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Enem 2020 e o desastre da educação em tempos de pandemia

É assustador: 55,3% foi a taxa de abstenção do segundo dia de prova do Enem 2020, a maior na histórica do Exame Nacional do Ensino Médio. Este número significa que dos 5.523.029 inscritos da prova impressa, 3.052.633 não compareceram no segundo dia de prova. No primeiro dia, 2.842.332 (51,5%) ficaram ausentes.

Depois de quase um ano de pandemia, e, em consequência, quase um ano em que estudantes do país inteiro estão vivendo um processo de insegurança, sem condições e garantias de acesso à educação, com aulas remotas (ou à distância), sem acompanhamento e vivendo uma crise.

As evidências tendem das consequências disso para a educação brasileira ficarão cada vez mais explícitas nos próximos meses, quando saírem os dados sobre evasão escolar, acesso aos meios de ensino, abandono das perspectivas de estudo, por exemplo.

Desde que as aulas presenciais foram suspensas, iniciou-se um debate sobre como manter, minimamente, o contato com a educação durante o isolamento. Entidades estudantis, sindicatos, professoras e professores, especialistas se dedicaram a refletir sobre como permitir a participação, sem excluir e prejudicar ninguém.

No entanto, na contramão daquilo que se discutia, os governos estaduais e prefeituras do país introduziram metodologias de aulas remotas, aulas a distância, atividades não presenciais que desconsideravam as condições de igualdade de oportunidades, amplo acesso aos meios tecnológicos e garantia de direitos.

Resultado: em praticamente todo o território houve a inserção de políticas educacionais que, ou excluíam a maioria dos estudantes por não considerar as barreiras econômicas, sociais e sanitárias, ou apresentavam uma metodologia limitada, sem eficácia, que não contribuía na aprendizagem, ou eram a soma dessas duas situações anteriores.

Logo, os estudantes, em sua maioria esmagadora, não tiveram direito à educação de fato, com as garantias que a Constituição exige. Soma-se a este cenário todo o processo enorme que o movimento estudantil protagonizou em 2019 e 2020 com a luta em defesa da educação, contra os cortes patrocinados por Paulo Guedes e MEC, pelo adiamento do Enem.

Essas pautas tomaram conta do país e, no caso da prova do Enem, foi apresentada pela questão mais do que justa e necessária de compreender a grave situação sanitária da pandemia e também pela latente desigualdade educacional. A partir da enorme pressão, o Ministério da Educação lançou uma enquete sobre a data de realização da prova e a maioria dos estudantes votou para a data mais distante das opções que era no mês de março. Após divulgação do resultado, alguns meses depois, o Inep, de maneira totalmente autoritária, passou por cima do voto de milhares de estudantes e manteve a prova para janeiro, sem justificativas.

A abstenção no Enem acontece num período que vários estudantes não tiveram acesso à educação remota, que foram forçados a trabalhar, tiveram que cuidar de familiares com problemas de saúde, que perderam amigos e parentes para a pandemia, que passaram por um processo grande de desgaste emocional e que, em sua maioria, historicamente tiveram problemas para acessar aulas. Como resultado, um dos fatores determinantes foi a falta de perspectivas, a sensação de despreparo e insegurança para fazer uma prova como o Enem. E não menos importante a situação de quem não fez a prova com medo de se infectar e, dessa maneira, colocar e sua própria vida e a de quem está próximo em risco.

Tudo isso só reforça a dura realidade da juventude brasileira, os desafios, as necessidades, e como todos esses elementos apontam para aumentar a organização e a luta! É impossível se desenvolver nessas condições, não é coincidência que as dificuldades sejam justamente para quem já nasceu pobre e estuda em escolas públicas, tendo a todo momento que sobreviver ao sistema capitalista que esmaga os sonhos em todos aspectos da vida. Portanto, enfrentar essa situação e construir o novo, não é apenas uma “escolha” da juventude, é uma necessidade.

Nesse sentido, precisamos fortalecer ainda mais o movimento estudantil, organizar os grêmios, as entidades e associações, aumentar nossa atuação nas escolas, juntar com as professoras, professores, servidores públicos, todos e todas que estejam dispostos a lutar por uma educação de fato libertadora, inclusiva e popular, que transforme a vida do povo, que dê condições iguais, que tenha equidade e qualidade, sendo pública e gratuita.

Rafael “China”, presidente da Ames-BH

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