Passadas as primeiras mobilizações e levantes populares, a classe operária brasileira, cada vez mais numerosa e tomando consciência de sua importância para a construção da nação, continua as lutas de maneira cada vez mais organizada. Esse é o quarto capítulo da série “A história oficial Versus as lutas do proletariado brasileiro” exclusiva para o jornal A Verdade.
Natanael Sarmento| Redação Pernambuco
HISTÓRIA (Parte 4)- A classe dominante brasileira – oligarquia agrária e industrial, assaltava “legalmente” a Fazenda pública nacional através das políticas de valorização do café. No pacto de “Taubaté” engendram a “Caixa de Conversão” – artifício para estabilizar o câmbio e o governo pagar preço “mínimo” do café estocado, em qualquer cenário. Os países importadores reduziam ou suspendiam compras diante da crise. O preço do café despencava. O povo brasileiro pagava a conta com os valores anteriores à queda do mercado. O Congresso Nacional controlado pelas oligarquias transformava em lei as “resoluções do Convênio de Taubaté”.
A classe operária, em formação, avançava suas formas de organização e de lutas para enfrentar a tirania do capital.
O primeiro congresso operário do Brasil- 1906
O Primeiro Congresso Operário Brasileiro realizou-se na sede do “Centro Galego” Rio de Janeiro, de 15 até 22 de abril de 1906. Esse enorme avanço na organização operária e sindical nacional contou com participação de 43 delegados, 28 entidades associativas do país. A despeito da confusão ideológica – socialistas revolucionários, anarco-sindicalistas, positivistas federalistas, o 1º Congresso expressava a vanguarda operária brasileira e lançava as bases de criação da Confederação Operária Brasileira (COB), primeira Central Sindical. A COB desempenhou papel fundamental nas lutas dos trabalhadores desde a fundação, em 1908. O jornal “A Voz do Trabalhador” da COB servia a agitação, propaganda e formação política da classe operária. Unificava nacionalmente as lutas pela jornada de 8 horas, aumento de salário, regulamentação do trabalho de mulheres e menores e direitos sindicais.
Greve dos Ferroviários de Jundiaí- 1906
A Companhia Paulista de Estrada de Ferro fundada pela oligarquia cafeeira de São Paulo em 1868 realizava o transporte de cargas e passageiros no Norte e Noroeste do estado. Utilizava o trabalho escravo antes e depois da abolição. Os trabalhadores assalariados sofriam apropriações indébitas da “Paulista”. A Companhia obrigava descontos salariais para “Caixa Beneficente” e Associação de Proteção À Família” criadas e dirigidas pela empresa. Não ajudavam os trabalhadores quando eles precisavam. Apropriava-se de parte do salário e controlava os trabalhadores impedindo que eles se filiassem à “Liga Operária”, entidade classista e de luta dos próprios trabalhadores.
A Liga Operária de Jundiaí publicou Manifesto contra a tirania e exploração da “Paulista” e a fraude dos descontos obrigatórios. O Manifesto circulou e repercutiu, amplamente, na cidade. Na greve os operários reivindicavam a saída do chefe de locomoção e do staff de tiranos, exigindo respeito e dignidade, melhorias salariais e jornada de trabalho de 8 horas.
A empresa subestimou o movimento. A greve ganhou adesões das estações da rede ferroviária e a solidariedade de outras categorias. Calcula-se a adesão de três mil e quinhentos operários na histórica paralisação. A repressão foi violentíssima.
No final, a Companhia retirou a obrigatoriedade das contribuições às entidades beneficentes da empresa e reconheceu a jornada de trabalho de 8 horas. Formidável conquista dos operários. Direito dos trabalhadores somente reconhecido em território nacional décadas depois, na CLT -1943. A greve vitoriosa conquistou também o direito de pensão para viúvas e serviu de exemplo em outras categorias operárias.
Greve Geral de São Paulo- 1907
O movimento paredista inicia com os trabalhadores da construção civil e ganha corpo com a adesão de diversos setores da indústria e comércio de São Paulo. Metalurgia, alimentos, cotonifícios, todos reivindicavam jornadas de 8 horas, melhores salários e condições dignas, segurança e higiene no trabalho. A repressão policial do Estado burguês de sempre. A novidade foi a aprovação da “lei de expulsão dos estrangeiros” dirigida às lideranças mais avançadas, os imigrantes anarquistas e socialistas. Os “agitadores” eram “banidos” – 25 deportados do Brasil com base na “Lei Adolfo Gordo”. Organizações classistas foram invadidas e fechadas”. Caía a máscara da legalidade democrática burguesa. O que existia era uma ditadura da minoria de nababos sobre a maioria de trabalhadores pobres.
Confederação Operária Brasileira- 1908
A primeira central sindical operária do Brasil foi inaugurada em 1908. Da fundação da Confederação Operária Brasileira (COB) participam a Federação Operária de São Paulo e 50 sindicatos. Unifica-se as lutas nacionalmente: defesa da liberdade sindical; ações diretas e greves; liberdade de culto dos associados; jornada de 8 horas de trabalho; melhores salários´; proibição da exploração do trabalho infantil além de outras demandas históricas da classe operária.
Greve dos Ferroviários do Rio de Janeiro- 1908
A Estrada de Ferro Leopoldina – EFL – companhia inglesa de transporte de passageiros e cargas do Rio, cobrava fretes e passagens inflacionados e seus serviços eram precários. Sucateados. Sem manutenção. Os usuários reclamavam dos atrasos. Dos equipamentos antigos e quebrados. Produtores de café da região também eram prejudicados. As insatisfações se acumulavam e com elas os protestos. Os usuários se revoltaram e destruíram vagões de trens, trechos da ferrovia e equipamentos. A revolta repercutiu no andar de cima. A companhia foi notificada para adotar providências, mesmo no faz de conta das elites. Mas ficou o recado: as classes dominantes temem sentimentos de insatisfação dos explorados com forma de revolta popular.
A Greve do Gás no Rio de Janeiro- 1908
A “Société Anonyme du Gaz” (SAG), empresa belga, explorava a concessão da iluminação pública a gás do Rio de Janeiro. Os “acendedores de postes” e “lampiões” percorriam a cidade com varas compridas em jornadas penosas. Eles e outros trabalhadores da SAG laboravam em condições análogas à escravidão. Contra tal exploração realizaram uma greve que durou 5 dias e deixou a capital no escuro.
Revolta Popular de 1909 no Rio de Janeiro
A companhia canadense “Light and Power” monopolizava o serviço de distribuição de energia e o controle dos serviços dos bondes elétricos na capital do país, Rio Janeiro. Cobrava altas tarifas. Falhava no fornecimento da energia. Apagões, cortes e quedas de energia causavam prejuízos aos usuários. A cobertura tampouco satisfazia as áreas populares. A população “servida” reclamava da qualidade e dos preços. O gatilho da revolta foi novo aumento de tarifa e a repercussão negativa da notícia da resolução da querela judicial da Light com a CCBEE – Companhia Brasileira de Energia Elétrica. A causa jurídica foi decidida a favor do monopólio estrangeiro. A população carioca, revoltada, depredou bondes, postes e apedrejou a sede da empresa. A polícia agiu “aos costumes” e houve muitos confrontos nas ruas.
Greve de Santos- 1909
Santos era chamada de “Barcelona Brasileira”, por forte movimento operário e presença de “agitadores” anarquistas e socialistas. Os serviços essenciais da cidade portuária paralisam por 27 dias. A greve atingiu o coração exportador do país. A polícia estadual contou com reforço federal que deslocou navios da Marinha de Guerra para intimidar os grevistas. Os trabalhadores não se dobraram. Enfrentaram a repressão estatal com barricadas. Os jornais noticiaram 8 mortos e centenas de feridos e deportações de “agitadores” imigrantes. A SISU – Sociedade Internacional União dos Operários” foi invadida. Devassada pela polícia e fechada. Movimento emblemático da luta pela jornada de 8 horas e fim do trabalho infantil de menores de 14 anos.
Em 1909 registram-se manifestações de protestos de trabalhadores brasileiros contra a execução do professor e líder anarquista Francisco Ferrer, pelo governo da Espanha.
Greve dos Ferroviários do Nordeste- 1909
A Companhia inglesa Great Western foi instalada em Pernambuco, 1879. Ampliou a malha ferroviária por 1.600 quilômetros – PE, AL, PN e RN. Milhares de trabalhadores escravos e na transição ao assalariamento. Contudo, sem leis de proteção ao trabalhador, na prática a servidão patronal mantinha escravista. A “Western” pregava sacrifícios dos operários e pagava baixos salários. Fazia promessas de recompensas futuras, quando no futuro, os lucros da empresa surgissem. A empresa expandiu em todo Nordeste. Os trabalhadores restaram mais pobres, com redução salarial, demissões e maus tratos.
A greve foi organizada nos quatro estados e durou dez dias. Afetou transportes urbanos e de cargas interestaduais e também o comércio. A Associação Comercial e do governo de Pernambuco pressionam por solução. A Great foi obrigada a aumentar salários e fazer ajustes adequados nas condições de trabalho.
E as lutas só aumentaram nos anos 1910. Tema que abordaremos no próximo capítulo.