Sete militares foram condenados por desviar merenda do Colégio Militar do Recife. O crime demonstra o caráter golpista das Forças Armadas brasileiras, que às vésperas de se completarem 61 anos do golpe militar de 1964 ainda é comemorado nos quartéis país afora.
Clóvis Maia | Redação Pernambuco
BRASIL – Não é de hoje que sabemos que a corrupção e o golpismo são palavras e atitudes muito comuns entre as forças armadas brasileiras. Mas esse caso de corrupção em Pernambuco chama bastante atenção, apesar de não ter tido a devida repercussão na imprensa local.
Acontece que o Supremo Tribunal Militar (STM) condenou no início desse mês de março, sete militares do Recife, acusados de desviar merenda do Colégio Militar do Recife (CMR), na Cidade Universitária, zona oeste da cidade. O capitão João Martins Gomes Neto, junto com mais três sargentos, dois cabos e um soldado receberam penas entre cinco e sete anos de prisão, além de serem expulsos da corporação.
O esquema acontecia desde 2016, quando eles, usando o código “dia dos dez mirréis”, pegavam viaturas militares, fraudavam o controle do estoque e saíam na cara dura com caixas e pacotes de carne – de quebra ameaçando quem ousasse denunciar o esquema. Ao todo foram desviados cerca de 150 quilos de carne, um montante de R$69.533,08 do dinheiro público.
O detalhe é que o Ministério Público Militar teve que recorrer ao STM exatamente pelo fato dos réus terem sido absolvidos pela Justiça Militar no Recife por “falta de provas”. Ou seja: mesmo com vídeos, depoimentos de testemunhas e provas documentais do roubo das merendas no Colégio Militar do Recife, os milicos iriam se safar.
Não existe justiça para os militares
O problema é que a legislação brasileira para os militares serve exatamente para perpetuar esse espírito corrupto e golpista dos milicos – acostumados a comemorar, ainda hoje (61 anos depois), o golpe militar que depôs um presidente eleito e mergulhou o país em 21 anos de tortura, perseguição, censura e violência.
Quando ocorre um crime pelos militares, é a Justiça Militar quem acompanha o caso. Ou seja: resolvem entre eles mesmos. É por isso que, até hoje, não tivemos notícias de nenhum tipo de movimentação jurídica para prender os militares envolvidos nos acampamentos golpistas – que culminaram com a tentativa de golpe naquele 8 de janeiro de 2023. Esse crime, inclusive, está levando o ex-presidente Jair Bolsonaro a ser julgado junto com o general Braga Neto e outros militares. Se dependesse do STM nada teria acontecido.
As forças armadas brasileiras são corruptas
Essa denúncia de desvio de merenda escolar não é nada de novo entre os militares. Para além de uma tradição golpista, vale lembrar que durante o governo Bolsonaro houve uma escalada na corrupção promovida de forma escancarada pelas Forças Armadas, – a maioria dos casos soterrado pela mídia burguesa e também pelo próprio Supremo Tribunal Militar:
- 2021: o Ministério Público denunciou superfaturamento de R$2,2 milhões em chicletes e R$32,7 milhões em pizzas e refrigerantes;
- Ainda em 2021: deputados federais revelaram que o Alto Comando das Forças Armadas adquiriu 80 mil cervejas e 700 toneladas de picanha em compras suspeitas – suficiente para abastecer um batalhão por anos;
- Em 2022 o Tribunal de Contas da União (TCU) denunciou um esquema em que o governo Bolsonaro simplesmente permitiu que 79 mil militares recebessem auxílio emergencial em plena pandemia. Vale lembrar que os militares não poderiam ter acesso a esse benefício;
- E o mais escancarados casos de corrupção foram os R$15 milhões em leite condensado, obviamente superfaturados em 2021 e em 2023, quando o mesmo TCU mandou as Forças Armadas devolverem aos cofres públicos mais de R$27 mil depois de constatarem o superfaturamento na compra de Viagra.
Todos esses escandalosos casos não receberam a devida atenção da Justiça – seja pela maneira como os militares são tratados no Brasil, com todas as regalias possíveis e imagináveis, com toda uma legislação que permite que os próprios militares conduzam ou façam suas próprias leis.
Além disso, deram apoio aos fascistas em seus acampamentos golpistas, que culminaram na fatídica tentativa de golpe em 8 de janeiro — com direito de planos para assassinar o presidente da República.
Por isso, quando exigimos que os golpistas de ontem e de hoje sejam punidos, estamos exigindo também uma verdadeira mudança na forma de condução e tratamento das Forças Armadas — hoje, inimigas dos trabalhadores e da própria nação, servindo, como sempre fizeram, mais aos interesses das elites nacionais do que aos do nosso país.