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domingo, 2 de outubro de 2022

Exposição homenageia vida e obra de Abelardo da Hora

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Está em exposição no Centro Cultural da Caixa em Recife, até o dia 27 de setembro, a coleção das obras mais famosas do escultor, ceramista, desenhista, pintor, gravurista e poeta Abelardo da Hora. Com o título “Abelardo da Hora 90 anos: vida e arte”, a exposição conta, através das obras do artista, suas paixões e suas lutas, representadas em figuras como “A fome e o brado”, “Menino do Mocambo” e “Meninos do Recife”.

Nascido em 31 de julho de 1924 na Usina Tiúma, em São Lourenço da Mata (PE), Abelardo descobriu seu talento ao ingressar no curso técnico de Artes Decorativas na Escola Industrial Professor Agamenon Magalhães, atual ETEPAM, no bairro da Encruzilhada. “Eu queria ser engenheiro mecânico e o meu irmão, não sei por que cargas d’água, queria ser escultor. Mas quando eu fui me inscrever não tinha vaga. Eu disse: bem, já que não tem mais vaga, me inscrevo em Artes Decorativas por quê pelo menos tenho um amigo, que é meu irmão”, contou Abelardo.

Abelardo ganhou destaque na sua turma, sendo convidado, ao final do curso, para ingressar na antiga Escola de Belas Artes, no Recife. A partir daí suas obras ganharam destaque cada vez maior, transformando Abelardo em um dos maiores nomes da cultura popular brasileira.

A luta contra a opressão

O envolvimento com a política começou ainda na Escola de Belas Artes, quando Abelardo foi eleito presidente do Diretório Acadêmico, em 1941. A primeira medida instituída por ele foi a expansão da sala de aula para as ruas: para ele, os alunos deveriam produzir suas obras de acordo com o captavam da realidade da cidade; por isso, insistiu para que os alunos realizassem várias visitas aos bairros do Recife.

Esse sentimento guiou toda a vida de Abelardo. Acreditava que o artista deve ser mais que um mero criador de belezas; deve usar seu trabalho como forma de contribuir para a melhoria da realidade social em que vive. A insatisfação com as injustiças e a opressão, o levaram a se envolver cada vez mais com a política. Integrante do Partido Comunista, Abelardo acreditava que, através da arte, era possível ampliar a politização das massas, despertando-as para a luta social.

Em 1948, Abelardo fundou a Sociedade de Arte Moderna do Recife, que serviu de inspiração para o Ateliê Coletivo e o Movimento de Cultura Popular (MCP), cujo principal objetivo era elevar o nível cultural da população para melhorar sua capacidade aquisitiva de ideias sociais e políticas. Também fizeram parte do MCP o educador Paulo Freire, o escritor Ariano Suassuna e o músico Geraldo Menucci.

Preso 70 vezes durante sua militância ativa no PCB, Abelardo sofreu perseguição política durante a ditadura militar, tendo várias de suas obras proibidas pela censura. “Eu sou o único sobrevivente da Direção Estadual do Partido Comunista daquela época. Eu tive pena de morte decretada contra mim. Não me mataram porque eu era casado com a irmã do político Augusto Lucena”, comentou. Após o Golpe Militar, Abelardo saiu do partido por não concordar com suas posições a partir de então. “O partido não tomou posição. Nós tivemos uma reunião logo no outro dia de manhã, com o companheiro da direção nacional. Estava eu, Gregório Bezerra e Hugo Martins. O companheiro da direção disse, ‘Companheiros, a direção manda dizer a vocês que salve-se quem puder’. Aí Gregório fechou o punho e falou ‘com uma direção de comadres como essa, eu saio do partido agora mesmo’. Ele saiu da sala, seguido por mim e Hugo”.

O papel social da arte

“Faço a minha arte respondendo a uma necessidade vital. Como quem ama ou sofre, se alegra ou se revolta, aprova ou denuncia e verbera. (…) A minha arte é feita dos meus sentimentos e de meus pensamentos: nunca os separo. A marca mais forte do meu trabalho tem sido, entretanto, o sofrimento e a solidariedade. A tônica é o amor: amor pela vida, que se manifesta também pela repulsa violenta contra a fome e a miséria, contra todos os tipos de brutalidades, contra a opressão e a exploração. Arte pela vida em favor da vida”.

Abelardo da Hora é autor de mais 1.800 obras entre esculturas, cerâmicas e desenhos. Muitas de suas obras estão espalhadas pela cidade do Recife. A principal marca do seu trabalho é a denuncia social, representada em suas obras expressionistas. Conta como ninguém a realidade dos meninos de rua, através da série de 22 desenhos, intitulada “Meninos do Recife”, que ganharam um poema com o mesmo nome, escrito por Abelardo.

Habitantes desse pântano,/ sem escrituras, sem títulos,/ submetidos ao ócio / que gera a fome e o vício/ e um calendário implacável/ de misérias e imprevistos”, retrata uma realidade ainda hoje vista nas ruas, não só de Recife, mas de todo o país. Uma realidade dura que tocava Abelardo, o entristecia e o revoltava, transformando sua arte em protesto, em meio de luta.

Abelardo faleceu no dia 23 de setembro de 2014, aos 90 anos. Porém, sua arte permanece imortal, retratando violentamente uma realidade reproduzida diariamente de miséria e opressão, mas também de solidariedade e amor.

Ludmila Outtes, Recife.

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