importância da música no desenvolvimento social do ser humano?

A importância é total. Se você pensa de uma forma mais humanista, na concepção homem, mulher, a música está totalmente dentro, como qualquer outra linguagem. E ela tem uma potência muito grande de transformação individual, social, porque ela afeta muito diretamente as pessoas.

A música tem um grande potencial de mobilização social, porque não se faz música sozinho. Primeiro você precisa de alguém para tocar e de alguém para ouvir. Você precisa de gente. O que me encanta mais na musica é essa necessidade intrínseca de comunicação. A característica fundamental de um bom músico é quando ele consegue escutar e se colocar a partir do que se escuta no sentido de escutar o outro. Saber dialogar, não se impor, conquistar o espaço de outra maneira. Várias percepções que passei a ter sobre a vida social, sobre o mundo vêm de situações quando estou tocando. Quando se está tocando a sua personalidade fica mais exposta. Você não está fazendo terapia, discutindo política, mas está fazendo tudo isso numa outra linguagem. Essa é a potência de tocar, se fizer um direcionamento legal, você pode usar isso para uma mobilização coletiva, para um sentido de uma identidade de grupo, para um engajamento político, porque a música é uma linguagem muito potente. Todo mundo tem a música 24 horas na vida sendo ou não músico.

Como você se define politicamente?

Sou um ser político em todos os momentos. Você conseguir afetar, incomodar, questionar uma pessoa do seu lado é uma ação política.

Política se faz na esquina. É um trabalho de formiguinha. Não é uma política de cima para baixo. É uma ação cotidiana. Toda ação tem uma consequência porque você é um agente social. Você não está sozinho no mundo. Não acredito na política dos grandes sistemas.

Você leu o jornal A Verdade. O que achou? 

Achei bem contundente. Bem corajoso. Achei que fosse um jornal regional, mas é amplíssimo e isso realmente é fantástico. Deve ser muito difícil selecionar as matérias que vão sair. Porque o Brasil é enorme. A mensagem que deixo para o jornal é de continuar acreditando que a mudança é possível, é real e cotidiana, e que se faz no passo de formiguinha mesmo. Desde que se acorda até a hora de dormir. Porque você pensa, anda, fala, ouve, sonha e, por conta disso, podemos realizar todos os nossos horizontes possíveis e imaginários, conseguir libertar a imaginação nisso tudo, e acreditar sim que a realidade agora que a gente vive é um constrangimento, é uma pressão momentânea, mas você tem que ter força política para imaginar e realizar essas mudanças sociais e trazer isso para sua existência cotidiana, para sua realidade cotidiana. A sua responsabilidade cotidiana.

Denise Maia, Rio de Janeiro

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