Tendo concorrido em 4 categorias no Óscar, e tendo ganhado mais de 70 prêmios ao redor do mundo, O Agente Secreto, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, se destaca como uma das grandes obras do cinema nacional.
Clóvis Maia| Redação Pernambuco
CULTURA- Ambientado no Recife da década de 70, auge da ditadura militar, o filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, despontou como um dos grandes representantes do cinema nacional, além de ter sido indicado em 4 categorias do Óscar de 2026 e ter recebido mais de 70 prêmios ao redor do mundo, entre eles o Globo de Ouro de Melhor Filme, o Festival de Cannes por melhor direção e ator, o Critics Choice Awards de melhor filme internacional, entre outros.
O jornal A Verdade entrevistou Richard Soares, cineasta do sertão do Pajeú radicado no Recife, que trouxe algumas observações e olhares sobre a importância dessa obra para o cinema pernambucano e como a sua repercussão vai fortalecer o cinema brasileiro, especialmente após o sucesso no ano passado do também brasileiro Ainda Estou Aqui, do também brasileiro Walter Salles, que além de ser o primeiro filme brasileiro a ganhar o Óscar de melhor filme internacional, no ano passado, também foi um divisor de águas ao debater sobre memória, verdade, justiça e reparação, debatendo junto à sociedade as agruras dos 21 anos de regime militar no Brasil.
Jornal A Verdade- O Agente Secreto tem chamado atenção por sua história e as suas referências, como a questão da perna cabeluda. Mas, do ponto de vista técnico, o filme consegue se destacar muito também, especialmente se tratando de um filme de baixo orçamento. Fala um pouco mais sobre essa forma de trazer o Recife dos anos 70 para as telonas.
Richard Soares- Em Agente Secreto, o diretor e a equipe encontram uma questão técnica, umas soluções para reproduzir o roteiro que dão muito certo. Primeiro pensando na estética, na reconstrução das cores e da cidade do Recife. Ele consegue contemplar isso muito bem. É um filme que tem profundidade visual, que tem uma fotografia muito boa, com aquele tom de lavado, um pouco do amarelo. Isso trás toda a atmosfera do Recife dos anos 70. A trilha sonora também é totalmente ligada a isso, pegando desde Paêbirú, do Lula Côrtes e Zé Ramalho, passando pela banda de Pífano de Caruaru, esses elementos da fotografia e da trilha, se interligam muito bem ao roteiro dessa história. Quem assiste é transportado para aquela época. E mesmo quem não é pernambucano, já que o cinema é uma linguagem universal, se identifica com aquilo que é reproduzido ali.
O Kleber Mendonça é conhecido por trabalhar muito bem a questão da memória, do cinema, do resgate afetivo que a sociedade tem com a questão do pertencimento. Vemos em Aquarius, Retratos Fantasmas ou mesmo Bacurau. Como essa questão da linguagem cinematográfica é tratada aqui? Quais as mensagens que ele quer passar em seu Agente Secreto?
Tem uma metalinguagem muito forte aqui. Nessa relação entre passado e presente. Quem tá assistindo percebe certa hora que estamos dentro de um filme que fala sobre filmes. Que ele está debatendo essa questão da repressão, mas também faz, ao mesmo tempo, uma homenagem ao Cinema. É o Cine São Luiz, ali, quase como um personagem, é o tubarão nas praias do Recife, o tubarão do Spielberg, a sociedade falando sobre o filme, a criança querendo assistir o filme, tendo pesadelo com ele, crescendo com a referência do cinema, a relação com o avô, e etc., além do tom de suspense do Alfred Hitchock que aqui é emulado e as cenas que dialogam com a sétima arte. Tudo isso sem deixar de ser uma história boa de se ver. A gente se identifica com Dona Sebastiana, Armando, Claudia.
Tem muita gente da direita criticando o filme. Muitas vezes sem nem se quer ter assistido. Vimos a mesma reação com relação ao filme “Ainda Estou Aqui”, do Walter Salles. Infelizmente esse ano não conseguimos levar também o Óscar. No que esses dois filmes se assemelham e no que eles se distanciam?
Realmente. Esse é o segundo filme brasileiro seguido que concorre ao Óscar, e saindo como essa grande expressão de premiações e reconhecimento internacional. Agora, é interessante notar o sentido histórico e crítico desse filme, que aborda uma outra parcela da sociedade. Aqui vamos ter um cara que não é necessariamente um militante político, alguém de um determinado partido. Mas que, querendo ou não, ao defender a sua posição, a ciência, a universidade, ele acaba se tornando também um alvo. E ele não baixa a cabeça para essas pessoas, né? A mensagem que o filme passa aqui é que a ditadura militar atacou todos os seguimentos da sociedade. Ou você estava do lado do regime, ou era considerado inimigo e pronto! Além de termos aqui essa história mostrada fora do eixo Rio/São Paulo. A ditadura também puniu, perseguiu e marcou o Nordeste. Essa produção acerta muito em mostrar esse outro lado.
É outra característica do Kleber Mendonça, essa de trabalhar diferentes narrativas e pontos de vistas. E ele trabalha com um elenco muito interessante, mas também com uma narrativa que nos surpreende, que causa até um estranhamento. Como funciona essa questão elenco e roteiro?
O Wagner Moura está muito bem nesse papel. A atuação dele é impecável, mas também temos a importância dos atores coadjuvantes. A Tânia Maria, por exemplo, fazendo o papel da Dona Sebastiana, é algo maravilhoso. Mas eu acredito, assim, que o roteiro é muito bem pensado, mesmo deixando essas ‘brechas’, que esse cinema mais midiático não gosta. Esse cinema industrial sempre quer que a gente fique totalmente numa zona de conforto, que pegue aquela história toda arrumadinha, ali. Que fique só nisso. O Agente Secreto confronta isso. Novamente, essa questão de como a ditadura buscou trabalhar o esquecimento, é questionado. E trazido para os dias de hoje. Que é o recorte que o diretor faz ao nos colocar dentro de uma história que possui outras perspectivas, mesmo que não seja, muitas vezes, aquela que a gente estivesse, de certa forma, esperando. E é como se o filme fosse interrompido, mesmo. A história termina ali exatamente como a ditadura fazia: separava as pessoas, criava narrativas, destruía reputações. Esse filme nos convida a pensar, a refletir e também espera que o público participe, construía também a narrativa. Por isso que tá lá a questão, por exemplo, do menino Miguel. Nada ali no filme é ‘jogado’ por acaso. Todo mundo tem que assistir esse filme.