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domingo, 14 de abril de 2024

“Ser negro no Brasil é ser sempre resistência”

O jornal A Verdade entrevistou, antes da abertura do Encontro de Negras e Negros da Unidade Popular, Jurandir Wellington Pacífico, filho da líder quilombola Mãe Bernadete Pacífico, assassinada dentro de casa na Região Metropolitana de Salvador. Jurandir e a comunidade do Quilombo Pitanga dos Palmares questionam as conclusões da Polícia Civil e do Governo do Estado da Bahia sobre mais este crime contra o povo preto.

Isabella Tanajura | Redação


A Verdade – Mãe Bernadete foi assassinada há mais de três meses e agora a Polícia Civil da Bahia afirma que solucionou o caso. Qual a opinião da família?

Jurandir Na verdade, como é que solucionou o caso se não tem um mandante preso? Um executor está solto. E outra coisa: o modus operandi do crime não foi do tráfico de drogas. O tráfico de drogas foi pago para executar Mãe Bernardete. Ela estava com mais quatro pessoas dentro de casa: dois netos e mais dois primos dos netos. Os dois meliantes adentraram a casa de capacete de moto, colocaram meus dois sobrinhos num quarto e os dois primos no outro. Só executaram Mãe Bernardete. Esse não é o modus operandi do tráfico de drogas. Não deixam testemunhas, eliminam todos. Meu sobrinho tem 22 anos, já é um homem, eles deixaram meu sobrinho lá vivo. Na verdade, estão querendo blindar os verdadeiros mandantes. O The Intercept Brasil está com uma reportagem interessante sobre isso.

Recentemente, o editor-chefe do Intercept Brasil, Flávio Costa, esteve na Faculdade de Comunicação da UFBA e ele mencionou essa reportagem e a censura que o veículo vem sofrendo pelo Ministério Público.

A família contratou peritos e eles estão em São Paulo analisando todos os autos da Polícia Civil. Em breve, daremos uma resolução dessa análise dos autos. Eu não sou perito, mas certamente creio que teremos irregularidades. 

Como tem sido a vida da família e de toda a comunidade no Quilombo depois dessa perda?

Destruíram a minha família. Mataram meu irmão [Binho do Quilombo] em 2017. A Polícia Civil deveria dar uma coletiva, ficaram um ano e meio para elucidar o caso e não foi feito. Já com minha mãe, em três meses, eles “elucidaram”, entre aspas. Só tem três presos lá. Os mandantes estão soltos, outro executor está solto. É um tapa-buraco, porque pra mim não elucidou nada. Pra mim, não há verdade nisso aí. Isso é parte de uma verdade. A verdade vai aparecer porque eu acredito muito na lei de Deus e na justiça de Xangô aqui na terra. A verdade vai aparecer e os verdadeiros culpados estarão na cadeia.

Neste mês de novembro, em que se reafirma a Consciência Negra, qual mensagem você gostaria de deixar para nossos leitores? 

A mensagem que eu deixo para todos os leitores e para todos do movimento negro do Brasil é de que temos que ter consciência negra todos os dias. Preto viver no Brasil é difícil, temos que matar um leão por dia. Ser negro no Brasil é ser sempre resistência.

Entrevista publicada na edição nº284 do Jornal A Verdade

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