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domingo, 15 de março de 2026

Dez anos das Ocupações do Movimento de Mulheres Olga Benario

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As ocupações do Movimento de Mulheres Olga Benario completam 10 anos enfrentando processos de despejo e repressão estatal para garantir a vida das mulheres trabalhadoras.

Coordenação Nacional do Movimento Olga Benario


MULHERES – No ano de 2016, a Lei Maria da Penha completava seus 10 anos. Entendendo a necessidade de avançar mais as políticas de combate e enfrentamento à violência contra as mulheres, o Movimento de Mulheres Olga Benario resolveu gritar um basta. Nesse ano, ocupamos imóveis abandonados para: denunciar a violência contra as mulheres, o feminicídio e a cruel ausência do Estado capitalista em se responsabilizar e enfrentar de vez essa realidade; reivindicar políticas públicas e construir espaços para organizar as mulheres na luta por nossos direitos e pelo socialismo.

Assim, nasceu a Ocupação de Mulheres Tina Martins (8/março, Belo Horizonte/MG) e a Ocupação Mulheres Mirabal (25/novembro, Porto Alegre/RS). Revivendo a história de Espertirina Martins, operária que esteve à frente de uma das greves brasileiras de 1917, e das irmãs dominicanas Patria, Minerva e Maria Teresa Mirabal, símbolos de resistência feminina contra opressões e violência na América Latina. Um ano depois, nasceu em Mauá, a Ocupação Helenira Preta, homenageando Helenira Resende, que lutou pelo socialismo e contra a ditadura militar, regime que a torturou e assassinou.

Nesses 10 anos, as ocupações funcionam como uma alternativa em acolhimento a mulheres vítimas de violência, com suporte jurídico, psicológico e social, mas também de espaço de organização política em Minas, Rio Grande do Sul, São Paulo e do país. Foram milhares de mulheres e crianças que já passaram por nossos espaços, tiveram apoio e puderam enxergar uma vida para além da violência.

Ocupação Tina Martins

Uma das vitórias obtidas com a ocupação foi a reorganização da rede de enfrentamento à violência contra a mulher em Minas Gerais e conquistas de mais Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher no estado. Reivindicações que seguem necessárias! Apesar das tentativas do governador Romeu Zema em vender o imóvel no qual hoje funciona a Casa, sem dar alternativas ao trabalho, num contexto em que Minas Gerais teve 139 mulheres vítimas de feminicídios só em 2025, a mobilização das mulheres do Olga e das apoiadoras da Tina Martins garantiu que a casa continuasse a salvar a vida de outras mulheres. A principal conquista que temos é quando uma mulher se junta à nossa luta!

E assim foi com Maria [nome fictício]. Depois de 16 anos de muita violência presa em um casamento e sem nenhuma rede de apoio, ou alternativa clara para sair dessa situação, Maria chegou até a Casa Tina Martins com seus filhos. “Esperançosa e com a certeza de que não estava mais sozinha. A partir de então, com o apoio do Movimento de Mulheres e com a certeza que tínhamos uma casa para nos acolher, passei a ver uma luz no fundo do túnel. Naquele momento percebi que ir embora foi o maior gesto de amor próprio. E hoje, gosto muito da mulher que me tornei, através do apoio recebido por essas mulheres fortes e revolucionárias que não medem esforços para lutar para salvar a vida de outras mulheres.” Maria hoje faz parte da Coordenação do Movimento de Mulheres Olga Benario.

Ocupação Mulheres Mirabal

Desde 2019, há um processo de reintegração de posse movido pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre, sob as gestões de Nelson Marchezan Jr. (PSDB) e mantido por Sebastião Melo (MDB). E, em 2023, foi determinada a retirada das mulheres e das crianças da Casa.

Em 2025, a Mirabal recebeu intimação judicial sob pena de uso de força policial para efetivar o despejo — uma medida que tenta criminalizar o movimento, ignorar o trabalho social já consolidado e que gerou grande indignação e muito apoio popular.

Com muita persistência em manter o trabalho, em 2025, fruto da luta, a Mirabal conquistou um novo imóvel. As tentativas de despejo seguem, mas a resistência e apoio crescem.

Ocupação Helenira Preta

Primeira ocupação do estado de São Paulo, realizada em 2017. Apesar das reintegrações, as mulheres do Olga já realizaram 3 ocupações na cidade de Mauá para continuar acolhendo e organizando mais mulheres. Através desse trabalho, já foram acolhidas mais de mil mulheres em situação de violência. 

A última ocupação foi feita em resposta ao feminicídio de Gabriela Mariel Silvério, militante do Olga em Mauá, que lutava por Delegacia da Mulher 24 horas, chegando a recolher centenas de assinaturas em abaixo-assinado. Fruto dessas lutas, as mulheres conquistaram um terreno cedido pela prefeitura da cidade para construção de uma casa para continuar o trabalho nas ocupações.

Pela vida das mulheres e pelo socialismo

Nesses 10 anos, já foram realizadas mais de 30 ocupações espalhadas pelo Brasil, denunciando que o capitalismo é o principal responsável pelo aumento da violência, uma vez que a crise econômica retira direitos básicos das mulheres da classe trabalhadora como moradia digna, salário, creche, estudo, o que as deixa mais dependentes dos seus agressores, enquanto o Estado as negligencia. Além disso, as ocupações servem de espaço de organização das mulheres trabalhadoras na luta por esses direitos e para a construção da sociedade socialista, na qual nossas riquezas e nosso trabalho não são mercadorias, e nossas vidas são verdadeiramente valiosas, dignas e plenas.

Matéria publicada na edição impressa Nº 329 do jornal A Verdade

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