O projeto liderado pela USP ergue uma das maiores antenas de radioastronomia do mundo, colocando o Brasil na vanguarda do conhecimento cientifico mundial. No entanto para a ala mais reacionária do Congresso dos EUA, o progresso científico do chamado ‘Sul Global’ é visto como um perigo para a sua hegemonia tecnológica. É o imperialismo americano lutando para manter o Brasil como uma eterna colônia exportadora de matérias-primas.
Misa Aribel| Redação Paraíba
INTERNACIONAL- No sertão paraibano, no município de Aguiar, Vale do Piancó, está sendo montada uma das maiores antenas de radioastronomia do mundo. O objetivo é captar sinais de energia que vagam no universo desde sua origem, buscando aprofundar o conhecimento sobre a expansão do universo. É um forte destaque para o Brasil ser local central desse estudo, revelando ao mundo nosso potencial intelectual. Porém, a ala extremista dos congressistas americanos enxerga de outra forma: qualquer avanço que não passe pela permissão de suas corporações é lido como uma “ameaça” ou uma desculpa para o ‘tio Sam’, se comportar como vigia do mundo, e um relatório nada suspeito dos congressistas americanos levantou suspeitas sobre uma suposta colaboração do Brasil com a espionagem chinesa.
O documento que colocou o sertão da Paraíba no mapa geopolítico mundial foi publicado em fevereiro de 2026, no debate sobre a competição entre os EUA e a China. O relatório tem um título sugestivo de “Atraindo a América Latina para a Órbita da China”, e coloca a Paraíba entre os onze locais da América do Sul que o comitê lista como supostas ameaças, classificando esses locais como vassalos da China.
O relatório não apresenta nenhuma prova da acusação de colaboração com espionagem, e reconhece que se baseou majoritariamente em fontes abertas e publicamente disponíveis na internet. Ou seja, estamos falando de mais uma desculpa para a política externa do ditador Donald Trump. Quem não estiver alinhado com a política de Washington pode ser um potencial alvo de ataques, invasões e intervenções como ocorreu com a Venezuela, Irã ou como vem ocorrendo com Cuba, que sofre um acirramento do cerco promovido pelo estado americano desde 1962 e tem enfrentado corajosamente uma crise energética patrocinada pelo estado americano que deseja desestabilizar o governo socialista.
Relatório inesperado sobre o projeto BINGO
O projeto BINGO nada mais é que um investimento internacional em tecnologia de ponta, liderado pela Universidade de São Paulo (USP) e que conta com a participação da UFCG, UFPB, UEPB e IFPB com foco exclusivo em avanços científicos. Não à toa o governo da Paraíba investiu diretamente R$ 20 milhões no projeto, que tem como parceiros outros países além da China como o Reino Unido, França e outros.
O Nordeste inteiro na mira
A Paraíba não é o único estado nordestino que aparece nas preocupações de Washington. O mesmo relatório cita instalações em outros pontos do Brasil, como a Tucano Ground Station na Bahia, que é voltada para recepção e análise de dados de satélites. Segundo o comitê americano, a estação poderia fornecer à China um canal para “observar e influenciar a doutrina espacial militar brasileira”. O governo americano também demonstrou interesse na Base Aérea de Natal (RN) e também no aeroporto de Fernando de Noronha, em Pernambuco, alegando “direito histórico”.
No total, o documento americano aponta ao menos 11 instalações em países da América do Sul, entre eles Argentina, Bolívia, Venezuela e Chile, como parte dessa suposta rede de influência chinesa. O Brasil figura com destaque entre os países citados. Mesmo assim, o comitê americano vai além das denúncias e faz recomendações ao governo dos EUA, estabelecendo como meta explícita “interromper a expansão da infraestrutura espacial da China na América Latina” e, até mesmo “reverter e eliminar” as capacidades espaciais chinesas no Hemisfério Ocidental.
Ao tentar “interromper, reverter e eliminar” a infraestrutura espacial na América Latina, o comitê de John Moolenaar busca garantir que continuemos a comprar tecnologia enlatada do Norte, pagando royalties com o suor do trabalhador brasileiro que, ironicamente, é quem financia a educação pública que sustenta o projeto BINGO.
A Soberania como resistência
Para a Paraíba, o BINGO representa a chegada de ciência de ponta ao estado. O projeto coloca a UFCG, a UFPB e outras instituições paraibanas em contato direto com pesquisadores de todo o mundo. É formação de pesquisadores, é tecnologia avançada, é o Nordeste no mapa da astronomia global. O direito de um país periférico de olhar para as estrelas sem pedir permissão ao xerife do mundo.
A tentativa de “eliminar as capacidades espaciais” na América do Sul, como sugere o relatório americano, é um ataque colonial direto ao povo brasileiro. É nos tratar como criaturas incapazes de pensamento, subordinados a outros países. É um claro menosprezo a soberania do Brasil de fazer ciência, de escolher seus parceiros internacionais.
Mas não se engane, é isso mesmo! Os americanos preferem que o Brasil não seja capaz de se desenvolver. O ataque ao BINGO prova que o conhecimento é uma fronteira da luta de classes, e para sermos verdadeiramente soberanos, precisamos romper com a tutela militar dos Estados Unidos ou qualquer outro país estrangeiro. É preciso termos nossa integridade territorial e potencial intelectual.
O Brasil precisar crescer, e nesse caminho não há espaço para a vigilância e as desculpas desse colonialismo de Washington ou de outros países imperialistas.