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Okinawa e Imperialismo: a organização da juventude e o socialismo como solução para os povos do mundo

União da Juventude Rebelião organizou curso sobre Okinawa e o Imperialismo na Ocupação dos Imigrantes, em São Paulo.

Kemi, Guilherme Goya, Tami Tahira e Yu Ohtsuki


SÃO PAULO – No último dia 10 de outubro, na Ocupação dos Imigrantes Jean-Jacques Dessalines, militantes da UJR promoveram a formação “Okinawa e Imperialismo”. Na apresentação, evidenciaram-se os problemas enfrentados pelo arquipélago de Ryukyu, em particular a ilha de Okinawa (chamada Utiná, em uma das línguas indígenas do arquipélago). A ilha já foi a capital do Reino de Ryukyu, uma nação independente até a colonização japonesa em 1879.

Desde o fim da II Guerra Mundial, a pequena ilha de Okinawa sofre as consequências dos “acordos de paz” firmados entre Tóquio e Washington, que estabelecem a permanência de bases militares e tropas estadunidenses no Japão. No entanto, a presença de soldados tende a gerar problemas como dependência econômica (a economia local passa a girar em torno das bases), acidentes, poluição sonora e violência sexual; assim, o Estado japonês despeja os problemas em Okinawa, que comporta, atualmente, mais de 70% das bases militares estadunidenses em território japonês, embora represente apenas 0,6% do mesmo. A própria ilha tem pelo menos 18% de suas escassas terras ocupadas por bases militares (as 14 instalações ocupam 223km² dos 1.200km² da ilha), apesar dos constantes protestos da população local.

Os militantes da Juventude sublinharam que a presença militar americana em solo okinawano é expressão do imperialismo; de lá saíram as tropas que cometeram atrocidades no Vietnã, e de lá as Forças Armadas dos Estados Unidos continuam ameaçando e desestabilizando a política regional no Pacífico, no leste e sudeste asiáticos.

Okinawa no Brasil

A imigração okinawana para o Brasil pode ser dividida, grosso modo, em duas ondas: o fluxo inicial de imigração oriunda do Japão (o primeiro navio, Kasato Maru, aporta em Santos em 1908), eram camponeses – tanto japoneses quanto okinawanos – que tiveram suas terras expropriadas pelo Estado japonês, que passava por um processo de modernização e militarização intenso com a Restauração Meiji, iniciada em 1868. O fluxo de imigrantes okinawanos mantém-se relativamente constante, apesar de tentativas do Brasil de limitar o ingresso de elementos da “raça amarela” em sua constituição racial, mas é intensificado logo após a II Guerra Mundial. Os 100 dias da Batalha de Okinawa, de abril a junho de 1945, custaram entre ¼ e ⅓ da população local, além de devastar a ilha.

Sobreviventes emigraram em busca de condições mínimas de vida, trazendo consigo os poucos bens materiais que restaram e os grandes traumas da guerra: pais a quem soldados japoneses entregaram granadas para que cometessem suicídio com a família; mulheres violentadas por soldados de ambos os lados; crianças que viram seus irmãos adolescentes coagidos a compor batalhões essencialmente suicidas; jovens que traduziam da língua nativa de Okinawa (uchinaaguchi) para o japonês ao encontrarem soldados imperiais, sob a pressão de salvar a todos por quem falavam.

A formação foi um chamado para jovens descendentes destes okinawanos ingressarem na UJR. Nossas famílias e nossa comunidade ainda carregam os traumas da violência da colonização e da violência xenofóbica quando aqui chegaram, dos silêncios e vergonhas de vidas inteiras; assim como a luta por autodeterminação em Okinawa continua frente à construção de mais uma nova base militar, contra a qual a população local – em particular os idosos que ainda lembram dos horrores da guerra – se opõe desde 1995, e continua protestando em plena pandemia, apesar de continuar ignorada pelos governos de Tóquio e Washington.

 

Manifestantes, principalmente idosos, sentam-se aos portões da área de construção em Henoko, impedindo a entrega de materiais. Novembro de 2020. Foto: Douglas Lummis/The Nation.

Convocamos essa juventude com a pergunta: como imaginar um futuro para o nosso passado? As condições materiais para o respeito e a realização plena de nossas culturas, nossas línguas e nossas terras ancestrais não serão dadas sob o capitalismo. Como muitos povos indígenas, tradicionais e originários, no Brasil e em Okinawa, na Palestina e nos Estados Unidos, do Pacífico ao Atlântico, este sistema econômico é nosso inimigo. Além de ocupar as terras de Okinawa, a exploração desenfreada da natureza ameaça a existência da ilha com o desastre climático; desde tempestades tropicais agravadas pela mudança climática até a inundação da ilha devido ao aumento do nível do mar. A atividade foi muito bem recebida pelos cerca de quinze jovens que não desanimaram sob a manhã chuvosa de um domingo e marcaram presença. Após as apresentações, nas quais foram detalhados os impactos do imperialismo em Okinawa, foi realizada uma rodada de debate. Neste momento, com falas emocionadas e combativas, os inscritos relembraram traumas familiares causados pela exploração da terra ancestral, mas também mostraram disposição em se aproximar e somar nas fileiras da UJR.

Assim sendo, vemos na União da Juventude Rebelião nossa maior ferramenta de luta. É através desta juventude combativa, comunista e internacionalista que organizaremos mais formações, pela qual disputaremos a memória e a comunidade, com a qual caminharemos em direção à superação dos traumas intergeracionais – com solidariedade e diálogo, amparados pelo marxismo-leninismo e pelo amor não só ao nosso povo, mas aos povos do mundo, faremos a luta de Okinawa aqui no Brasil também. Em todo território que estivermos, lutaremos pela emancipação do povo trabalhador. Até a vitória, sempre!

Ao final da Batalha de Okinawa,

Montanhas foram queimadas. Vilarejos foram queimados. Porcos foram queimados.

Vacas foram queimadas. Galinhas foram queimadas.

Tudo na terra foi queimado.

O que nos restou para comer?

Foi o presente do oceano.

Como podemos retribuir nossa gratidão ao oceano

Destruindo-o?

Yamashiro Yoshikatsu, uminchu (pescador) de Okinawa

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