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A vacina é um direito do povo e um dever do Estado

Vinícius Stone
Pós-doutorando em Bioquímica


Profissional da saúde na linha de frente do combate à Covid. Foto: OMS.

RIO GRANDE DO SUL – Perto de completar um ano da primeira notificação no Brasil, a pandemia de Covid-19 já levou à morte quase 230 mil brasileiros, ou seja, cerca de uma a cada mil pessoas morreu de Covid-19 em nosso país. Além disso, as restrições impostas pela pandemia, associadas à péssima gestão do fascista Bolsonaro, levaram o desemprego a nível recorde em nosso país, atingindo mais de 14 milhões de pessoas. Além disso, o governo se recusou, durante esses meses de pandemia, a proporcionar um auxílio emergencial que de fato resolvesse os problemas das famílias trabalhadoras. Preferiu destinar mais de R$ 1 trilhão aos bancos, diminuiu o auxílio pela metade e finalmente acabou com ele para o ano de 2021.

Bolsonaro constantemente usa seu cargo para fazer lobby de medicamentos sem eficácia comprovada, que em alguns casos aceleraram a morte de pacientes e ainda estimulou seus seguidores a constrangerem e agredirem profissionais da saúde que se recusassem a fornecer medicamentos como cloroquina e ivermectina, que não são eficazes contra o novo coronavírus e estão sendo distribuídas pelo SUS em municípios como Porto Alegre, a partir do início da gestão de Sebastião Melo (MDB).

Desrespeitando todas as orientações da Organização Mundial da Saúde, o fascista Bolsonaro promoveu grandes aglomerações e desestimulou o uso de máscara, além de fazer pronunciamentos criminosos ironizando a gravidade da doença e desrespeitando o luto de centenas de milhares de famílias.

Recentemente, vários países iniciaram a vacinação contra a Covid-19 e, após forte pressão popular, o Ministério da Saúde finalmente iniciou a vacinação da população brasileira, com seis milhões de doses da vacina CoronaVac, produzida em parceria do Instituto Butantan com o laboratório chinês Sinovac.

Apesar da criminosa guerra ideológica que Bolsonaro promoveu contra a vacina, foi vencido e obrigado a iniciar a imunização. Em diversos locais do país o início da vacinação foi marcado pela alegria de profissionais da saúde e idosos que tiveram acesso ao direito de serem vacinados. Por outro lado, vimos também diversos casos de fraudes, como pessoas influentes “furando a fila”, furto de doses, profissionais que estão atuando na linha de frente serem preteridos por pessoas ligadas às empresas privadas que administram os postos de saúde e profissionais terceirizados da área da segurança, higienização e portaria de Unidades de Saúde terem seu direito negado pelas chefias das empresas.

Recentemente, vivemos um verdadeiro crime contra a humanidade em Manaus: acabou o oxigênio e os familiares das vítimas entraram em desespero para tentar salvar seus entes queridos. A falta de oxigênio afetou inclusive bebês prematuros e diversos pacientes precisaram ser enviados a outros estados. Além disso, graças à solidariedade latino-americana, o Estado recebeu 107 mil m³ de oxigênio vindos da Venezuela, país tão difamado e atacado pelo governo brasileiro e pelas potências imperialistas. Mais recentemente, o Estado de Rondônia iniciou o envio de pacientes para outros estados devido à superlotação. São cenas trágicas que anunciam o colapso da saúde no Brasil.

Frente a isso, é necessária a luta de todos os movimentos sociais, partidos políticos, coletivos e entidades no sentido de unificar toda a classe trabalhadora. Somente a luta do povo vai garantir a vacinação universal e gratuita!

O jornal A Verdade entrevistou Mellanie Fontes-Dutra, biomédica, doutora em Neurociências e pós-doutoranda em Bioquímica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, hoje uma das cientistas mais importantes do país que, junto de outros pesquisadores e pesquisadoras, criou a Rede Análise Covid-19.


Dra. Mellanie Fontes-Dutra. Foto: A Verdade.

A Verdade – O que é a Rede Análise Covid-19?

Mellanie Fontes-Dutra – A Rede Análise Covid-19 é formada por pesquisadores voluntários para o enfrentamento da pandemia. Surgiu no fim de fevereiro de 2020. Sentimos a necessidade de criar um grupo para os cientistas discutirem estes aspectos para que juntos pudéssemos criar estratégias de divulgação científica para a sociedade. 

Você acha que era possível ter um número menor de mortes em nosso país? 

Já tem estudos demonstrando que o engajamento nas medidas de enfrentamento vem salvando muitas vidas. É muito importante ter o engajamento das autoridades também. Elas devem restringir a mobilidade urbana e levar informação à população, através dos seus meios oficiais, para acessar o grande público. Fora isso, as autoridades são um exemplo para a população. Se você tem um líder que desqualifica a pandemia e acha que ela não é grave o suficiente, uma grande parcela da população vai outorgar essa narrativa. Com certeza era possível ter um número de mortes muito menor, caso houvesse engajamento com as medidas de proteção. A parcela de responsabilidade em relação a esse número é muito grande. Por que ainda não temos uma campanha de divulgação pesada como a do Zé Gotinha? Esse enfrentamento, que deveria vir das autoridades, vem de várias outras esferas, mas a responsabilidade de promover saúde é do Estado.

Como você enxerga o início da vacinação no Brasil?

Era esperado que o início fosse lento, pois temos poucas doses. Os acordos de transferência de tecnologia das vacinas aprovadas vão se dar lá pelo fim do primeiro semestre do ano. O que não era esperado era que entraves diplomáticos ocorressem para que os insumos farmacêuticos ativos (IFAs) chegassem ao Brasil. Os IFAs são muito importantes para as vacinas serem feitas, pois são o princípio ativo. E qualquer atraso leva à interrupção da produção, algo que não pode ocorrer agora. Esse início teve pontos muito negativos com esses entraves, que vêm de outros momentos em que a relação com países como a China foram estremecidas, por exemplo, por declarações completamente infelizes das autoridades. Essas coisas influenciam diretamente a nossa capacidade de vacinação. 

Qual a importância da vacinação?

A vacinação é uma ferramenta que previne que a pessoa tenha a doença ou o agravamento da doença. A vacina também tem a proposta de ser mais abrangente, especialmente a da Covid-19, pois sabemos que o vírus gera novas variantes e a vacinação é capaz de prevenir o potencial de reinfecção por diferentes variantes. É uma ferramenta robusta que tem o poder de gerar uma imunidade tão ou mais forte que a natural. Ela nos permite, a partir da imunidade de grupo, controlar os agentes infecciosos. Os casos de sarampo e pólio, por exemplo, vêm aumentando desde 2018 porque a cobertura de vacinação está baixando. As vacinas previnem cerca de dois a três milhões de mortes por ano, para se ter uma ideia. Não se pode falar de imunização de grupo sem falar de vacina.

Como você enxerga a desvalorização dos cientistas e das cientistas de nosso país, considerando que as bolsas de iniciação científica, pós-graduação e pós-doutorado estão congeladas desde 2013 e os concursos públicos em Instituições Federais de Ensino Superior são cada vez mais raros?

A desvalorização dos cientistas no país é trágica. Sabemos que a ciência começa lá na iniciação científica e muitas pessoas podem acabar não seguindo por não terem boas oportunidades durante a graduação. Boa parte da pesquisa científica brasileira é feita por estudantes de pós-graduação (mestrado e doutorado) que movem os laboratórios de pesquisa. Sem os pós-graduandos não temos recursos humanos para produzir ciência no Brasil. O cientista devolve o investimento público na forma de conhecimento, novas tecnologias, desenvolvimento etc. Eu mesma não sei se conseguiria seguir na pesquisa se não tivesse bolsa.

Deixe uma mensagem aos leitores de A Verdade.

A principal mensagem é: seja questionador. Uma sociedade questionadora não estará aberta a ser seduzida por narrativas milagrosas. Nunca abram mão de questionar. Tudo o que eu falei é passível de ser questionado. Pesquise para saber se o que eu estou falando faz sentido. As pessoas precisam se dar o benefício da dúvida para que não sejam seduzidas por coisas que não vão ajudá-las a agir na sociedade que elas querem mudar, para chegarmos ao ponto de ter a sociedade que tanto almejamos. A ciência é uma ferramenta muito poderosa e a sociedade precisa enxergá-la como uma aliada. 

 

Página 05 – JAV Edição 235

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