Cerca de 2 mil indígenas de 14 povos do Tapajós conquistaram uma vitória histórica: o Governo Federal foi obrigado a revogar o Decreto nº 12.600, que entregava os rios Tapajós, Madeira e Tocantins à exploração privada do agronegócio.
Denily Fonseca | Belém (PA)
LUTAS DOS POVOS INDÍGENAS – Após 34 dias de ocupação do porto da multinacional Cargill, em Santarém (PA), cerca de 2 mil indígenas de 14 povos do Tapajós conquistaram uma vitória histórica: o Governo Federal foi obrigado a revogar o Decreto nº 12.600/2025, que entregava os rios Tapajós, Madeira e Tocantins à exploração privada do agronegócio. A ocupação começou em 21 de janeiro. Durante mais de um mês, o principal terminal de exportação de soja do oeste do Pará virou território de resistência indígena contra a privatização dos rios amazônicos.
“Não iremos tolerar a entrega dos nossos rios às multinacionais do agronegócio. Os rios pertencem ao povo brasileiro e não serão transformados em estradas para a soja”, afirmou a liderança Munduruku Alessandra Korap durante a ocupação.
O Decreto nº 12.600 incluía três grandes rios amazônicos no Programa Nacional de Desestatização. Na prática, isso permitiria que empresas privadas controlassem a dragagem e o tráfego de embarcações, transformando rios públicos em hidrovias industriais.
O objetivo era claro: ampliar o escoamento de soja e milho para exportação, ou seja, colocar os rios a serviço das grandes empresas agrícolas que operam no mercado internacional. Para os povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas, isso significaria destruição ambiental, alteração dos ciclos dos rios, impacto na pesca e ameaça direta aos territórios.
Por que a ocupação foi na Cargill
Os povos escolheram ocupar justamente o terminal da Cargill porque ele simboliza o avanço do agronegócio estrangeiro na Amazônia. A Cargill é uma das maiores empresas agrícolas do mundo, com sede nos Estados Unidos. Opera em mais de 70 países e controla parte do comércio global de grãos. No Brasil, a empresa lucra bilhões exportando soja, milho e outras commodities.
O porto de Santarém, instalado no início dos anos 2000, foi decisivo para expandir a soja no oeste do Pará. A produção do interior da Amazônia desce pelo rio Tapajós e segue para exportação, principalmente para a Europa e a Ásia. Enquanto isso, comunidades locais enfrentam desmatamento, invasões de terra e pressão sobre seus territórios.
Os povos do Tapajós mantiveram a ocupação mesmo sob ameaça judicial e pressão da empresa. Quando saiu a decisão de reintegração de posse, os indígenas ampliaram o protesto e ocuparam a área interna do terminal. Ao longo da mobilização, as ações de luta também se estenderam ao rio Tapajós, eixo central do escoamento do agronegócio na região. Em uma das jornadas, mais de 400 indígenas ocuparam uma balsa graneleira da Cargill, estendendo faixas e denunciando o uso dos rios amazônicos como corredores privados de exportação.
A tomada simbólica da embarcação e do próprio terminal evidenciaram o controle corporativo sobre o território e reforçaram a denúncia indígena contra a privatização das hidrovias. A ocupação reuniu povos do Baixo, Médio e Alto Tapajós e chegou a cerca de 2 mil participantes.
Imperialismo na Amazônia
Nos primeiros dias, o Governo Federal tentou apenas suspender a licitação da dragagem e criar um grupo de trabalho, mas não revogou o decreto. Só após mais de um mês de ocupação e pressão dos povos indígenas, em Santarém e em Brasília, é que o Governo Lula voltou atrás. A medida atendia aos interesses do agronegócio exportador e das multinacionais da logística.
A disputa no Tapajós revela um conflito maior: quem controla a Amazônia. De um lado, o agronegócio ligado ao capital estrangeiro, que quer transformar rios e terras em infraestrutura de exportação. De outro, os povos que vivem do território e defendem os rios como fonte de vida.
A privatização das hidrovias faz parte da mesma lógica que expande soja, mineração, ferrovias e portos na região e transforma a Amazônia em base de matérias-primas para o mercado mundial. É o velho modelo colonial, agora comandado por multinacionais e grandes empresas do agronegócio.
Vitória que aponta o caminho
A revogação do decreto é uma derrota concreta do projeto de privatização dos rios amazônicos e do avanço do agronegócio sobre o Tapajós. Mostra que, mesmo diante de multinacionais bilionárias e políticas estatais, a organização dos povos pode barrar a entrega do território. Ao mesmo tempo, o conflito continua, a expansão da soja, dos portos e das hidrovias segue pressionando a Amazônia.
A ocupação da Cargill deixou uma lição clara: quando o capital avança sobre os rios e as terras, os povos se levantam para defender seus territórios. A vitória no Tapajós entra para a história como uma conquista da luta indígena e como prova de que só a mobilização popular pode impedir o saque do território brasileiro pelo agronegócio e pelo capital estrangeiro.
Matéria publicada na edição impressa nº 329 do jornal A Verdade