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sábado, 2 de março de 2024

Breves reflexões sobre “O Amor e a Nova Moral”, de Alexandra Kollontai

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Alexandra Kollontai defende que o socialismo retira o peso da mulher do trabalho doméstico, da dependência dos homens e da propriedade privada sobre os filhos, propondo uma sociedade coletiva, na qual as mulheres participariam da produção e da política.

Tainan Bezerra Amaral | Jaboatão dos Guararapes-PE


OPINIÃO – Lendo a revolucionária soviética Alexandra Kollontai, refletimos sobre a composição da família e as atribuições das mulheres na sociedade capitalista e individualista em que vivemos e numa possível sociedade socialista.

É compreensível que muitas pessoas tenham dificuldade de entender a proposta do socialismo para a família e para a mulher. Realmente, é uma quebra de paradigmas enorme quando as/os comunistas propõem que várias atribuições impostas hoje à família, e principalmente à mulher, passem a ser cuidadas pelo Estado e por toda coletividade.

Kollontai propõe que o Estado estruture a sociedade de tal forma que retire da mulher o peso do trabalho doméstico, ofertando lavanderias e restaurantes coletivos, escolas integrais, etc., que possam prover as necessidades materiais da família e de educação das crianças. O que fica pra família e para a mulher, então? Aproveitar o tempo livre do trabalho doméstico para o lazer, a leitura, as artes, os estudos. Com isso, a mulher também fica possibilitada de trabalhar fora de casa, sem acumular jornadas de trabalho e sobrecargas.

Para além disso, tirar essa dura carga de provisão da sobrevivência da família das mãos das/os operárias/os e transferir para o Estado, deixaria, segundo Kollontai, caminho livre para que as pessoas pudessem viver o relacionamento e o amor enquanto casal, e enquanto pais e mães para quem quiser exercer esse papel social.  

Outra questão pontuada por Kollontai que pode ser polêmica, é que a criação das crianças será coletiva numa sociedade socialista. Como ela mesma expõe, não se arrancará as crianças dos braços das mães, não é disso que se trata, mas a responsabilidade com aquela criança não será apenas dos cuidadores, mas de toda a coletividade, não faltará amparo para uma mãe solo que foi abandonada pelo pai da criança (no caso de relações hétero), as mulheres não dependerão mais dos homens para viver, terão condições de buscar sua própria sobrevivência, não permanecendo em relações abusivas e violentas por precisarem financeiramente e/ou emocionalmente de seus parceiros.

Refletindo sobre essas questões, podemos questionar, inclusive, o quanto essa lógica individualista de manutenção das relações no capitalismo faz com que enxerguemos as/os nossas/os filhas/os como nossa propriedade privada, o quanto achamos que eles são nossos e que, portanto, podemos fazer o que bem entendermos porque somos as/os mães/pais. Talvez no extremo dessa internalização e manifestação do individualismo burguês, venham os espancamentos, violências sexuais, não aceitação da orientação sexual dos filhos, entre outras intolerâncias e violências. Sim, estão sob os nossos cuidados e responsabilidade, mas são seres diferentes de nós e não são nossas propriedades, como se fossem coisas para serem usadas e abusadas literalmente. 

Se realmente pensássemos e vivêssemos de outra forma, em outra sociedade, entenderíamos que cada um de nós pertence a si mesmo e à coletividade por vivermos em uma sociedade, nos respeitaríamos mais, as escolhas de vida de cada um, as decisões sobre o amor, não sofreríamos tanto enquanto cuidadores, nem causaríamos tanto sofrimento aos nossos filhos. 

Aceitaríamos, sem achar absurda a ideia de Kollontai, que a criação e a educação podem ser compartilhadas com a coletividade, deixaríamos no passado a ideia que “quem pariu que balance”, ideia essa que só põe um jugo enorme sobre os ombros de nós, mulheres. As mulheres da elite se libertaram de todo o trabalho doméstico há muitos séculos, mas não interessa às elites a nossa libertação enquanto trabalhadoras. Por que será?

Porque somos maioria enquanto mulheres e enquanto trabalhadores em geral, porque nós fazemos a sociedade funcionar, porque somos nós que produzimos. Quando nos dermos conta disso e nos organizarmos politicamente, esse sistema tende a falir. Construiremos uma nova sociedade baseada no verdadeiro amor, coletividade e distribuição de funções e papéis sociais de forma que não sobrecarregue e adoeça individualmente as mulheres.

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