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terça-feira, 24 de março de 2026

Privatização em São Paulo piora os serviços e quem paga é o povo

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Sob a gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos), o Estado de São Paulo atravessa um acelerado processo de privatização que planeja extinguir a CPTM com o leilão da Linha 10-Turquesa em 2026.

Lucas Marcelino e Mariana Rodrigues | São Paulo (SP)


BRASIL – Os últimos quatro anos foram marcados por uma intensa política de privatização dos serviços públicos, sobretudo no estado de São Paulo sob o comando do governador fascista Tarcísio de Freitas (Republicanos). Manchado pelo sangue da população que não aceitou de cabeça baixa a venda dos seus direitos, Tarcísio privatizou as linhas 07-Rubi, 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade da CPTM, e a água do estado, mostrando que de moderado não tem nada, apesar da imagem que a mídia burguesa tenta retratar. O real interesse do governador é entregar as riquezas e estruturas construídas com suor do povo trabalhador para seus amigos milionários.

Mesmo contra a vontade da população, que já se manifestou de diversas formas contra a privatização, e com a comprovação da piora dos serviços, os governantes seguem com o seu projeto privatista. Nos últimos anos foram privatizadas quase todas as linhas de trem da CPTM e projetos de trens interestaduais, três linhas do Metrô, a SABESP, escolas estaduais e municipais, hospitais públicos, parques, entre outros.

Há décadas do início da privatização dos serviços públicos, a promessa da melhora não se concretizou. O serviço de energia, além de caro, tem deixado milhões de imóveis sem luz a cada chuva. Todos os anos, as empresas de transporte metropolitano recebem bilhões de reais em subsídio enquanto os ônibus vivem lotados e atrasados. Mesmo diante disso, as tarifas sofrem aumentos acima da inflação e os contratos são renovados anualmente.

Privatização piora o transporte

Desde a primeira privatização – da Linha 4-Amarela – em 2006, o estado de São Paulo mantém um esquema que beneficia as empresas privadas e causa prejuízos ao povo e às empresas públicas. Na construção desta linha, o governo arcou com quase US$1 bilhão, 73% do total, contudo, a empresa vencedora do leilão fica com a maior parte da arrecadação gerada pelo pagamento da tarifa.

E a situação é ainda mais absurda, já que além de receber a maior parte do dinheiro arrecadado, o contrato prevê o “mecanismo de compensação financeira” em que caso a demanda de passageiros seja baixa o governo deve indenizar a empresa. O lucro é garantido a tal ponto que, enquanto as linhas públicas operam sem parar, as estações da Linha 4-Amarela são constantemente fechadas em caso de excesso de passageiros. Funcionando ou não, o dinheiro continua entrando nos bolsos da empresa privada.

A justificativa de que privatizar é um meio de cortar os gastos públicos cai por terra diante desse esquema, uma vez que, além de tudo isso, as linhas privatizadas recebem subsídios maiores que as linhas públicas, que ficam cada vez mais sucateadas. Após um vazamento de gás na Linha 3-Vermelha do metrô ocorrido no último sábado (24), a usuária Stéf Casarin relatou ao jornal A Verdade: “Para quem depende do metrô, fica claro que não tem manutenção, não tem investimento suficiente e que eles precarizam cada vez mais as linhas públicas para justificar a privatização”.

As linhas privadas, contudo, mesmo que recebam mais investimento que as linhas públicas, são piores do que elas. Um levantamento feito pelo portal G1 mostrou que entre 2023 e 2025, as linhas de trem administradas pela empresa privada ViaMobilidade (Linha 8-Diamante e 9-Esmeralda) tiveram o dobro de falhas do que as linhas até então administradas pela CPTM (7-Rubi, 10-Turquesa, 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade). Com a privatização e o iminente fim da CPTM, a tendência é que os serviços fiquem cada vez piores.

Fica claro como esses contratos são prejudiciais aos cofres públicos. Mas, contrariando a lógica, os governadores continuaram realizando privatizações e nas mãos do Estado restam apenas as linhas 1, 2, 3 do Metrô e 10 da CPTM.

Governos neoliberais

No livro “A privataria tucana”, o jornalista Amaury Ribeiro Júnior revelou como a privatização foi usada pelo ex-presidente FHC e outros políticos do PSDB para desviar dinheiro para paraísos fiscais. São exemplos a venda da Vale do Rio Doce por apenas R$3,3 bi enquanto só as reservas de minerais valiam mais de R$90 bi e o caso Siemens, no qual a empresa pagou propina e montou cartéis em um esquema para aumentar o valor pago na manutenção de trens em São Paulo e no Distrito Federal. Em ambos os casos o Estado e o povo foram prejudicados pelas autoridades e pelas empresas privadas.

Privatizar as linhas de trem não é uma prática recente, tendo seu início durante o governo de Fernando Collor de Mello (1990-1992), com a venda da Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA), com o intuito de “modernizar” o serviço. O que aconteceu de fato foi o fim de linhas ferroviárias como a “Santos-Jundiaí”, que ligava a região metropolitana de São Paulo ao litoral e a “Sorocabana”, que ligava o interior à capital paulista.

Dando continuidade a esse projeto, o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), concluiu a privatização total da RFFSA, em 1996. O governador de São Paulo, Mário Covas (1995-2001), na mesma toada, promoveu a privatização da Ferrovia Paulista S.A. (Fepasa), que inicialmente foi incorporada à RFFSA, mas depois foi totalmente privatizada. Esse processo resultou no fim do transporte de passageiros nas linhas ferroviárias, fazendo com que a população seja submetida até os dias atuais à máfia das empresas que lucram com o transporte rodoviário, que além de mais caro, é mais perigoso.

Em São Paulo, os ex-governadores Geraldo Alckmin e João Dória (PSDB) e o atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), além de prefeitos como Bruno Covas (PSDB) e o atual Ricardo Nunes (MDB), entregaram boa parte dos serviços públicos para as empresas dos seus amigos milionários a preço de banana, “passando a perna” no povo trabalhador. Durante as eleições, receberam financiamentos volumosos de sócios e acionistas para suas campanhas. Enquanto isso, o povo – que sempre foi contra a privatização – recebeu violência policial quando protestava contra as vendas e piora no atendimento depois das privatizações.

Leilão da linha Turquesa

A privatização já gerou outros impactos como o fim do sistema 710 que permitia viajar de Jundiaí a Rio Grande da Serra sem precisar trocar de trem. Agora, os passageiros são obrigados a descer na Estação Barra Funda e aguardar o próximo trem em plataformas lotadas, sem escada rolante. “Com o fim do serviço, meu trajeto até a faculdade ficou 30 minutos mais longo”, afirmou um usuário da Linha 7-Rubi que fazia baldeação da Estação da Luz.

A vontade de agradar os ricos é tão grande que o governador Tarcísio de Freitas já tem planejado entregar a Linha 10-Turquesa no segundo semestre de 2026 e acabar de vez com a tradicional CPTM, responsável por unificar e resgatar o transporte ferroviário em São Paulo. Em outra frente, estão sendo preparadas as vendas das demais linhas do Metrô.

O objetivo do governador é sinalizar para a burguesia que caso seja eleito neste ano, irá dar continuidade à venda de todas as empresas públicas, de tudo aquilo que é produzido pelas mãos do povo trabalhador, que sequer pode usufruir de um serviço público de qualidade.

Mesmo diante desse cenário, é possível impedir a privatização da Linha 10-Turquesa e reverter as privatizações realizadas até então. Se é verdade que “a classe trabalhadora tudo produz, a ela tudo pertence”, então que mais nenhuma gota de água e mais nenhum centímetro do transporte sejam vendidos diante do sangue do povo trabalhador.

Matéria publicada na edição impressa Nº 329 do jornal A Verdade

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