Durante o Carnaval, um trabalho silencioso e quase nunca reconhecido segue sendo explorado. Os trabalhadores da limpeza urbana garantem a cidade limpa para os quatro dias de folia, mas sofrem com um trabalho insalubre e precarizado.
Redação Pernambuco
SOCIEDADE- O Carnaval é um dos momentos de maior movimento financeiro do país. Em todas as regiões do Brasil, empregos temporários são gerados e setores como hotelaria, turismo, transporte e culinária fazem circular recursos e pessoas durante as prévias e os quatro dias oficiais de festa. Porém, um serviço quase invisível e ao mesmo tempo essencial, segue sendo explorado ano após ano durante a folia: a limpeza urbana. Todo ano, centenas de trabalhadores são explorados em um dos serviços mais pesados de nossa sociedade, sem se quer receberem o reconhecimento por isso.
“Se o gari não trabalha, o povo não brinca”
No ano de 2025 foram recolhidas 600 toneladas de lixo para um total de 1.200 profissionais trabalhando diariamente. No ano passado a capital pernambucana bateu recorde de foliões no Carnaval, um total de 3,5 milhões de pessoas. Para 2026 a secretaria turismo do Recife anunciou mais de 96% de ocupações no setor hoteleiro local, enquanto o governo do estado estima que esse ano a festa irá gerar em torno de R$ 3,5 bilhões.
Enquanto empresários lucram com as festas, são os trabalhadores da limpeza urbana que mantém a cidade limpa para os foliões. Esses mesmos trabalhadores, junto com os ambulantes que arriscam ganhar um trocado entre blocos e a repressão da polícia, amargam um salário de miséria, péssimas condições de trabalho e uma exploração que só piora em festas como essa.
Abelardo José, que trabalha há 20 anos na varrição no Recife desabafa: “se o gari não varre duvido ter festa nenhuma. O prefeito ganha aplauso e fica tirando foto aí no carnaval, mas é o gari que limpa a festa depois que ela termina. Enquanto o povo dança a gente limpa. E tá aí todo mundo olhando pra capital, mas é a gente que vai pra lá limpar tudo direitinho. Enquanto isso, dá uma olhada lá na favela, vê se é desse jeito. No final das contas sobra pra gente todo o serviço. E é eles quem aparecem nas fotos”.
O lixo e o lucro
Quando nos deparamos com essa quantidade de lixo que é recolhido durante as festas do Carnaval nas grandes cidades, é de se esperar que não passe pela nossa cabeça números tão expressivos. Mas a questão é que existe quem lucra com a produção diária do lixo produzido pela sociedade, bem como exista também aqueles que são explorados nesse serviço.
No Recife, a Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (EMLURB), responsável pela fiscalização, manutenção e limpeza da capital pernambucana anunciou que esse ano 1.800 profissionais da limpeza urbana iriam atuar diariamente durante as festas de Carnaval. O problema é que esse trabalho de coleta do lixo domiciliar, a varrição das ruas e os mutirões quando os shows terminam já são terceirizados, feitos por empresas que vivem de ganhar altos lucros com o lixo.
Empresas como a Locar, que atua em cidades da região metropolitana, do agreste e até fora de Pernambuco, ganha rios de dinheiro com esse serviço, enquanto o trabalhador da empresa amarga o trabalho duro. Expedido, que é funcionário da Locar no Recife denunciou para nosso jornal a situação de quem trabalha na empresa: “a gente tem até que fazer trazer água de casa para o trabalho. Onde a gente trabalha não tem condições. Já pegamos barata e sujeira no bebedouro da empresa. Quando a gente reclamou, fomos repreendidos e ameaçados de demissão”.
Outro funcionário, que preferiu não se identificar, afirmou que “até o básico, como equipamentos de proteção individual às vezes falta. Pra piorar, o atual sindicato não nos representa. Quando a gente procura o representante do sindicato pra ele pelo menos nos informar sobre alguma coisa, como a negociação salarial com o patrão, ele diz que não sabe. E que a gente tem que esperar. Esperar mais o quê? Eu tô nesse setor aqui da coleta tem mais de dez anos e não vejo melhora nenhuma pro meu lado. E falta união na categoria pra gente se livrar desse sindicato que não faz nada por a gente”.
Desde o ano passado os militantes do Movimento Luta de Classes (MLC) em Pernambuco tem se organizado em apoio aos garis para mudar essa realidade, sobretudo o que diz respeito a questão de representação, já que o atual sindicato que representa a categoria é de direita e ligado aos patrões. As patrulhas sindicais e as brigadas com o jornal A Verdade tem ajudado a colher as denúncias da categoria e as principais pautas de reivindicações.