UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

quarta-feira, 29 de junho de 2022

A lama do capital

Thomas Toledo (MG)


ITABIRITO – Minas Gerais sofreu com destruições em janeiro causadas, em parte pelas fortes chuvas, mas, principalmente, pela ação da exploração predatória da mineração e a ausência de políticas públicas capazes de conter a especulação, o monopólio e a ganância do grande capital. As cidades da região central do estado, em particular, foram as mais atingidas e são as que têm como sua principal atividade econômica a mineração.

É o caso de Itabirito (MG), que enfrenta a pior enchente de sua história. O município é um dos que tem histórico de exploração capitalista por meio da atividade minerária. A cidade da Região dos Inconfidentes fica a cerca de 50 km da capital mineira e tem enfrentado dias difíceis. Assim como outros municípios, a cidade sofreu um grande estrago com a invasão da lama em vários locais. Trabalhadores e trabalhadoras perderam mercadorias e equipamentos, edificações públicas foram danificadas – prejudicando serviços como rede de abastecimento de água e fornecimento de energia. O deslocamento interno também foi comprometido, assim como as rodovias de acesso (BR-040 e BR-356).

O comportamento padrão da grande imprensa e do governo em geral é de priorizar o foco na intensidade das chuvas. É aí que mora o perigo! Afinal de contas, será que o “problemão” que os municípios enfrentam com enchentes e rompimentos vêm de cima?

Na perspectiva da “exploração capitalista dos territórios” (atividades minerárias, o uso indiscriminado de asfaltamentos e estrangulamento dos rios), podemos entender que desastres como esse em Itabirito e em outras cidades mineiras são socialmente construídos, ou seja, não são desastres meramente naturais. Importante destacar também a profunda luta por moradia.

Sob uma perversa lógica de subserviência à especulação imobiliária, a moradia se torna uma das mercadorias mais especiais do modelo capitalista, beneficiando uma lógica de loteamentos privados e condomínios. Em contrapartida, criando as tais “áreas de riscos” habitadas pelos mais pobres. A luta de classes se expressa com toda a força na chamada valorização dos espaços, nos investimentos regionalizados e na mobilidade urbana.

Controle dos desastres

O que chamou a atenção da população foi a grande quantidade de lama, que veio junto com o Rio Itabirito. O conteúdo do material é bastante suspeito, devido a suas características físicas – muito semelhantes ao material contido em barragens de rejeitos. Até o momento, a principal mineradora da região (Vale) não se pronunciou. A Prefeitura de Itabirito e autoridades do município tampouco cobraram explicações. É urgente que respostas sejam dadas e que os responsáveis deste desastre sejam punidos.

Como se sabe, Itabirito é “rodeada” de barragens – muitas dessas, em estado de alerta. Mas por que o controle de segurança dessas barragens é feito somente pelas mineradoras? Os moradores não podem ficar à mercê das informações que são controladas somente pelas empresas e governos. A sociedade organizada precisa participar diretamente desse controle e decisões por meio de movimentos sociais, comitês e conselhos populares. O terror das mineradoras não pode ter o controle absoluto quando o assunto é barragem.

Interesse das cidades

O avanço da atividade minerária em Minas reflete uma grave realidade de concentração de renda e riscos ao meio ambiente. Entretanto, esses grupos oferecem danos irreparáveis e colocam os municípios como verdadeiros reféns de sua dominação – territorial, econômica e política.

Eva de Fátima Santos (45), mora com o marido e as duas filhas na comunidade Vila Alegre. Perderam praticamente tudo que tinham na casa. Sofrendo também com a alta dos preços de itens básicos, Eva conta do esforço para adquirir os bens materiais: “Tudo que a gente consegue é com muito sacrifício. A gente compra coisas pra pagar em 12 vezes. Coisas do quarto das minhas filhas que eu ainda tenho que pagar e já nem tenho mais”, lamenta Eva.

O comerciante Filipe Guimarães (29) também foi diretamente atingido. Além da casa, Filipe teve o seu comércio destruído. Com quase três anos de sua pequena empresa, Filipe conta que, durante a pandemia, a vida do trabalhador ficou ainda mais difícil: “o que pegamos para vender aumentou mais de 40% depois da pandemia”, afirma o pequeno empresário.

Além dos prejuízos, a falta de um suporte imediato mais forte do chamado poder público – Município e Governo de Minas, fazem Filipe e seu sócio estarem com as portas fechadas desde a catástrofe. Para ele, “quem mais ajuda são as mobilizações da sociedade”.

É justo culpabilizar a natureza por desastres construídos socialmente? Até quando será permitido que grandes grupos financeiros sejam os controladores desta atividade minerária que vem destruindo todo o Estado? É preciso urgentemente discutir a reestatização deste serviço em nosso país. A classe trabalhadora precisa estar no comando dos interesses das mineradoras e os municípios precisam se proteger desta mineração predatória do capital.

Por outro lado, o modelo de cidade que tem como base a especulação e a exclusão de grande parte de seus habitantes deve ser superado e as riquezas produzidas devem servir para propiciar vida digna às pessoas. O lucro do capital não está acima da vida!

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