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quarta-feira, 6 de julho de 2022

Coronavírus e o trabalho online da educação básica no Ceará

Por Catarina Matos – Ceará
Em março de 2020, quando a pandemia da COVID-19 ampliou-se no Brasil, o governador do Ceará, Camilo Santana (PT), assinou um decreto de suspensão das aulas nas escolas do estado, marcado para o dia 20 de março. Desde então, o ano letivo nas escolas públicas e privadas no estado tem tido uma nova dinâmica, enquanto parte da rede privada, que funcionam como verdadeiras empresas da educação, por orientação do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino no Ceará (Sinepe-CE), decidiu por antecipar as férias escolares, em abril, outra tem conseguido aliar o trabalho em Educação à distância – EAD à vida escolar de seus professores e estudantes, situação justificada, obviamente, como ‘satisfação’ de um retorno a sua clientela, que paga enormes valores de mensalidade para garantir uma educação privilegiada e de qualidade aos seus filhos e filhas.
Contudo, em depoimento, professores das escolas particulares esclarecem que está acontecendo suspensão de contratos e diminuição de carga horária de parte dos trabalhadores dessas empresas. Porém, neste período as vídeos aulas, atividades e acompanhamento pedagógico têm sido garantidos ao todos os alunos. Os profissionais garantem que, ainda que a situação não esteja no limite, há uma sensação generalizada de insegurança sobre a estabilidade de seus empregos.
Já na educação pública estadual, o ano letivo continuou. Em reunião com a secretária de educação do Ceará, Eliana Estrela, o Sindicato dos Servidores Públicos lotados nas Secretarias de Educação e de Cultura do Estado do Ceará e nas Secretarias ou Departamentos de Educação e/ou Cultura dos Municípios do Ceará (APEOC) decidiu por aderir o trabalho remoto imediatamente, sem consultar à categoria docente e nenhuma análise sobre as condições de realização desse trabalho, tanto para os docentes como para os discentes foram abordadas pela APEOC. Isso demonstra uma total falta de compromisso com a categoria a qual deve representar e sua aliança ao poder do Estado.
O resultado disso tem sido uma verdadeira bagunça nas escolas e na vida profissional dos trabalhadores da educação, que se sobrecarregam na burocracia de registrar atividades em diferentes plataformas virtuais, muitas delas não apropriadas ao trabalho de EAD, e, junto disso, precisam reinventar seu fazer docente aprendendo na ‘marra’ a formar crianças e jovens numa educação não presencial. A professora com quem conversamos, disse que tem sido difícil lidar com a enxurrada de propostas e pedidos que chegam da Seduc para os docentes: “Além de burocratizarem ainda mais o nosso trabalho, a secretaria parece perdida, pois, a cada semana traz uma novidade sobre como realizarmos as aulas. Não conseguimos nos habituar as diretrizes da semana anterior, e já temos que lidar com novas. O resultado disso não é só a sensação de trabalho perdido e mal feito, como também de frustração e preocupação com o aprendizado dos nossos educandos. Para uma categoria que já está entre as primeiras com maior índice de adoecimento mental no país, a situação pela qual passamos é um ‘gatilho’ poderoso para o nosso adoecimento”, finaliza a docente.
 A situação dos estudantes não é menos difícil. Com mais de 700 escolas em todo o estado, o público dessas instituições é extremante diversificado e majoritariamente de famílias populares, que apresentam dificuldades desde não ter o acesso à internet de banda larga, e os equipamentos como notebook para garantir condições adequadas de estudo aos seus filhos e filhas, até a falta dos estudantes de formação e autonomia intelectual para lidar com um processo de ensino-aprendizagem distante daqueles que são os mais capacitados facilitadores de seu aprendizado, os docentes.
O depoimento de outra profissional da educação pública no traz um cenário entristecedor sobre a condição dos alunos que ela acompanha, e diz: “Considero que a acessibilidade dos nossos estudantes para o estudo de maneira autônoma nesse momento de pandemia é precária, pois temos alunos que não têm acesso a computadores em casa, e outros dispõem apenas de um aparelho celular por família. Além disso, o modelo tradicional de ensino abre pouco espaço para os estudantes terem habilidades com plataformas virtuais, sendo que os nossos alunos não tiveram formação adequada para isso. Ainda que concordemos que a EAD é uma modalidade de educação válida e que o uso das tecnologias na educação é algo positivo, entendemos que o estudante precisa ter condições financeiras para acessá-la (internet não é gratuita no Brasil). Tenho observado que não há acesso igualitário à educação nesse momento (o que o Estado deveria garantir ao povo), pois os professores enviam os conteúdos e a devolutiva é limitada e, portanto, a aprendizagem se torna insuficiente aos estudantes.”
Ouvimos também um profissional da gestão escolar, que acredita que o trabalho remoto tem alcançado uma boa parte dos alunos, mas daqueles que já mantinham sua rotina de estudos na escola, ou seja, dos alunos em que as condições estruturais e subjetivas são menos difíceis do que as de seus colegas que não possuem recursos e nem apoio familiar em sua vida estudantil. Sobre as novas ferramentas de trabalho, concorda que as tecnologias são fundamentais como recurso pedagógico na educação, mas que ainda há professores que sentem dificuldade em “agregar às mídias a sua rotina de trabalho.”
Diante dessa conjuntura, percebemos o quanto a crise do capitalismo não poupa e não dá trégua a nossa classe, a classe trabalhadora. No Brasil, a fragilidade da educação básica perpassa um projeto político de extrema alienação do povo, para que este não compreenda sua potência enquanto classe organizada, e passividade de seus trabalhadores, pois mexe diretamente com questões importantes na vida desses indivíduos, seus salários e as condições mínimas de dignidade dentro desse sistema. É preciso denunciar a falsa propaganda do governo de que o trabalho remoto no estado é um sucesso, e se rebelar contra o que está posto, a precarização aprofundada do trabalho docente tem como consequência o agravamento da crise ideológica pela qual passamos, e que foi fortalecida em anos de governos conciliadores com os grandes capitalistas nesse país, é hora de darmos um basta à exploração do trabalho do nosso povo e com ele avançarmos num processo de derrubada do capitalismo, na construção de uma nova forma de vida, numa sociedade onde seu povo possa aprender plenamente e se desenvolver intelectual e humanamente com qualidade e dignidade.

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