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quarta-feira, 24 de julho de 2024

O centenário da Portela e a formação do subúrbio carioca

Este ano, comemora-se o centenário da Portela, referendada como uma das mais importantes e grandiosas instituições culturais do Brasil. Sua história possui profundas ligações com influências indígenas e negras, que foram se impondo e crescendo culturalmente às margens dos projetos oficiais do Rio de Janeiro.  

Leonardo Gonçalves | Rio de Janeiro


CULTURA – Em 11 de abril de 1923, no bairro de Oswaldo Cruz, Zona Norte do Rio de Janeiro, era fundado o Conjunto Carnavalesco de Oswaldo Cruz, tendo à frente Paulo Benjamim de Oliveira (o Paulo da Portela), Antônio Caetano e Antônio Rufino. O, no primeiro momento, bloco carnavalesco passaria por mais duas mudanças de nome – “Quem Nos Faz É O Capricho” para o carnaval de 1929, e “Vai Como Pode” para o carnaval de 1931 – até assumir em 1935 o nome que marcaria a escola de Oswaldo Cruz para sempre no carnaval carioca, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela, ou simplesmente Portela.

Esse texto poderia focar na gigantesca importância que a Portela têm na formação dos desfiles das escolas de samba, nas inovações que a escola trouxe pro carnaval, nas figuras e sambistas marcantes da escola, falar de Paulo da Portela, de Monarco, Candeia, Paulinho da Viola etc. Enfim, a águia azul e branco de Oswaldo Cruz e Madureira.

Entretanto, o foco deste texto será falar sobre como a Portela é parte indissociável da formação do subúrbio carioca, como a escola molda e é moldada, desde sua criação, por grupos totalmente marginalizados que resistem às tentativas de apagamento da “Cidade Maravilhosa” e moldam uma outra forma de existência na cidade.

Para isso, é preciso pensar em que contexto histórico e em que região a Portela foi surgindo. A região onde hoje se localizam os bairros de Oswaldo Cruz e Madureira era uma região basicamente rural no início do século XX. 

Resistência a escravidão e ao latifúndio

Tendo uma economia moldada pelos latifúndios e pelo trabalho de pessoas escravizadas até o final do século XIX, Oswaldo Cruz e Madureira se encontravam em um colapso do seu antigo modo de vida no início do novo século. O trem, chegado na região na década de 1890, trazia para o nascente subúrbio uma gama de pessoas pobres que fugiam das reformas urbanas higienistas do centro da cidade.

E foi a partir da chegada dessas pessoas mais pobres expulsas do centro da cidade, juntamente com pessoas pobres chegando de outras localidades do país, especialmente de Minas Gerais. Com descendentes de escravizados da região que tanto o bairro de Oswaldo Cruz, como os bairros mais próximos se formaram. 

A reunião desses três grandes grupos bastante distintos entre si, mas que tinham em comum a tentativa de sobreviver ao discurso oficial, que promovia massacres, remoções e diversas tentativas de extermínio e apagamento dessas populações, em nome de uma europeização do país e de um embranquecimento da população. 

O enfrentamento a esses processos de extermínio vem com a existência física nas cidades apesar do projeto oficial, mas também vem com a defesa de um outro modelo de vida, de cidadania, com a música, com o corpo e a afirmação de diversas expressões de uma cultura que vai moldando toda a região. Como a própria Portela define em seu site: “A humilhação e o aviltamento que os negros excluídos e esquecidos pela sociedade racista e desumana sentiam eram combatidos em forma de arte, música e expressões de uma cultura que insistia em se autoafirmar apesar de tudo.”

Vencemos, mesmo marginalizados

Como o historiador Luiz Antonio Simas afirma em uma live para o canal Cultural da Portela, no Youtube, em 2020, a cidade segue sendo uma cidade em disputa e a Portela se insere nessas frestas do poder instituído, criando formas de resistência que por vezes passam por uma suposta adequação à norma. Um exemplo que ele aponta sobre isso é de que enquanto a Portela está nessas primeiras décadas fazendo desfiles com sambas cantando para Dom Pedro I ou outros personagens da história oficial, a bateria tá tocando o agueré de Oxossi.

Em 2023 comemora-se o centenário da Portela e podemos afirmar que a escola é referendada por todos como uma das mais importantes e grandiosas instituições culturais da história desse país e que atrai até os olhares carinhosos da zona Sul e do prefeito metido a suburbano, Eduardo Paes, olhando para as origens da Portela. do bairro de Oswaldo Cruz e de todo o subúrbio carioca temos uma breve noção do quanto apesar de todas tentativas de apagamento das influências indígenas e negras, essas influências foram se impondo e crescendo culturalmente às margens dos projetos oficiais da cidade e do poder instituído.

Essa tentativa do prefeito e de figuras mais nobres da cidade de se pintarem como populares, suburbanos mostra uma outra faceta do poder instituído na tentativa de controle dessas populações periféricas. O Estado que não foi efetivo na sua tentativa de eliminar esses povos e suas culturas agora busca também entrar em uma disputa do que seria o subúrbio e o suburbano e nesse processo tenta forjar um modelo de subúrbio, apagando as especificidades de cada bairro e as figuras que nesse processo, supostamente, não pertenceriam a esse modelo. 

Espirito de coletividade

Madureira e a Portela seguem sendo espaços onde projetos opostos ao poder instituído seguem encontrando espaço para florescer. Exemplo disso é que foi no bairro que a Unidade Popular (UP) conseguiu mais assinaturas para sua legalização em todo o Estado do Rio de Janeiro.

Para uma região majoritariamente pobre, a Portela e, de certa forma, o Maracanã apareciam como as formas mais acessíveis de experienciar a cidade. Esta comunidade que foi se moldando em meio aos problemas, formou consigo uma grande característica marcante do subúrbio que é a preocupação com o coletivo.

Esse espírito de coletividade segue fortíssimo na azul e branco de Madureira, exemplo disso foi a atuação da escola durante a pandemia do Coronavírus, com arrecadação e doação de mais de 1000 cestas básicas, mais de 100 quentinhas para moradores em situação de rua, além de ter colocado sua quadra a disposição para a vacinação contra a Covid-19. O mundo azul e branco criado por Paulo, Caetano e Rufino segue sendo até hoje referência máxima de coletividade, afeto e cuidado.

 

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