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terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Racismo e capitalismo

Foto: Reprodução

Atualmente, fica muito claro que, não é de interesse da burguesia modificar a estrutura excludente no país, muito pelo contrário, Malcolm X define isso muito bem, “Não existe capitalismo sem racismo”. A burguesia se pauta no racismo para gerar cada vez mais lucro e perpetuar o sistema desigual e cruel.

Luiz Filipe Calaça/PE, Recife, militante da correnteza e da UP


O racismo enquanto fenômeno vai muito além da escravidão, isso é perceptível, principalmente, quando se observa que mesmo após a abolição da escravatura, o tratamento dado à população negra era oposto ao tratamento às pessoas brancas, perante o Estado brasileiro. Assim, isso se torna muito claro quando na primeira proposta da constituição brasileira, a Constituição de 1823, a abolição é uma das pautas, porém, mesmo que fosse uma constituição anti-escravista, os negros eram proibidos de votar, e não poderiam exercer seus direitos como cidadãos. Ou seja, mesmo livres os negros nunca seriam iguais aos brancos, impossibilitando a igualdade em direitos e em oportunidades, jamais seriam “cidadãos completos” perante o estado burguês sofrendo pra sempre com uma “mancha indelével” (Nabuco, 1883).

Desde o século XVI, quando a escravização da população africana começa a ser feita pelos latifundiários e comerciantes burgueses, a religião católica serve de grande suporte também a esse sistema escravista, caracterizando os negros como “sem alma” e inferiores. Desse modo esse auxílio é condizente com as ações das religiões cristãs que são essenciais até hoje para a alienação, Moraes (1998, p.211) explica isso, “os interesses mercantis do tráfico negreiro (oferta) teriam impulsionado a escravidão do negro no Brasil (procura), pois o tráfico era uma atividade econômica altamente rentável e servia como item de acumulação primitiva de capital”, resumindo, o tráfico de escravizados era de total interesse burguês na busca pelo lucro.

Sabendo disso, como, supostamente, se muda esse pensamento que vem sendo impregnado na mente das pessoas por mais de 300 anos, por meio da religião, das leis, das ciências eugenistas, de que negros são “sem alma” e inferiores? Com certeza, não é com a Lei Áurea, já que, até a forma com que se conta a história dessa lei ainda exclui toda a luta da população negra, que ocorreu por séculos, e reduzindo tudo isso à vontade de uma “princesa redentora”, como é pintada a Princesa Isabel. Até porque, “Não veio do céu, nem das mãos de Isabel essa liberdade”, e diversos negros lutaram sua vida toda por igualdade e contra o racismo, um grande exemplo é Feliciano André Gomes, um grande deputado negro e pernambucano, considerado na época, por sua genialidade um “preto branco” (Jornal do Recife, 1927), demonstrando que até as fontes informativas tinham um teor abertamente racista que condizem com os ideais burgueses.

Por isso, para entender a forma como ocorre o racismo atualmente, é preciso voltar historicamente, entendendo que, além de tudo, a criação e a perpetuação do racismo é obra da burguesia e da sua sede por lucros. Pois bem, “o tráfico de escravos emergiu como um instrumento necessário para atender a demanda crescente de mão-de-obra da economia açucareira brasileira” (MORAES, 1998). No início, parte da burguesia tinha interesse em mão de obra para os seus latifúndios e outra parte no grande potencial de lucro na comercialização dos escravizados, então há um incentivo grande nesse “mercado”, criado pela subversão da burguesia. Ainda assim, mesmo quando ocorre a abolição, um dos grandes motivos para a luta contra a escravidão era a necessidade burguesa de mercado consumidor, nunca foi, nem nunca será por bondade e, muito menos, por empatia.

Atualmente, fica muito claro que, não é de interesse da burguesia modificar a estrutura excludente no país, muito pelo contrário, Malcolm X define isso muito bem, “Não existe capitalismo sem racismo”. A burguesia se pauta no racismo para gerar cada vez mais lucro e perpetuar o sistema desigual e cruel. Evidentemente, sabe-se que a marginalização e o desemprego da população negra são completamente aproveitados para os escravizar, mais uma vez, a favor dos interesses burgueses, gerando um exército de reserva e forçando a população em geral a aceitar trabalhos com condições precárias e desumanas, dando espaço para a escravidão moderna. A instituição Walk free, que luta internacionalmente para o fim da escravidão moderna, aponta que mais de 400 mil pessoas são vítimas da escravidão moderna nos Estados Unidos, país símbolo do capitalismo.

Dessa forma, para entender a situação racial no Brasil, olhar a luta de classes latente que ocorre desde a formação do capitalismo. Portanto, todo esse contexto denota um fenômeno violento contra a população negra que ocorre há séculos, e que se baseia em proteger os interesses da classe burguesa. Evidentemente, esses interesses são dialeticamente opostos aos interesses dos negros, já que, desde sua formação, a burguesia é quase que exclusivamente branca e o povo negro, em sua maioria, compõe o proletariado,dados do IBGE confirmam, “… a população branca ainda é maioria – oito em cada dez – entre o 1% mais rico da população. Entre os mais pobres, por outro lado, três em cada quatro são pessoas negras”. Consequentemente, fica muito claro que, para essa classe que possui domínio do poder estatal, e faz de tudo para se manter com ele, não é vantajoso o crescimento econômico, cultural, político ou de qualquer âmbito para população negra.

Dessa maneira, os resquícios históricos desse sistema se tornam evidentes não só pelas ações notavelmente racistas que vemos diariamente, mas também, na linguagem, em “piadas”, olhares estranhos, abordagens policiais, tratamento diferenciado e de diversas outras maneiras. E assim como no poema “emparedado” (Cruz e Souza, 1898), a cor sempre parece criar paredes para os negros, e o capitalismo somente intensifica isso a cada uma das suas crises e artimanhas para se manter em vigência.

Finalmente, só nos resta concluir que essa estrutura social ou “aparelhos ideológicos do estado” (Althusser,1970), que reproduzem os interesses burgueses, reproduzem também o racismo, machismo, LGBT-fobia e todas as formas de preconceito. Já que, todos esses preconceitos estão diretamente ligados a uma herança de poder burguês que ocorre desde o século XVI, quando se potencializa o processo de formação dessa classe nas “grandes navegações”, e que se mantém até hoje gerando desigualdade, crueldade e genocídio a toda a população, e principalmente, à qualquer um que se oponha aos interesses desse sistema falido e em constante crise que é o capitalismo.

Do mesmo modo, é justamente por essa impregnação da ideologia do capital em todos os entes da sociedade burguesa, que se torna imprescindível uma revolução nos métodos marxista-leninistas e mudança material da realidade (Lenin, 1902). Entretanto, ainda existem os que acreditam em conciliação e em um “capitalismo brando”, mas essa possibilidade nunca existiu, não existe e jamais existirá, já que, a burguesia é a classe que explora todos os trabalhadores por séculos e que baseia seu sistema na exploração do homem pelo homem e nas desigualdades sociais. Decerto, como somos vítimas desse sistema, somos “atravessados pelo capital” (Althusser, 1970), restando como a única forma de acabar com as desigualdades uma revolta, com a finalidade clara de acabar com a ideologia burguesa e implantar uma ideologia do proletariado, o socialismo.

Naturalmente, enquanto o capitalismo se manter e continuar tendo posse de todos os aparelhos do estado para alienar e se aproveitar do povo, divulgando sua doutrina nefasta, nunca será possível uma verdadeira mudança na estrutura social, e a desigualdade se manterá. Por fim, nos resta enquanto entes dessa sociedade doente, que é a sociedade burguesa, acabar com esse sistema econômico que mata milhares de pessoas diariamente, e instaurar, através de uma revolução socialista, um regime do povo, para o povo e com o povo. Tornando realidade o “homem novo” (Che, 1965), e como resultado a constituição de uma sociedade com interesses de classe universais (Marx e Engels, 1902), acabando com as desigualdades sociais geradas pela sede de lucro.

 

Fontes

Nabuco, Joaquim; O abolicionismo, 1883.

Moraes, José; Caminhos das civilizações História integrada: Geral e Brasil. São Paulo: Atual, 1998.

Jornal do Recife; Edição n. 246, página 1, 1927.

Walk free; MORE THAN 400,000 MODERN SLAVES ARE EXPLOITED IN THE UNITED STATES, 18/07/2018.

Agência Brasil; IBGE: negros são 17% dos mais ricos e três quartos da população mais pobre, 02/12/2016.

Cruz e Souza, João; O emparedado, 1898.

Althusser, Louis; Ideologia e aparelhos ideológicos do Estado, 1970.

Lênin, Vladimir; Que fazer? 1902.

Guevara, Ernesto; O socialismo e o homem em Cuba, 1965.

Marx, Karl e Engels, Friedrich; A ideologia alemã, 1932.

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