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segunda-feira, 15 de abril de 2024

Pesquisa sobre estrutura patrimonial revela os donos do mercado

Redação Rio


A concentração de renda é um dos principais problemas sociais do Brasil. Paralelamente e em consequência desta concentração, há também a desigualdade de riqueza, isto é, do patrimônio acumulado. Os dados do Boletim Consolidado de Distribuição da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), referentes ao ano de 2022, trazem os números dessa injusta situação.

O boletim registra o valor dos ativos financeiros do país (cadernetas de poupança, ações, títulos públicos e privados, fundos de investimentos, certificados de depósitos bancários, etc.). De acordo com a propriedade, esses ativos são divididos entre três tipos de contas: varejo tradicional, alta renda e private. O varejo tradicional são as contas com patrimônio médio de R$ 13 mil (cerca de 129 milhões de contas), enquanto as de alta renda têm uma média de R$ 100 mil (aproximadamente 14 milhões de contas). Já no segmento private, o valor médio é de R$ 12,5 milhões. Nesse segmento, existem apenas 153 mil contas (0,1% do total).

Assim, embora o número de contas não seja exatamente igual ao número de pessoas – já que uma mesma pessoa pode ter mais de uma conta –, é possível deduzir que no segmento de varejo estão as economias, a poupança em geral, dos trabalhadores brasileiros, enquanto no segmento private estão os grandes capitalistas. Vale notar que esses dados são apenas do patrimônio financeiro, ou seja, não incluem os ativos físicos, como casas, apartamentos e carros, nem os meios de produção, como terras e fábricas.

 

Desigualdade patrimonial no Brasil

Do total das contas, 90% pertencem ao segmento de varejo. Apesar disso, essas contas possuem apenas 34% do valor dos ativos financeiros do país, sendo quase metade aplicados na caderneta de poupança. Por outro lado, as contas do segmento private, que são insignificantes 0,1% do total, controlam 37,8% dos ativos financeiros. Ou seja, um milésimo das contas tem patrimônio maior que a soma das 90% menores. Este é o retrato da desigualdade do Brasil!

Esses números revelam também os verdadeiros “donos do mercado”. Considerando apenas as contas proprietárias de ações, vemos que as contas private controlam 70% das ações das empresas negociadas na Bolsa. Além das ações propriamente ditas, nesse percentual foram incluídos os fundos multimercados, de ações e de participações.

Já o varejo detém apenas 10% das ações. Isso mostra onde está o poder real de indicar e orientar os membros das diretorias e conselhos administrativos dos maiores bancos e empresas privadas do país. Mostra também que é uma falácia a tentativa de apresentar os movimentos da Bolsa como sendo de interesse geral da Nação. A aprovação ou desaprovação do mercado, expressas na alta ou queda da B3 (antiga Bovespa), refletem fundamentalmente a opinião do 0,1% mais rico dos magnatas brasileiros, não da classe trabalhadora. Do total dos recursos poupados pelo segmento varejo, só 9% estão aplicados em ações.

A desigualdade regional também fica evidente nessa estrutura patrimonial. No Estado de São Paulo, onde mora 22% da população brasileira, estão registrados 47% do valor dos ativos financeiros totais. Este volume é três vezes maior do que os registrados no Norte, Nordeste e Centro-Oeste juntos. Mesmo se considerarmos que muitos dos proprietários das contas registradas em São Paulo moram em outros estados, ainda assim, essa concentração indica onde estão os gestores dessa riqueza e sob que perspectiva regional atuam. Ajuda a explicar também o porquê da negligência e até apagamento da pluralidade da vida político-econômica das várias regiões do Brasil. 

É importante destacar que a desigualdade de riqueza é particularmente grave porque tende a se perpetuar no tempo. Pela herança, de geração em geração, a injustiça social se mantém. Por isso, é possível traçar uma linha de parentesco entre as famílias bilionárias atuais e as famílias da elite do Brasil colonial e escravista.

A mudança da estrutura patrimonial do país, com aumento da participação da iniciativa pública e estatal, é uma medida que vai ao encontro dos interesses de 99,9% da população. Mesmo o segmento de alta renda, embora proprietário de parte minoritária do capital acionário (20%), é alijado de qualquer processo efetivo de tomada de decisão e utilizado principalmente como massa de manobra. São os 0,1% que realmente se beneficiam e, por isso, defendem o subdesenvolvimento. Enfrentar essa estrutura é uma necessidade para destravar o desenvolvimento econômico do Brasil.

Matéria publicada na edição nº 270 do Jornal A Verdade

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