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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Nos primeiros 18 dias do ano, Sorocaba (SP) já registrou três feminicídios

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A cidade de Sorocaba (SP) registrou três feminicídios apenas nos primeiros 18 dias do ano, reflexo do abandono das políticas de combate à violência contra a mulher e da violência estrutural do sistema capitalista

Talita Silva | Movimento Olga Benario (SP)


MULHERES – Já no primeiro mês do ano, o machismo estrutural ficou escancarado no município de Sorocaba (SP): apenas nos primeiros dias de 2026, a cidade alcançou o número de três feminicídios, mesma quantidade de casos registrados em todo o ano passado. O caso mais recente, ocorrido no dia 18, se tratou de um duplo feminicídio: Tamara (30 anos) e Giovanna (32 anos) foram assassinadas a facadas por Antônio Batista de Lima, ex-companheiro de Tamara. A primeira vítima do ano foi uma mulher de 53 anos, também morta a facadas, tendo como principal suspeito seu companheiro de 50 anos.

Infelizmente, a realidade de Sorocaba segue os cenários estadual e nacional. Entre janeiro e novembro do ano passado, foram registrados 233 feminicídios no estado de São Paulo, dentre eles, 128 no interior. No Brasil, quatro mulheres são assassinadas por dia, reflexo de uma sociedade patriarcal, machista e violenta.

Outro sinal de alerta é a quantidade de medidas protetivas despachadas que, segundo dados da Delegacia da Mulher de Sorocaba, entre janeiro e julho do ano anterior, ultrapassaram a média de cinco medidas por dia. São cinco mulheres vivendo violência doméstica que conseguem romper inúmeras barreiras por precisar de proteção estatal. Se esse dado já é grave, é preciso lembrar das tantas outras que, por inúmeros motivos, sequer conseguem acessar esse direito.

Para além do feminicídio e das agressões físicas, a violação dos corpos femininos também se expressa de forma brutal por meio do estupro. No ano passado, Sorocaba registrou 234 casos de estupro, sendo, destes, 174 de estupro de vulnerável, crimes que atingem majoritariamente mulheres, crianças e pessoas com deficiência ou doenças que limitam sua capacidade de resposta. Isso significa que, em média, mais de uma pessoa de população minoritária foi estuprada por dia na cidade, revelando uma violência que permanece naturalizada.

A falsa política de proteção às mulheres

Esses números são inaceitáveis para uma cidade que dispõe de uma Secretaria da Mulher, que gastou, desde sua fundação, escandalosos mais de R$ 2,1 milhões apenas com o pagamento de salários de suas 11 funcionárias. Ainda assim, a secretaria não teve sequer a humanidade de vir a público se posicionar diante dos feminicídios. A última notícia oficial, cinco dias após o duplo feminicídio, restringiu-se à divulgação de inscrições para o chamado “Mercado Solidário”.

Diferentemente de muitas cidades, de fato, Sorocaba até dispõe de uma Delegacia da Mulher, mas esta é localizada no bairro do Campolim, região elitizada e distante dos bairros periféricos, onde se concentram os maiores índices de violência doméstica. O deslocamento é longo e caro, e muitas mulheres, especialmente em situação de dependência financeira, não têm condições de arcar com o custo da passagem ou sequer dispõem de saúde física e emocional para percorrer longos trajetos após sofrer violência.

O município também possui o Centro de Referência da Mulher (CEREM), equipamento da política de proteção social especial, mas este possui uma equipe técnica mínima para atender uma cidade com mais de 750 mil habitantes. O atendimento depende de agendamento, com espera que pode chegar até a um mês. É nesse espaço, inclusive, que ocorre a instalação do aplicativo “Protege Mulher”, antigo Botão do Pânico, fundamental para acionar a polícia diante da ameaça do agressor.

Para completar o cenário de abandono, as vagas em casas abrigo também são insuficientes. Sorocaba conta com apenas duas parcerias, que somam cerca de 30 vagas, quase sempre ocupadas. No ano passado, uma mulher, acompanhada do filho, passou a noite na prefeitura como forma de protesto após denunciar o marido por ameaça e não encontrar nenhuma vaga disponível para acolhimento. O episódio escancara a falência da política de proteção: mesmo após romper o silêncio e buscar ajuda, muitas mulheres seguem sem ter para onde ir.

O ciclo da violência e a prisão cotidiana

Vivemos em uma sociedade que tem como base a propriedade privada dos meios de produção, por isso as políticas públicas de atendimento às mulheres são ineficazes. Além disso, é preciso lembrar que romper com a violência, por si só, já é extremamente difícil, justamente porque a violência contra as mulheres não se refere a casos e comportamentos isolados, mas todo um sistema que coloca as mulheres na posição de subjugadas.

Com o aprofundamento do sistema capitalista, as mulheres são ensinadas desde cedo a tolerar violências, das microagressões às formas mais brutais. Somos empurradas a permanecer em relações profundamente insatisfatórias — e muitas vezes violentas — em nome da instituição do casamento e da ideia de que a separação “prejudica os filhos”. Nesse sentido, a violência torna-se um ciclo na vida de muitas delas.

O ciclo da violência começa com pequenas agressões no cotidiano: controle, ciúmes, humilhações, ameaças e isolamento. Depois, a violência aparece de forma mais direta — física, sexual ou psicológica. Após a agressão, vêm as promessas e os pedidos de desculpa, quando o agressor afirma que vai mudar e a mulher, por inúmeras razões, acaba cedendo. Em seguida, surge a chamada “fase da lua de mel”, quando o agressor demonstra afeto, torna-se prestativo e cria a falsa expectativa de que a violência foi um episódio isolado. Esse ciclo se repete, se intensifica e se torna cada vez mais difícil de romper.

Essa permanência no ambiente violento também é sustentada pela dependência econômica: seguimos relegadas ao trabalho doméstico e aos cuidados com a casa e as crianças, sem qualquer remuneração. Mesmo quando acessamos o mercado de trabalho, o capitalismo aliado ao machismo nos impõe salários menores, jornadas duplas e maiores barreiras à progressão profissional. Para as mulheres negras, essa realidade é ainda mais brutal, evidenciando o caráter racista e classista dessa estrutura de opressão.

Organização popular contra a omissão do Estado

Diante desse cenário de guerra contra nós, surge a pergunta: o que podemos fazer? Após a exposição do caso de um estuprador reincidente nas redes sociais, mulheres sorocabanas passaram a se organizar para listar e denunciar agressores conhecidos que seguem impunes. A raiva é legítima e a tentativa de autoproteção entre mulheres é necessária. No entanto, experiências anteriores mostram que iniciativas virtuais desse tipo tendem a se esgotar: passado o momento de maior repercussão, as denúncias são esquecidas e os agressores continuam circulando e violentando. Diante disso, é preciso perguntar: essa é a nossa alternativa final? O Movimento de Mulheres Olga Benario mostra que não.

Se a origem do problema não é individual, mas sim social e econômica, exige uma resposta organizadas coletivamente. Um exemplo disso foi a luta pela revitalização do Parque Ouro Fino, quando uma de nossas companheiras foi violentada sexualmente no local, transformamos a dor em luta: realizamos panfletagens, brigadas, atos, aulas de defesa pessoal, um abaixo-assinado com mais de 600 assinaturas, entregamos ofícios, fizemos falas na Câmara Municipal e cobramos diretamente as secretarias. Essa conquista foi fruto de muita luta popular e não de nenhuma benesse.

É importante lembrar que essas conquistas — assim como tantas outras advindas das lutas travadas pelas mulheres organizadas no Movimento Olga Benario — não são um fim em si mesmas, mas parte de um caminho mais amplo: o caminho da revolução. Nós, mulheres trabalhadoras, compreendemos que o machismo não é um resquício cultural isolado, mas uma estrutura material, profundamente vinculada ao surgimento da propriedade privada e à consolidação da sociedade de classes. A opressão das mulheres se organiza a partir da propriedade privada, criada para garantir a herança, controlar a sexualidade feminina e privatizar o trabalho doméstico e o cuidado, transformando-os em responsabilidade individual das mulheres.

Por isso, conquistas pontuais — como melhorias em serviços, equipamentos públicos ou revitalizações conquistadas pela luta — são fundamentais e salvam vidas, mas têm limites claros dentro do capitalismo. Enquanto a reprodução da vida seguir subordinada ao lucro, enquanto o trabalho doméstico permanecer invisível e não remunerado, e enquanto a violência contra as mulheres for tratada como problema privado e não como expressão de uma ordem social, a opressão se reorganiza e se aprofunda. A luta por direitos é parte necessária da resistência cotidiana, mas a superação definitiva do machismo só será possível com a superação do sistema que o produz: o capitalismo.

Então, fazemos um chamado às mulheres trabalhadoras, mães, estudantes, jovens e idosas de Sorocaba: não enfrentem essa violência sozinhas! A organização coletiva é o que transforma medo em força e indignação em luta concreta. O Movimento de Mulheres Olga Benario está de portas abertas para acolher, organizar e lutar ao lado de todas aquelas que não aceitam mais a violência como destino. É na construção coletiva, na presença nos bairros, nas ruas, nos equipamentos públicos e nos espaços de decisão que fortalecemos nossa capacidade de defesa e de transformação da realidade. Só organizadas conseguiremos enfrentar o machismo, a violência e a omissão do Estado — e construir um futuro onde nossas vidas não sejam descartáveis!

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