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segunda-feira, 28 de novembro de 2022

O que tem por trás do racismo nos supermercados brasileiros

Militante da UP faz levantamento, após ter sido perseguida, sobre casos semelhantes na mesma rede de supermercados


Foto: reprodução.

Carla Castro

OPINIÃO – O fascismo avança em nossa sociedade em todos os setores. Os motivos são muitos, mas obviamente, o governo do genocida Bolsonaro abriu ainda mais as portas do inferno, dando voz a pessoas que têm ideias tão retrógradas quanto ele. Sabemos que o processo de fascistização carrega consigo alguns fatores, como o racismo, o capacitismo, a lgbtfobia e o machismo. 

Neste artigo, vou me deter ao primeiro “ismo” que citei. Como o próprio Jornal A Verdade noticiou nas redes sociais, no último final de semana fui vítima de racismo nas dependências do supermercado Zaffari na zona norte de Porto Alegre, propriedade de uma das famílias mais ricas do Rio Grande do Sul. Ao caminhar pelo setor de higiene, onde fui escolher um creme de cabelo e um xampu, passei a ser seguida por um segurança da loja. O motivo ficou bem nítido: meu cabelo foge do padrão aceito pelo supermercado. 

Questionei o homem que me perseguia, da mesma forma que fiz com o chefe da segurança e o gerente. Todos afirmaram que era uma atividade de rotina. Contra-argumentei que esse costume era apenas para negros, pois sabia de casos que iniciaram exatamente como o que estava ocorrendo comigo. E, infelizmente, tenho de concordar com eles que é uma prática comum: o Carrefour, aquele onde o Beto foi espancado até a morte, encomendou uma pesquisa um ano após o fato e os dados indicam que 6 a cada 10 brasileiros já viram negros sendo discriminados em lojas comerciais (supermercados, shoppings e lojas). O mesmo estudo apontou que a população brasileira considera que o país é racista. 

Brasileiro não se diz racista, mas 43% dos brancos dizem que não gostariam de ver um filho casado com uma pessoa preta

A mesma pesquisa afirma que 56% dos brasileiros se consideram negros, 99 milhões de pardos e 20 milhões de pretos. O que mais me chama atenção lendo detalhadamente esse material é que 89% dos negros e pardos consideram o país racista e 74% das pessoas de outras cores também, mas quando questionados se têm atitudes racistas apenas 4% assumem e outros 85% afirmam que são contra o racismo e que o combatem. A conta não fecha até porque entre aqueles que afirmam não serem racistas, 43% dos brancos dizem que não gostariam de ver um filho casado com uma pessoa preta. 

Sempre ouvi da minha avó, que frequentou apenas um mês na primeira série do Ensino Fundamental, que estudar era o melhor caminho para termos melhores condições de vida. Isso me levou a cursar uma segunda graduação, o curso de Direito.

Hoje, depois de três dias do fato, fiz uma rápida busca em dois sites que todo o estudante de Direito deve fazer: o Tribunal de Justiça do Estado e o JusBrasil. Ao colocar a expressão “Cia Zaffari”, constatei que tem muitas pessoas e empresas acionando essa instituição de grande prestígio e que dá pra escolher a área desses processos, variam em tributário, trabalhista e cível. Refinei a busca e localizei dois processos.

Pelo menos dois casos de injúria racial levaram o Zaffari à condenação

O primeiro é de uma ex-operadora de caixa, de 20 anos, que sofreu insultos de um colega em ambiente de trabalho e nada foi feito. Em entrevista concedida ao Portal Geledés, a mulher afirmou que “aguentou tudo para segurar seu trabalho”, mas que incentivada por clientes, ingressou na justiça. A Cia Zaffari foi condenada pelo Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT4) a pagar R$ 30 mil em indenização por injúria racial.

O segundo foi um caso notório, amplamente divulgado na mídia burguesa e que é usado como estudo na aula de Direito Penal. Na sentença, a juíza de Direito Karla Aveline de Oliveira condenou a Cia Zaffari a indenizar em R$ 60 mil três jovens negros e foi além, descreveu o seguinte texto nos autos: 

“Exatamente assim, como meros ‘neguinhos’, pessoas sem importância, adolescentes sem defesa, não humanos, seres invisíveis e sem valor, foram vistos Ronaldo, Alessandro e Ygor naquele final de tarde, quando expostos a uma revista desmotivada, humilhante e truculenta.”

Vale lembrar que neste caso, além do valor indenizatório, a empresa pagou multa por se negar a entregar o DVD com as imagens que serviriam como prova e por este motivo foi condenada por litigância de má-fé, por negar e após dois anos apresentar as imagens que comprovaram a abordagem violenta a dois meninos de 14 anos e um de 15 anos. O trio foi ao supermercado localizado na avenida Otto Niemeyer, na capital gaúcha, para comprar bolacha, mas ao efetuarem o pagamento no caixa, foi abordado de maneira abusiva por cinco seguranças da empresa, os quais ordenaram que os meninos abrissem as mochilas escolares e esvaziassem bolsos. A magistrada apontou em sua decisão que a abordagem foi desmotivada, abusiva e truculenta e resultou em abalo moral e psíquico.

Por acaso, a defesa da empresa alegou ser “fantasiosa a história narrada que constitui-se em uma aventura jurídica com o intuito de auferir lucro”. Foi exatamente isso que o chefe da segurança me disse, que eu estava vendo algo que não existia e que o papel do funcionário era me dar segurança e que além disso, na empresa não viam as pessoas por cor porque todos são iguais. 

Vejam bem, fantasiosa é a postura de uma empresa que está em 9º lugar no ranking de supermercados do país e que fechou 2020 com lucro superior a R$ 6 bilhões. O mau caratismo burguês tem apoio jurídico como podemos ver, pois têm a cara de pau de juntar uma petição com informações que não são verdadeiras por saber que tem uma banca de advogados para representá-los e que sairão impunes. Ademais, os valores pagos pela Cia Zaffari nesses dois exemplos são irrisórios perto dos lucros de seus donos, extraídos a partir da exploração de milhares de trabalhadores. 

O racismo não é um fato isolado, ele faz parte do sistema capitalista. A nossa única alternativa como negros e trabalhadores é nos organizar para fazer com que casos como o que ocorreu comigo e com os demais citados neste texto não saiam da memória a cada praça adotada pela empresa. Por isso, defendo e trabalho cotidianamente para a construção de uma sociedade socialista, onde não haja exploração do homem pelo homem, é urgente.

*Jornalista e membra do Diretório Municipal de Porto Alegre da Unidade Popular pelo Socialismo (UP)

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