A mineração de lítio, protagonizada por diversos monopólios imperialistas, é propagandeada pela burguesia como o símbolo do progresso em Minas Gerais. No entanto, a realidade mostra o contrário: solo contaminado, casas destruídas e problemas respiratórios são a nova rotina da população do apelidado “Vale do Lítio”.
Sat Montaigne | Montes Claros, MG
O Vale do Jequitinhonha, área do nordeste de Minas Gerais que compreende 55 cidades, é um ambiente rico em cultura, recursos naturais e histórias de resistência de povos que, bravamente, resistiram e resistem às ganâncias das classes dominantes ao longo da história.
Inicialmente ocupado por povos indígenas, como os aranãs e outros do tronco macro-jê, o território que hoje compreende o Vale do Jequitinhonha era perfeitamente preservado, com diversas aldeias e povos entre o ambiente de transição entre Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica. Contudo, no século XVI, chegaram à região grupos de invasores europeus, que logo os denominaram de “botocudos”, termo racista para generalizar e animalizar povos indígenas que usam botoques.
Logo, os colonizadores promoveram um amplo genocídio dos povos indígenas da região. Tudo para roubar suas terras, se apossar delas e explorar a vasta riqueza natural local. Conforme foi-se passando o tempo, em cima de sangue indígena nasceram cidades e cidades, que possuem papel essencial para a extração de minérios no Vale do Jequitinhonha. Além da mineração, a área desenvolveu uma cultura popular vívida, moldada pela luta diária dos povos afrodescendentes, indígenas e os trabalhadores brancos pobres, que compõem a população do Nordeste de Minas.
Há lítio em Minas! Mas quem se beneficia?
Subitamente, a região sofreu uma violenta virada política. Com a chegada da Companhia Brasileira de Lítio (CBL), em 1991, o Vale do Jequitinhonha vê os primórdios do que viria a ser a origem de sérios problemas ambientais e sociais à população. Contudo, no século XXI, a situação se agrava: com o crescimento da relevância do lítio no mercado global, conhecido por ser uma alternativa (supostamente) “sustentável” a materiais derivados de petróleo e outros recursos danosos ao meio ambiente, a área é rapidamente transformada em interesse das potências imperialistas de todo o mundo.

Fruto da submissão da burguesia mineira e do milionário entreguista Romeu Zema, governador de Minas Gerais, aos interesses do imperialismo, a área foi rapidamente aberta a monopólios do exterior. Com quantidades vastas de lítio, essencial para a produção de celulares, carros elétricos e baterias no geral, em 2023 surge na região a primeira ave de rapina: a canadense Sigma Lithium. Logo em seguida, a também canadense Lithium Ionic, a norte-americana Atlas Lithium, a australiana Latin Resources e inclusive a montadora chinesa BYD, adquiriram terreno no Vale do Jequitinhonha. Tudo fruto do projeto “Vale do Lítio”, planejado pelos políticos dos ricos de Minas Gerais para atrair empresas para, deliberadamente, explorar o lítio mineiro, destruir a natureza local e se apropriar das riquezas do povo.
A promessa falida
Rapidamente, o povo do “Vale do Lítio” notou que a ilusão propagada pelo governo mineiro, que propagandeou amplamente que a área passaria a prosperar financeiramente, é uma mentira. Na verdade, os únicos que prosperaram com essa política são os ricaços do exterior que, sem pensar duas vezes, se apropriaram do lítio da localidade.
Enquanto isso, a classe trabalhadora da região recebeu, em troca de seu labor, a contaminação do solo regional, que possui níveis absurdamente acima do recomendado de alumínio, que deriva do processo de extração do lítio feito pelas mineradoras. Uma das consequências desse solo contaminado com excessos de alumínio é a danificação de ossos, músculos e do sistema nervoso central.
Ademais, as detonações realizadas pelas mineradoras têm surtido sérias consequências: poeira voando às cidades, abalos do solo que geram rachaduras nas casas e barulhos insuportáveis são características descritas por moradores do Vale do Jequitinhonha. Ou seja, enquanto os monopólios de extração de lítio lucram o mais rápido possível com o mineral, sem qualquer consulta dos povos e comunidades tradicionais e quilombolas locais, o povo é quem sofre — e onde estão os parasitas capitalistas que prometeram prosperidade, ou uma narrativa falsa de “sustentabilidade”, tal qual Romeu Zema?
E tem mais! Contaminação da água, aumento dos casos de depressão e ansiedade (em função da piora da qualidade de vida), casos de problemas respiratórios que enchem os postos de saúde, o desvio de estradas… E ainda não se vê para onde foi a sustentabilidade!
Ainda, o Vale também é de interesse a bilionários fascistas como Elon Musk, CEO da produtora de carros elétricos Tesla, e acompanhou ativamente a eleição de seu capacho, Tadeu Barbosa (PSD), para a prefeitura de Araçuaí, centro da mineração de lítio. O domínio da extração na região é crucial para que o monopólio estadunidense possa competir com a chinesa BYD, outra empresa imperialista que, no Brasil, é conhecida pela superexploração e precarização do trabalho.

O lítio pode servir ao povo?
Pode e deve! A verdade que o governo de Minas Gerais não conta é que, sob controle popular, o lítio pode ser explorado segundo as necessidades do povo, se e quando elas existam.
Sob gestão proletária, a extração mineral pode não somente remodelar a forma como atua, de modo a reduzir danos. Ela é capaz de redirecionar os lucros e riquezas geradas a partir dela não para o bolso de bilionários, mas para a melhora das condições de vida do povo do nordeste mineiro, do Brasil e do mundo.
Mas não nos iludamos! Somente com a organização popular, radical e disciplinada, é possível que o lítio sirva ao povo. Por isso, é fundamental a expansão da luta coletiva contra a mineração no Nordeste de Minas, atualmente travada exemplarmente pelo Coletivo Cacique Merong no centro-sul e sul mineiro. É urgente nos unirmos por uma sociedade onde nós, trabalhadores, que geramos toda riqueza produzida na Terra, sejamos os reais gestores dela. A burguesia, classe de vagabundos que enriquecem com nosso suor, não nos serve — é necessário o Socialismo!
Tudo pertence aos que tudo produzem!
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FONTES
https://www.almg.gov.br/comunicacao/noticias/arquivos/Povos-do-Jequitinhonha-denunciam-impactos-por-exploracao-do-litio/
https://apublica.org/2025/12/exploracao-de-litio-no-jequitinhonha-tem-mais-casas-rachadas-do-que-promessas-cumpridas/
https://social.mg.gov.br/noticias-artigos/2627-vale-do-litio-projeto-estrategico-do-governo-de-minas-celebra-dois-anos-transformando-vidas-na-regiao
https://g1.globo.com/mg/grande-minas/noticia/2024/08/04/vale-do-litio-a-regiao-no-interior-de-mg-que-despertou-o-interesse-de-empresas-estrangeiras.ghtml
https://letsgobahia.com.br/noticia/default/elon-musk-compra-terreno-em-minas-gerais-de-olho-no-litio-brasileiro
https://g1.globo.com/jornal-nacional/litio-exclusivo/noticia/2023/09/21/saiba-como-o-brasil-esta-explorando-o-litio-usado-nas-baterias-de-celulares-laptops-e-veiculos-eletricos.ghtml
https://quatrorodas.abril.com.br/noticias/a-cidade-de-minas-gerais-que-e-fonte-de-discordia-entre-elon-musk-e-a-byd/
https://revistapesquisa.fapesp.br/exploracao-de-litio-amplia-contaminacao-do-solo-e-da-agua-em-minas-gerais/
https://aepet.org.br/artigo/a-eleicao-que-musk-acompanhou/