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quarta-feira, 25 de março de 2026

A visão dos exploradores fundando a colônia e a resposta dos oprimidos

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Iniciamos essa série “A História oficial Versus as lutas do proletariado brasileiro” com o objetivo de preservar a memória das lutas passadas e acumular experiência no aprendizado para os combates do presente e do futuro. Um olhar para nossa história nacional pela ótica do materialismo histórico e da luta de classes.

Natanael Sarmento- Redação Pernambuco


HISTÓRIA- (Parte 1) Na autoimagem das classes dominantes, banalizadas desde o início da colonização, os abastados são tidos como ‘homens bons’. A sociedade exploradora escravista e burguesa se vê como ‘boa sociedade’. A brutal opressão para manter a produção econômica e divisão social dessa ordem de privilégios de poucos burgueses e muitos proletários e excluídos é chamada de “ordem social” em cuja defesa recorrem à força policial e militar do Estado classista.

Assim, os genocídios dos indígenas e usurpação de seus territórios foram chamados de “guerras justas”, os assassinatos e chacinas nas periferias pobres pelas polícias são chamados de “uso da força legítima” no combate ao tráfico e ao crime organizado. O estado burguês não usa a mesma força com o crime organizado dos capitalistas do Banco Master, dos investidores da Faria Lima, dos defraudadores do INSS.

Quem são os exploradores e inimigos do povo?

Historicamente, no Brasil, são os latifundiários e capitalistas genocidas, usurpadores, escravistas, agiotas e parasitas. Eles   formam o bloco histórico dominante do Brasil. Nem a quebra do pacto colonial com a independência do 7 de setembro de 1822, nem a Proclamação da República modificam a essência deste bloco.  Detentores do poder econômico, político e ideológico permanecem com o poder concentrado do estado. Das mãos de oligarquias agrárias, latifundiários escravistas, nobreza burocrática dos cargos de prestígio no Estado, burguesia comercial e bancária, alto clero do regime do padroado e altas patentes militares.

Tal aliança classista consolida a base econômica e ideológica, e expressa a força organizada e centralizada do estado, independente a forma de governo monarquista ou república, ou do regime liberal democrático ou fascista. Os grandes fazendeiros – hoje atualizados no agronegócio – se apropriavam dos latifúndios, riquezas naturais e do trabalho, comerciantes e atravessadores visavam lucros e banqueiros financiavam a produção e a circulação com juros de agiotas. Assim é desde os tempos dos “ciclos” do açúcar, café, e exploração dos minerais, do tráfico de escravos do passado às exportações e importações do mercado globalizado dos nossos dias.

Militares exerciam funções de Capitães-do-Mato e atuavam nos golpes antipopulares e antinacionais, na repressão do povo. O clero “catequisava”, leia-se, alienava a domesticação dos nativos e servia aos poderosos industriais, comerciantes e banqueiros. Os nobres parasitas, condes, barões, viscondes, duques ocupavam cargos comissionados de conselheiros, nos ministérios, cadeiras senatoriais vitalícias na casta burocrática do aparato estatal.

A maioria do povo, Indígenas, negros africanos escravizados, lavradores mestiços pobres, imigrantes estrangeiros vivendo em condições abjetas e laborando de Sol a Sol. Para produzir a opulência e riqueza do Brasil, aludida pelo padre André João Antonil, se esquecia de completar que ela era produzida pelo saque colonial e pela iníqua usurpação dessa riqueza pelos exploradores do povo e do país.

Poder e suntuosidade como estratégias da dominação

O reinado brasileiro copiava o estilo imperial francês no uso simbólico da suntuosidade como estratégia do poder. O Palácio de São Cristóvão, residência da família imperial e centro político e social da monarquia, no Rio de Janeiro, chamava-se a “Versalhes brasileira”.  Antes e depois da Independência em 1822, manteve-se a cultura de palácios e catedrais suntuosas. Muitos deles patinados com ouro da “opulência e riqueza” do bloco histórico dominante do Brasil.

O Paço de São Cristóvão com área de 13.000 metros quadrados para recepções e bailes, com sala do trono e dependências “dignas” da “família real”. Local de bailes de gala, aniversários, bodas, recepções diplomáticas. No tapete vermelho desse “glamour” figuravam também o Teatro São Pedro e o Palácio das Laranjeiras, da Princesa Isabel e do marido Conde D’Eu, palco de famosas recepções e festas, que procuravam passar a imagem de estabilidade da monárquica. Mesmo quando a casa estava caindo, a lembrar os músicos do filme La nave va, no qual continuam tocando para distrair os passageiros a bordo enquanto o navio afunda.

Bacanal às vésperas do golpe republicano

A pretexto das bodas de prata da Princesa Isabel e da recepção à esquadra chilena, a monarquia fez rombo na fazenda pública no “Baile da Ilha Fiscal”, em 9 de novembro de 1889. Festança perdulária que simboliza o desperdício com os luxos das elites parasitárias do Brasil. Um “requinte”, dizia um jornal da época. “Um cardápio de seda”. Dezenas de cozinheiros e centenas de serviçais escolhidos a dedo. Desse banquete no Castelo da Ilha Fiscal constam 10 mil litros de cerveja, 14 mil sorvetes, 500 perus, 8oo kg de camarão, 64 faisões… Esses exploradores do povo, na enorme disparidade social com a maioria do povo privado de condições básicas, alimentação, moradia, a dar razão ao ditado popular ‘rico ri à toa’.

Primeiras greves operárias

A massa trabalhadora vivia jornadas exaustivas de trabalho de 14 a 16 horas, em condições precárias e insalubridades, na exploração do trabalho infantil inclusive, análogas aos dos escravos. Os escravos eram a principal força produtiva e integrava o capital dos Senhores proprietários assim como as e os semoventes (animais e gados), sem remuneração ou pagamento.

Mas, durante a Monarquia, meados do século XIX, tecelões, sapateiros, moleiros, seleiros, marceneiros, ferroviários, barqueiros, gráficos, artesãos livres e outros ofícios germinavam à formação da classe operária. E há registros memoráveis de lutas desse operariado florescente. Da criação de associações mutualistas de autodefesa e reivindicações por salários melhores e condições dignas de trabalho, higiene nas oficinas e fábricas e contra a exploração do trabalho infantil.  Destacamos a organização da Associação Gráfica Fluminense, fundada em 1850 e a União Operária, de 1880. Ainda em embrião, a classe operária brasileira já lutava pela vida.

A Associação de Tipógrafos Fluminenses foi além do assistencialismo mutualista. Da solidariedade mútua nos casos de mortes e acidentes dos associados, criou uma biblioteca e o “Jornal dos Typographos”, classista, sustentado pelos próprios trabalhadores. Com papel importante na agitação e propaganda da primeira greve operária do país, em 8 de janeiro de 1858 na qual gráficos e compositores paralisam a imprensa da Capital Imperial.  Foram 32 compositores do Jornal do Comércio, 22 do Diário do Rio, 6 do Correio Mercantil. O “Jornal dos Typographos” fazia denúncia das péssimas condições de vida e salário, dos abusos nas fábricas e oficinas e conclamava a classe a “derrotar o “status quo”.

Os sapateiros e tecelões nucleados no “Centro das Classes Operárias” reivindicavam jornada de trabalho de 8 horas de trabalho, segurança e higiene do local de trabalho, aumento salarial e o fim do trabalho infantil. Em 1903 realizam a primeira grande Greve Geral, com fabulosa adesão de 40 mil trabalhadores, no Rio de Janeiro.

As primeiras décadas do século XX coincidem com o advento da República, da industrialização e urbanização e da formação da classe operária. Abolida formalmente a escravidão, a precariedade de vida e exploração eram mantidas. As contradições e antagonismos da minoria exploradora e da maioria explorada.  A presença dos imigrantes europeus, notadamente, italianos e espanhóis, entre eles, anarquistas e socialistas, colocam a luta operária em novo patamar.

Ocorrem duas grandes Greves Gerais no principal centro industrial do Brasil, São Paulo, em 1917 e 1919. Os ecos do triunfo da Revolução Bolchevique (Comunista) dos proletários e camponeses da Rússia geram intensa luta interna no movimento operário e sindical até então hegemonizado pelos anarquistas. Os “maximalistas” ou comunistas, todavia, vencem essa batalha interna, mormente com a criação do Partido Comunista, a “Seção Brasileira da 3ª Internacional Comunista”, em março de 1922. A vanguarda mais avançada da classe operária organizada num partido classista eleva o patamar da luta de classes contra o domínio burguês.

Para a primeira greve no Brasil, a presença de um jornal foi fundamental. Foto: Hemeroteca da Biblioteca Nacional (reprodução).

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