Atleta foi suspensa após ter comemorado a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. A atitude da Federação é exemplo de qual lado os dirigentes do esporte brasileiro se encontram, e qual o compromisso deles.
Natanael Sarmento – Redação Pernambuco
OPINIÃO- A Federação Internacional de Voleibol – FIVB suspendeu a atleta brasileira Carol Solberg em 19 de fevereiro. Punição por declaração dela considerada “conduta antidesportiva” pela entidade. A atleta está impedida de participar da etapa do circuito mundial em João Pessoa. O pretexto da retaliação foi comentário no mundial da Austrália, em 2025, sobre a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro: “ontem no Brasil nós colocamos na cadeia o pior presidente de todos os tempos. Vamos comemorar!”
O paradoxo dessa punição administrativa por declaração política é que esta decisão é política. Do comitê. A pretensa separação da decisão do CIVB da política é falsa. Separar a atividade desportiva ou qualquer atividade humana da política é uma falsificação, ou manipulação da realidade. A primeira lei da dialética ensina que tudo se relaciona. Expliquemos melhor.
Lógicas
A lógica formal ou mecânica resulta de anos de observação da natureza, foram desenvolvidas regras importantes desde A.C. por Aristóteles e outros gregos. Com os limites do conhecimento da época. O princípio da identidade diz que A é A, logo, A não é B, uma coisa não pode ser outra ao mesmo tempo, vida não é morte, flor é flor, árvore é árvore, separadamente, nessa mesma lógica tradicional, esporte é esporte e política é política. Embora importante, tal lógica não explica o processo, o movimento, a transformação de todos os fenômenos que ocorrem na natureza e na sociedade.
Foi o desenvolvimento das ciências observando as mudanças e movimentos da natureza e das sociedades que possibilitou o surgimento da lógica dialética, com base em leis universais do movimento e da transformação universais, correlacionando fenômenos que eram explicados estaticamente, isoladamente. Desde que nascemos surgem novas células e outras morrem, a morte orgânica faz parte do processo de luta de forças contrárias que se relacionam morte-vida.
A flor resulta do processo de desenvolvimento de uma planta (árvore) que se desenvolveu a partir de uma semente e assim por diante. Por isso a visão da história humana na perspectiva dialética de correlacionar os fatos aparentemente separados, é mais condizente com uma visão científica e comprovada na prática como verdadeira.
Façamos rápido exercício de lógica: O Esporte (A) não é política (B) na lógica formal, pois são atividades distintas, A não é B. Isso é verdadeiro, mas insuficiente! A afirmativa veraz na aparência é falsa na essência, pois separa o inseparável: a relação da atividade desportiva com a política. Todos os desportes e atletas (A) dependem de atos políticos. De incentivos e recursos públicos, de transportes, centros de treinamentos, assistência técnica, nutricional e médica, e, enfim das condições de sobrevivência. De liberdade e condições dignas de moradia e trabalho, de tratamento igual, independente de gênero, etnia, religião ou convicções políticas.
Desconsiderar essas relações não contribui para o desenvolvimento dos desportos e muito menos, dos atletas. A aplicação da sanção com base no regulamento da FIBV foi decisão política e mesquinha com base em interpretação formal. Decisão injusta e desumana, pois atenta contra direitos da personalidade, contra direitos humanos fundamentais consagrados nas Constituições do mundo civilizado como liberdade de expressão e de trabalho.
Qual foi o delito de Carol?
Carol comemorou com palavras a prisão do fascista Bolsonaro, tipo social que, no poder a prejudicou como cidadã, atleta e mulher. Como cidadã vide os atos terroristas golpistas pelos quais foi condenado no STF a 27 anos de prisão. Como mulher pelas declarações machistas e misóginas que marcam a vida pública do hoje presidiário.
Como atleta, por que no exercício da presidência o “mito” destruiu o Ministério dos Desportos, reduzido à secretaria especial. Militarizou e aparelhou a Secretaria Especial de Desporto. Enfraqueceu políticas públicas desportivas como o projeto olímpico brasileiro – com mais 10 anos, o programa Bolsa-Atleta, criado no governo Lula e que chegou a financiar 80% dos competidores olímpicos e paraolímpicos brasileiros. Nas Olímpiadas de 2016 a Bolsa-Atleta beneficiava 75% dos atletas nacionais.
O General Décio Brasil, foi o segundo chefe da Secretaria de Desporto exonerado em doze meses. Consta que o General Brasil resistiu à nomeação de Marcelo Magalhães para alto cargo executivo, tratava-se do padrinho de casamento do Flávio Bolsonaro, filho do presidente. Para o General Brasil tal qualificação não bastava, mas para Bolsonaro a “famíglia” se basta e o Brasil caiu.
Prejudicou milhares
Antes da papuda, nos tempos da presidência e durante a pandemia Covid-19 que matou mais de 700 mil pessoas, da “famosa gripezinha”, Bolsonaro prejudicou diretamente o mundo desportivo. Vetou o PL 2824/2020 aprovado no Congresso e assim cortou a liberação do auxílio (R$ 600,00) para atletas em dificuldades, bem como a dedução de 1% para 2%, no limite de deduções dos patrocínios e doações, da Lei de Proteção ao Esporte.
Ao longo de três décadas na política, Jair Bolsonaro patrocinou atos e declarações machistas e misóginas que lhe renderam, inclusive processos legais. Para refrescar a memória, sobre o nascimento da única filha mulher chamou de “fraquejada”. Numa discussão com a deputada Maria do Rosário afirmou para atingi-la na condição humana de mulher: “você não merecia ser estuprada porque é muito feia”. Constam ataques chulos a jornalistas chamadas de “idiotas”, “analfabetas” que fossem “dormir pensando nele”.
O presidiário quando obrava no Alvorada declarou que as pautas Lgbtqia+ são nocivas e destroem a família. Afirmou: “o Brasil precisa deixar de ser um paraíso de maricas”. Sobre o turismo para gays em 2019 vaticinou: “quem quiser fazer sexo com mulher, fique à vontade”.
Regra e justiça
A lei, a regra, o regulamento são meios e devem servir à aplicação da justiça. É velha a discussão sobre essa distinção entre a lei, o meio e a justiça o fim. A tragédia Antígona de Sófocles já abordava a temática da aplicação da lei como justiça ou injustiça. Séculos depois os romanescos inventaram a tal da hermenêutica e fixaram regras para interpretações de regras, e mais modernamente, para integração e complementações de lacunas e soluções de antinomias.
Mas o CIVB em pleno século XX aplica a “justiça punitiva” de Creonte da narrativa de meio milênio A.C. Ou será expressão da perversão do maldoso Procusto? Do assaltante de estradas que colocava suas vítimas numa cama e cortava as suas pernas ou as esticava até ficar no tamanho exato do leito?
Na exatidão da bitola do art. 8.1 do Regimento Disciplinar a FIVB proíbe Carol, atleta profissional de voleibol, de participar do circuito mundial da etapa de João Pessoa/PB. Pelas declarações dessa atleta contra o malfeitor Bolsonaro em entrevistas de 2025 na Austrália.
Conservadorismo e fascismo
No Brasil e no mundo, a direita tem hegemonia nas entidades desportivas. Federações, confederações dos esportes têm sido alinhados às pautas conservadoras e instrumentalizados pelos fascistas. Não vamos nos deter neste artigo sobre as denúncias de corrupção e de lavagem de dinheiro, que abundam, aqui e alhures.
Atletas profissionais com visibilidade apoiadores da extrema direita fazem declarações sem punição alguma, vide Neymar, Felipe Melo, Lucas Moura dentre outros que apoiaram publicamente o fascista Bolsonaro. Perguntamos para ofender: algum deles recebeu suspensão, ou sequer uma repreensão pública da CBD ou da FIFA?
Dois pesos e duas medidas
Carol Solberg, cidadã brasileira, foi punida por representar uma voz progressista contra os reacionários fascistas. Teve violada a sua liberdade de expressão e de trabalho. A questão não é Carol em si, mas o que representa, politicamente silenciar e aceitar passivamente essa aberrante retaliação da direita encrustada no comitê brasileiro e internacional que se sentiu o dedo na ferida.
As autoridades da CBV – Confederação Brasileira de Voleibol – deviam se envergonhar do papel servil e capacho de prepostos da direita, defender o desporto e os atletas, protestar contra a injusta punição de Carol.
Em defesa do esporte, da liberdade de expressão e de trabalho, contra a perseguição fascista a atletas capazes de pensar criticamente, prestamos toda nossa solidariedade a Carol Solberg.