UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Resgatando a radicalidade da nação/pátria

Stefan Chamorro Bonow*
Porto Alegre/RS


OPINIÃO – Para início de conversa, precisamos deixar óbvia a compreensão de que para alcançar a radicalidade, devemos nos direcionar à raiz da questão, base de onde provém a palavra radical. Na sociedade, ir à base, à origem – raiz – é ir onde tudo toma forma; é ir ao povo.

Atualmente, intitular-se defensor da pátria ou da nação parece ser coisa de conservador, no sentido de ser de gente de direita. Embora as palavras pátria e nação, que dão origem aos ideais que se deseja defender, sejam de origens diferentes, há a impressão de se tratar da mesma coisa.

Em realidade, essa impressão, ou esse senso comum, existe para distorcer e enganar a radicalidade da ideia. Pátria diz respeito à terra de origem de nossos ancestrais, enquanto nação diz respeito às pessoas que possuem laços que as unem. Ainda equivocado é imaginar que elas sempre se referiram a pessoas que desejam estar contra mudanças, que querem só preservar o que existe. Não! Elas cresceram e se desenvolveram por afirmar desejos de mudanças, como símbolos de novos e melhores tempos, como ideias daquilo que, no seu tempo, chamaríamos de esquerda. Faz pouco mais de um século que adquiriu um sentido covarde e mesquinho. Devemos resgatar o significado atribuído pelo próprio povo.

O conceito de nação passou por muitas transformações com os séculos. Em comum, dá para dizer que todas as variações vieram da Europa.

Originalmente, a palavra vem do latim: natio (nascer). Há mais de 2 mil anos atrás, significava o jeito como os romanos chamavam os povos estrangeiros. A ideia era de um sentido só cultural; servia para identificar aqueles que eram diferentes. A compreensão não tinha significação política, e assim sobreviveu por muito tempo.

 Para lá de 1500, o sentido da palavra foi se transformando mais rapidamente. O motivo foi por ter passado a interessar a quem mandava. Para os reis daquela época, que governavam populações grandes e que falavam muitas línguas e que tinham religiões diferentes, era melhor dizer que nação era todo o conjunto de pessoas dominadas, de súditos. A nação era feita de todo mundo sobre quem um rei reinava e mandava. Isso significava que a relação era direta com o governante; também chamado de soberano. Aqui, a nação adquiriu um significado político porque ela é vista como o conjunto dentro do território em que os funcionários do governo fazem cumprir a vontade do rei. 

No começo do século XVIII, na Inglaterra e na França, as pessoas que criticavam os abusos e privilégios dos reis e dos seus beneficiados (nobres, bispos, cardeais da Igreja) começaram a exigir que o povo deveria ter direitos para ser parte da nação. Os governos deveriam fazer mais do que mandar, mas garantir direitos e proteção para a população do reino, para que ela se sentisse parte de uma nação e assim ter motivo para continuar obedecendo. 

Busquemos agora a vinculação com a pátria. Originalmente designava o território local, como a aldeia ou a cidade, o termo também passou por alterações. Acabou ampliando o espaço de sua delimitação, adquirindo virtudes e emoções, ao se relacionar com o Estado e com o governo. Por volta do século XVIII, na Europa, passou a adquirir maiores dimensões, para além do lugar de nascimento, passou a se identificar com o país inteiro. 

Esses críticos da tradição, chamados iluministas, diziam existir uma relação entre o Estado (que é a soma do governo, das leis, dos funcionários dele, da justiça, das forças armadas) e a nação. Daí veio o significado da época das grandes mudanças, da Revolução Francesa, que via no povo a nação. Já, a nobreza seria um parasita, contrária à organização da nação.

Dentro do vocabulário revolucionário, pátria e nação foram sendo reivindicadas como alternativa política, como resistência à opressão; isto é, servir à pátria/nação ao invés do rei. Pátria era a terra da nação, não do governante

Ao serem invadidos pelos países inimigos da Revolução Francesa, pertencer à nação, para os franceses significava lutar por uma causa importante contra aqueles que são seus inimigos. A causa era o direito de voto, a reforma agrária. E mais, era o direito de ser julgado como igual, diante da lei, a qualquer outro, independente da origem da sua família, do seu sobrenome. 

Outra compreensão de nação tomou forma à medida que os povos explorados iam se revoltando e desprezando os valores culturais sofisticados, arrogantes e metidos a superiores, mantidos pelas nobrezas europeias e imitados por banqueiros, comerciantes e empresários, mais conhecidos como burguesia. Pois a burguesia, apesar de desejar tomar o poder das mãos dos reis e dos nobres, os admirava, invejava o estilo de vida dos nobres e tentava imitá-los. Contra isso uma outra visão nasceu. Uma visão novamente baseada na cultura, diferente da política. Essa visão buscava mostrar que nação era o coletivo de pessoas que compartilhavam costumes, crenças e tradições. Para eles, a nação era aquilo que as pessoas humildes, a maioria da população, compartilhavam entre si, não era o que a elite fazia, consumia e exibia, pois muitas destas coisas eram importadas das elites de outros lugares. No fundo, nenhum povo seria melhor que outro, seria apenas diferente, porque ser humano é ser parte de um povo e todo povo é naturalmente diferente dos demais. Ser diferente seria aquilo que torna os humanos iguais.

No início do século XIX, fosse no sentido político ou cultural, nação já aparecia nos escritos dos pensadores, com um sentido que o aproximava do sentido de pátria. A pátria era a bandeira a ser levantada, ao longo do século XIX, com um sentido contrário à invasão externa, como base justa para a resistência e uso da violência.

Fosse qual fosse a compreensão de nação no início do século XIX, ver-se como parte de uma nação era entender que existia uma comunidade de interesse representado por pessoas que desenvolviam de forma unida, livre e de forma igualitária, valores ou governos que atendiam às suas visões de mundo. 

Algo que o camarada Stalin concluiu, no seu texto “o marxismo e o problema nacional e colonial”, ao analisar o atraso em determinadas partes do mundo. A opressão e exploração a que se submetiam determinadas nações eram causas do atraso. Contra isso, defendia o pleno direito de autonomia e desenvolvimento das nações.

Na metade do século XIX, a burguesia já possuía o controle econômico da maioria dos países da Europa e dos EUA também. Suas vontades predominavam na criação das leis nesses lugares. Os pensadores burgueses passaram a abraçar o conceito de nação, fosse ele cultural ou político. Na visão cultural, os pensadores burgueses passaram a defender a existência de que existem nações que são superiores a outras. Algo que começou a ser ensinado às crianças nas escolas. Ensinava-se datas, lugares importantes, as belezas naturais, os nomes de heróis, bem como nomes de inimigos e de seus povos. Tudo no interesse de melhor preparar cidadãos obedientes em caso de guerra contra outros países. Uma visão assim se fortaleceu após o crescimento das ideias socialistas de Marx e Engels que, na prática, melhor desenvolveram os sentimentos igualitários e de elevação de autoestima presentes dos defensores do nacionalismo. O socialismo científico, mais conhecido como marxismo, levou a organizar esses mesmos povos que se viam como partes de nações, sob forma de partidos feitos por pessoas, camaradas, iguais em opinião, direito de manifestação, agora também unidos e disciplinados. 

Patria ou morte, venceremos!

As elites compostas pela burguesia, membros do clero e herdeiros da nobreza sobrevivente encontraram na nação uma cortina de fumaça para ambições, criando o nacionalismo. Fosse ele político ou cultural, um motivo de união foi feito para justificar a intensificação da exploração dos outros. 

Após 1850, houve uma aproximação entre os altos estratos da burguesia e o Estado nos diferentes países da Europa ocidental, onde até então prevalecia uma rivalidade. As divergências que separavam a burguesia e a nobreza foram suavemente eliminadas em nome de uma estabilidade que arrefecesse novos ímpetos revolucionários que pudessem surgir. Não à toa, generais da época diziam que a nação e o Estado deveriam coincidir e que o indivíduo deveria estar disposto a qualquer sacrifício em nome da nação. Pregavam a supremacia do Estado, cujo instrumento de política era a guerra e cujo direito de fazer a guerra, pela honra e interesse da nação, não podia ser contestado.

Essa forma burguesa de nação agressiva estimulou a violência ofensiva. Argumento de dominação, ao mesmo tempo que buscava colocar pessoas contra o socialismo. Princípios assim se afirmavam para eliminar a luta pelas conquistas sociais, para justificar a submissão aos conquistados.

Todas essas medidas foram implementadas no interesse de manter os trabalhadores livres da influência das doutrinas de esquerda. Perto do final do século XIX, ao ver que o movimento operário persistia em se organizar sob as ideias marxistas, partidos foram proibidos em diferentes lugares. 

A divisão entre classes e entre nações só fez piorar o acesso à educação, ao trabalho digno e à saúde. Elas continuaram permanecendo para poucos. Para impedir a união e revolta justa, os pensadores burgueses mais estimulavam o ódio e o desejo de dominação, voltando a classe trabalhadora para o exterior, através do imperialismo. A utilização da superioridade econômico-técnico-militar se tornou naturalizada por uma pretensa superioridade nacional.

A popularização dessa noção presunçosa, exclusivamente vinculada a virtudes masculinas, racistas, começou entre as elites. Representou um reforço à ideia de superioridade, mas também um reforço ao orgulho de origem social, para potencializar a agressividade. Portanto, a redefinição dos valores em torno da nação precisa ser pensada a partir dessa perspectiva. Passou-se a se ligar nação, cada vez mais, à ideia de cultura superior, de raça superior, ao passo que, o aspecto político se voltou à preservação da tradição pelo respeito às instituições e à obediência ao governo. A nação não se orientava mais pelo dinamismo, pela ação; mas pelo seu contrário, a conservação, tornando-se símbolo do conservadorismo.

As burguesias queriam garantir suas conquistas sem a ameaça dos trabalhadores. Daí o contínuo frisar da necessidade de obediência, e da união em torno de uma origem comum, e que encontra o seu foco na guerra contra os outros, sejam mais fracos ou que pensam diferente.

É esse nacionalismo, base da exploração imperialista, que deve ser combatido. O domínio imposto por europeus, por EUA e Japão sobre América Latina, África e Ásia, com o objetivo de roubar as riquezas sob justificativa de direito do mais forte sobre o mais fraco e inferior deu os contornos do nacionalismo. A ele deve se dar combate, como mais uma vez lembra o camarada Stalin, combatendo a burguesia opressora, normalmente composta pelos estrangeiros parasitas e seus ricos aliados locais, indiferentes ao destino da sua nação; mas lembra que não é o povo que se deve combater. O nacionalismo morre com a morte da burguesia. A eliminação da burguesia garante o potencial para o livre e pleno desenvolvimento da nação, mediante a eliminação da propriedade privada sobre as terras, sobre as fábricas e bancos, com a implantação do socialismo.

Nas mãos dos pensadores burgueses e de origem nobre, como a nação, foi sendo usada para defender outras interpretações. Assim, ao invés de um sentido revolucionário, passou a ter outro mais conservador. 

Voltemos à raiz, voltemos à essência da ideia desenvolvida nas épocas em que o povo reivindicava a pátria e a nação com o propósito de construir algo novo, algo seu. Seu sentido radical é o sentido revolucionário, um sentido de esquerda. Não deixemos que continuem tentando nos enganar. A pátria e a nação são nossas. São para que reivindiquemos as mudanças corretas, as mudanças que fortalecerão sua raiz, que é o povo do Brasil.

*Historiador, professor do IFRS e militante do Movimento Luta de Classes

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