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A greve dos Correios contra retirada de direitos

GILSON VIEIRA – “Queremos nossos direitos!”. (Foto: Julia Ew/Jornal A Verdade)

Júlia Andrade Ew

FLORIANÓPOLIS (SC) – Com origem na empresa Correio-Mor, fundada em 1663, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), fundada em 1969 e mais conhecida como Correios, é uma empresa pública federal que executa o sistema de envio e entrega de correspondências no Brasil, além da distribuição de encomendas em todo o território nacional, entre outras inúmeras funções. Os Correios empregam 109 mil pessoas, sem contar os terceirizados, e é a única empresa a estar presente em todos os municípios do país.

Essa empresa pública tão importante para nosso país vem sofrendo duros ataques. Em maio do ano passado, Jair Bolsonaro aplicou um Plano de Desligamento Voluntário (PDV), pensado para diminuir o quadro de funcionários em mais de 7 mil servidores. Esses PDVs ocorrem há anos, mas suas consequências se intensificam na atualidade, com o fechamento de inúmeras agências país afora, ausência de novos concursos e sobrecarga de trabalho para os funcionários. O presidente atual dos Correios, general Floriano Peixoto Vieira Neto, mais um dos inúmeros militares em cargos de prestígio escolhidos pelo governo federal. A empresa, que em 2019 apresentou o faturamento R$ 19,1 bilhões, tendo um lucro R$ 102,1 milhões (o que a caracteriza como superavitária), corre risco de ser privatizada.

Iniciada no dia 17/08, às 22h00, a greve dos trabalhadores dos Correios já é a maior greve da história da categoria no Brasil. De acordo com a Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas dos Correios e Similares (Fentect), foram retiradas 70 cláusulas com direitos dos trabalhadores, como 30% do adicional de risco, vale-alimentação, licença maternidade de 180 dias, auxílio-creche, indenização de morte, auxílio para filhos com necessidades especiais, pagamento de adicional noturno e horas extras. Durante uma atividade de greve da categoria em Florianópolis, o jornal A Verdade entrevistou Gilson Vieira, secretário-geral do Sindicato dos Correios de Santa Catarina.

Por que os trabalhadores dos Correios estão em greve? Eu falo em nome de toda a direção e de toda a categoria, mas não em nome da empresa, porque essa é capitaneada por um general. Nossa luta neste ano não é por aumento de salário, é bom a população saber disso. Nossa greve é porque nosso acordo coletivo tem 79 cláusulas e o general que comanda a empresa quer cortar 70. Quer acabar com a folha de pagamento! A população tem que entender que acabar com os trabalhadores dos Correios, fazer eles trabalharem que nem gado a troco de nada, é visando à privatização dos Correios. E a privatização dos Correios significa aumentar a desigualdade social, é ter menos dinheiro indo pro governo, porque os Correios e os trabalhadores dos Correios não pegam dinheiro com a União, muito pelo contrário. A empresa dos Correios é superavitária, ela repassa dinheiro pro governo, e esse dinheiro deve ir pra educação, segurança e tantos outros projetos sociais, apesar de que esse governo está tirando dinheiro da educação, da segurança, etc., pra dar para os militares, como a gente sabe.

Por que vocês vêm afirmando que a greve não é por privilégios? Chamaram uma campanha salarial no meio da pandemia. A luta desta greve, no meio de uma pandemia, é para que não haja a supressão de 70 cláusulas do nosso acordo coletivo, é pra manter pelo menos nossos benefícios e nossos direitos, conquistados há 30, 35 anos. Não é por privilégio! Cinquenta reais pra vale-cultura e R$1.200 pra vale-alimentação não é privilégio! O salário de um trabalhador dos Correios chega hoje de R$ 1.900 a no máximo R$ 2.200, não passa disso, tanto o carteiro, quanto um atendente, um OTT (Operador de Triagem e Transbordo). Claro, os burocratas que controlam a empresa têm um salário enorme porque são indicados, a velha farra de cargos que havia nos outros governos, que esse governo criticava. Mas a gente, que ganha salários baixíssimos, acredita que privilégio é benefício de gabinete de 100 mil, é auxílio moradia de 20 mil, é vale-paletó, é ajuda de celular, isso é privilégio!

E o que essa luta tem a ver com a conjuntura nacional? Bolsonaro fala que tem que enxugar a folha com o funcionalismo pra salvar a população brasileira da fome. Isso é uma grande mentira! A população tem que entender que os R$ 600 que ganha do auxílio emergencial não é nada “dado” pelo governo nem é obra divina: é dinheiro de impostos, é dinheiro da própria população que está sangrando há tantos anos! O governo quer fazer uma reforma tributária e não tributar as grandes fortunas. Dava pra ter salvo os empregos, mas infelizmente nós estamos com um governo que quer acabar com os Correios, a Petrobras, a Caixa Econômica, o Banco do Brasil. Queremos passar para a população que privatizar os Correios é mais desigualdade social, é menos soberania nacional, é mais gringo nos explorando, é os ricos ficando mais ricos e os pobres ficando mais pobres. Privilégio é os bilionários ficarem mais ricos durante a pandemia! Vai dizer que é privilégio o trabalhador querer manter o seu salário? Não mesmo! Milhares de carteiros não têm casa própria, têm carteiros com condição de vida muito ruim, é a única categoria que está de porta em porta todos os dias, e nem na pandemia se furtou de estar ali, à mercê do vírus, trabalhando.

Para concluir, que mensagem você deixaria para os leitores do Jornal A Verdade? Em nome da categoria, a mensagem que eu deixo para os militantes da UP e leitores do jornal A Verdade é que a categoria dos Correios sofre todas as mazelas e opressões dessa sociedade, vindas desse governo e de todos os outros que nunca governaram pros trabalhadores, sempre pra banqueiros, empresários, bilionários, latifundiários, agronegócio, nunca pro povo. A gente sofre na pele isso e estamos na mesma trincheira! Carteiros, atendentes e OTTs, 80% de nós pagam aluguel, vivem muito mal, como qualquer trabalhador. Queremos todos a mesma coisa: o fim desse governo, o fim desse regime, e queremos de fato construir um Estado mais igualitário, com mais igualdade social, com acesso à renda, à comida, e que de fato o trabalho de quem constrói o mundo seja compensado de maneira honesta, porque nós construímos tudo no mundo, mas quem fica com o lucro é o patrão! Então é isso, queremos construir um Estado socialista para que os trabalhadores de fato comandem o Estado do povo para o povo, não para os patrões!

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