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terça-feira, 23 de julho de 2024

A cidade com mais casos de violência contra a mulher do que roubos

Thauany Pires | Brasília


MULHERES – No ano de 2022, a recente cidade Água Quente, no Distrito Federal, teve mais crimes relacionados à Lei Maria da Penha do que de qualquer outra natureza. A cidade faz divisa com o Estado de Goiás e os primeiros moradores começaram a chegar em 1994, mas seu reconhecimento como Região Administrativa do DF só aconteceu no final do ano de 2022, fato que dificulta o levantamento de dados sobre a realidade da região. 

O abandono do Estado se apresenta, dentre outras formas, com a falta de serviços básicos na localidade. A delegacia mais próxima da cidade fica a 30 minutos de carro e, para ter acesso de transporte público à delegacia, é preciso pegar dois ou mais ônibus. Essa dificuldade influencia na subnotificação dos casos de violência de gênero, fenômeno que já ocorre em crimes deste tipo. Mesmo assim, entre janeiro e outubro de 2022, foram registrados, nessa região, 58 casos que se enquadram na Lei Maria da Penha.

Pedro da Silva tem 27 anos, mora na região há mais de dez anos e relatou ao jornal A Verdade um caso que presenciou. Um deles foi quando sua vizinha foi vítima de violência doméstica: “A gente estava bebendo aqui na varanda de casa, ele (marido) pulou o portão e começou a bater nela. Depois encontramos uma faca no quintal”.

O cenário de descaso com a vida das mulheres não é exclusividade dessa recente região distrital. Entre janeiro e outubro de 2022, o Distrito Federal registrou 13.931 ocorrências de violência contra a mulher, isso significa uma média de quase 46 ocorrências por dia. Em 2022, 18 feminicídios foram consumados no DF e houve 66 tentativas deste crime. Em 2023, entre janeiro e março, já foram nove feminicídios.

Um homem que comete feminicídio ceifa a vida de uma mulher e mutila a vida de várias outras pessoas. Paulo Roberto Moreira Soares foi um dos que cometeram feminicídio em 2023, no Distrito Federal. Ele atirou na testa da ex-companheira na frente da filha de dez anos, que ficou abraçada ao corpo ensanguentado da mãe enquanto o socorro chegava. Essa criança entra para a estatística de órfãs em virtude do feminicídio. No Distrito Federal, em média, 41 crianças ficam órfãs por ano por conta deste crime.

Em outubro de 2022, o Movimento de Mulheres Olga Benario fez a primeira ocupação de mulheres na região, criando a Casa de Referência Ieda Santos Delgado, para atender mulheres vítimas de violência de gênero, prestando acolhimento e serviços na área assistencial, jurídica e psicológica. A Casa sofreu duas desocupações e encontra-se no momento sem espaço físico. A narrativa do Governo do Distrito Federal para ir contra a ocupação é de que o DF já teria aparato suficiente para atender às mulheres vítimas de violência.

Os casos de violência contra as mulheres continuam aumentando no Brasil. Dados mostram que, no primeiro semestre de 2022, em média, quatro mulheres morreram por dia pelo simples fato de serem mulheres.

A organização das mulheres por uma sociedade em que possam ser mulher sem ter medo de morrer se faz urgente.

Matéria publicada na edição nº 269 do Jornal A Verdade.

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