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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Livro levanta questões sobre a causa palestina e aprofunda as origens do atual genocídio

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O Jornal A verdade entrevistou o professor e pesquisador Pedro Lima Vasconsellos, que vem atuando e contribuindo em diversos debates sobre a causa Palestina e produzindo importantes obras que aprofundam os estudos sobre as origens do atual genocídio patrocinado pelo imperialismo internacional em sua sede por territórios e lucros. Para nosso jornal ele falou um pouco sobre seu ultimo livro, A Questão Palestina: a nervura religiosa da “catástrofe”.

Clóvis Maia| Redação


 

ENTREVISTA- Com o cessar-fogo de Israel entrando em vigor em 9 de outubro de 2025, a imprensa hegemônica tratou de “esquecer o assunto” quando se trata do genocídio na Palestina. Tal atitude era esperada. Apesar do acordo firmado, as inúmeras violações por parte do governo de Netanyahu continuam escancaradamente, bem como as propostas do governo dos EUA de transformar o território palestino em um resort para a burguesia internacional. Por parte dos órgãos internacionais, a postura que vimos durante todo o ano de 2025 se repete: uma crítica formal aos desmandos e crimes do imperialismo e quase nenhuma medida efetiva para barrar o massacre ainda em curso. Para contribuir com o debate sobre o tema entrevistamos o professor Pedro Lima Vasconsellos, que lançou esse ano o livro A Questão Palestina: a nervura religiosa da “catástrofe”, obra que aprofunda como o tema da religião perpassa a história cultural, política, geográfica e política da região no Mundo Árabe, envolvendo temas transversais como colonização, imperialismo e resistência. Pedro Lima Vasconsellos é filósofo, bacharel e mestre em Teologia, mestre e livre-docente em Ciências da Religião, doutor em Antropologia e pós-doutor em História, disciplina em que ele está ligado, onde leciona na Pós-Graduação da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

 

A Verdade – No livro “A Palestina é dos palestinos”, que você lançou em parceria com o Ualid Rabah, da FEPAL, se faz uma análise de como o sionismo procura descaracterizar em todos os sentidos o povo palestino. Uma das características muito utilizada é a questão religiosa, inclusive até para justificar a tensão que existe em todo território. Nesse livro com o Ualid você fala do uso da religião, aqui no Brasil, fazendo até uma provocação do uso da estrela de Davi. Qual a relação desse símbolo com tudo isso?

Pedro Lima Vasconcellos- A estrela de Davi está na bandeira deste estado que se impôs ao território palestino desde 1948. Então não é de se estranhar que esta bandeira com esta estampa compareça na propaganda sionista. Penso que é muito importante é refletir sobre os efeitos de uma imagem como essa. A minha formação acadêmica envolve estudos sobre a religião ou sobre as religiões. A questão palestina é atravessada de fio a pavio pelas referências religiosas de múltiplas expressões, de múltiplas colorações como talvez nenhum outro lugar no mundo, sobretudo por conta da história vivida naquele território, que é o território em que surgiram expressões como o Judaísmo, o Cristianismo e o Islã.

 

Foi essa questão temática e de formação que te levou a escrever “A Questão Palestina: a nervura religiosa da catástrofe?” como a religião moldou a colonização, passando pela Nakba até a atual fase desse genocídio?

 

Então, para escapar deste falso dilema, eu justamente escolhi este foco, seja pela minha formação, seja porque entendo que muitas vezes a questão é mal colocada. Nós não vamos entender o tamanho da tragédia a que o povo palestino está sendo submetido ignorando que naquele território, durante milênios, circularam tradições religiosas, surgiram sistemas religiosos que interagiram e conflitaram entre si. Tudo isso faz parte da história de uma Palestina de mais de 3 mil anos, e não é à toa que esses elementos estão presentes de maneira decisiva na configuração atual, nas cenas que nós presenciamos neste massacre em tempo real, a que nós estamos assistindo.

 

Como a questão da religião se apresenta nessa nova etapa do genocídio de 2023 pra cá?  Ainda há uma relação? A mídia hegemônica abandonou essa questão da religião para defender apenas a desculpa da ‘autodefesa’.

Basta ver que a manifestação da resistência palestina no dia 7 de outubro de 2023 teve como nome Dilúvio Al-Aqsa. Al-Aqsa é o nome de uma mesquita, ou seja, o lugar, o edifício religioso muçulmano por excelência, que fica no coração da cidade santa Al-Quds, ou seja, a cidade de Jerusalém, que é o lugar que o sionismo pretende ver derrubado para que em seu lugar, no lugar daquele complexo de Al-Aqsa, seja reerguido o templo judeu que há quase dois mil anos foi destruído pelo imperialismo romano. Não à toa que mais de mil mesquitas foram destruídas em Gaza nestes dois anos da agressão israelense sionista. Está em curso um processo de imposição de uma expressão religiosa naquele território, que é o judaísmo.

 

Hoje, quando vamos às ruas nos atos pela Palestina, notamos que há uma maior aceitação por parte da população em relação ao tema. Ao mesmo tempo sabemos que existe um setor muito conservador dentro de algumas igrejas brasileiras que ainda mantém esse discurso de ódio aos palestinos e defesa dessa ideia de justificar tamanha matança. Qual a preocupação com o tema para quem tá na militância defendendo o fim do genocídio?

O judaísmo sequestrado, instrumentalizado pelo projeto sionista, do qual o judaísmo, este próprio sionismo, se pretende o representante. Então, a questão religiosa neste cenário não pode ser ignorada, sob pena de nós perdermos capacidade de análise a respeito da densidade e da complexidade das questões que estão em jogo naquele território.

 

Em “A questão palestina: a nervura religiosa da “catástrofe”, Pedro Vasconcellos debate religião, política, colonialismo e sionismo, atualizando e aprofundando o assunto com lucidez e uma vasta pesquisa.

 

 

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