O legado de Frantz Fanon como médico, diplomata e teórico do anticolonialismo é uma ferramenta essencial para compreender as cicatrizes da escravidão e do capitalismo.
Blanca Fernandes e Guilherme Arruda | São Paulo (SP)
HERÓIS DO POVO – Por séculos, uma das faces mais violentas do sistema capitalista foi o colonialismo. Na sanha de enriquecer com o roubo de recursos, terras e trabalho das populações indígenas de várias partes do mundo, potências coloniais como França, Inglaterra, Portugal e Espanha dizimaram povos inteiros, destruíram ecossistemas e culturas, e submeteram milhões de pessoas à escravização. Para justificar as violências que cometeram, criaram também a ideologia do racismo, “naturalizando” a ideia de uma hierarquia racial entre as sociedades.
No entanto, as injustiças da exploração capitalista colonial nunca passaram sem resposta. E, no século XX, a resistência popular das nações oprimidas acumulou forças suficientes para se transformar em grandiosas revoluções de libertação nacional em toda a África, Ásia e América Latina, que conquistaram a independência de dezenas de países (como na Argélia) e deram início à construção do socialismo em alguns deles (a exemplo de Cuba e do Vietnã).
A conscientização dos povos para a necessidade de lutar por sua autodeterminação, pelo fim do sistema capitalista e do racismo se deveu ao trabalho paciente de muitas organizações revolucionárias e seus dirigentes. Neste ano de 2025, comemoramos o centenário de nascimento de um dos principais nomes a dedicar toda sua vida e força à luta contra o colonialismo, nos deixando contribuições teóricas e práticas imprescindíveis: o médico e militante revolucionário Frantz Fanon. Conhecer sua vida e sua obra é uma forma de prestar homenagem a seu legado.
Tornando-se um revolucionário
Frantz Fanon nasceu em 20 de julho de 1925 na Martinica, uma ilha do Caribe colonizada pela França. Ainda jovem, se somou à luta contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial, alistando-se no exército francês. Ali mesmo, começam a ganhar contornos suas reflexões sobre o racismo. Mesmo lutando lado a lado com soldados brancos e ganhando uma Cruz de Guerra na Batalha da Alsácia, ainda era tratado de maneira inferior, visto apenas como um negro martinicano aos olhos dos europeus.
Aos 26 anos, Fanon se forma em Medicina na Universidade de Lyon, na França, e na sequência migra para a Argélia, onde foi contratado para dirigir o hospital psiquiátrico Blida-Joinville. O que a princípio era apenas um momento de sua trajetória profissional, se tornou uma relação profunda de compromisso com a luta revolucionária pela libertação dos países africanos.
Naquele período, em 1954, a Frente de Libertação Nacional (FLN) deu início à Revolução Argelina, buscando a independência do país após duzentos anos de dominação francesa. No exercício de suas funções no hospital, Fanon estava atento aos efeitos da guerra sobre colonizadores e colonizados. Escreveu, por exemplo, sobre os “policiais no limiar da loucura”, que reproduziam as torturas que praticavam contra os argelinos também com seus filhos e esposas, e sobre o sofrimento psíquico dos árabes submetidos à desumanização colonial.
Solidário aos independentistas, Fanon atende clandestinamente os combatentes feridos da FLN no subsolo da clínica. Logo passou a ser vigiado e perseguido. Daí em diante, o médico decidiu se envolver de corpo e alma com a luta revolucionária, renunciando à diretoria do hospital e tornando-se militante da Frente de Libertação Nacional.
Revolução na Argélia
De acordo com o pesquisador Deivison Faustino, autor da biografia Frantz Fanon: um revolucionário particularmente negro, o médico martinicano cumpriu três tarefas principais em sua militância: foi redator do jornal El Moudjahid, órgão central da luta anticolonial; atuou diretamente no front de batalha, utilizando seus conhecimentos médicos e militares; e serviu de embaixador da Revolução Argelina na África negra, que também iniciava sua luta para se libertar do jugo das potências coloniais.
Ao participar da Conferência dos Povos Africanos realizada em Gana, no ano de 1958, Fanon contribuiu decisivamente para a unificação da luta da FLN com os esforços independentistas das demais nações africanas. No evento, o martinicano defendeu junto de líderes anticoloniais como o ganês Kwame Nkrumah e o congolês Patrice Lumumba “a necessidade de uma saída continental – e intercontinental – revolucionária, de caráter antirracista e antiimperialista”, explica Faustino.
Na década de 1960, 32 países africanos conquistariam sua independência. Nesse sentido, no artigo Descolonização e independência, Fanon escreveu: “Todo o povo argelino sabe que, depois da Argélia, será a África Negra a travar seu combate”. E completa: “Os povos oprimidos sabem hoje que a libertação nacional é parte do desenvolvimento histórico, mas também que essa libertação deve ser obra do povo oprimido”.
Já em A Guerra da Argélia e a libertação dos homens, o médico chama atenção para o caráter internacionalista e de classe dessa luta. Ele aponta o “reforço dialético existente entre o movimento de libertação dos povos colonizados e a luta de emancipação das classes trabalhadoras exploradas nos países imperialistas”, que por vezes “é esquecido”, em sua visão.
Rejeitando as calúnias das potências capitalistas, destaca no artigo O sangue magrebino não correrá em vão que “para os povos coloniais subjugados pelas nações ocidentais, os países comunistas são os únicos que, em todas as ocasiões, partiram em sua defesa”. Mesmo assim, foi um crítico do Partido Comunista Francês, que titubeou na defesa da independência da Argélia.
Sobre o trabalho de Fanon como agitador e propagandista, o editor do jornal da FLN naquele período, Redha Malek, destacou o papel do periódico na atuação política e teórica do martinicano afirmando que uma de suas principais obras, Os Condenados da Terra (1961), “não é nada mais que o desenvolvimento e um aprofundamento das questões tratadas em El Moudjahid, elaboradas no cotidiano da nossa redação”.
Cada vez mais reconhecido enquanto intelectual, Fanon usou seu prestígio para realizar conferências ao redor do mundo denunciando os crimes de assassinato e tortura cometidos pela França na tentativa de impedir a independência da Argélia. Também angariou solidariedade e fundos para a FLN junto a intelectuais e democratas apoiadores da causa argelina, como seus amigos Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir.
Impactos psicológicos do racismo
No entanto, a contribuição de Fanon à luta dos povos não se restringe à atuação política na Revolução Argelina. O médico martinicano também deixou uma série de formulações teóricas profundas, que têm grande importância para pensar os impactos psíquicos e subjetivos da colonização sobre homens e mulheres colonizados, especialmente negros e negras. Muitas dessas reflexões estão condensadas no já citado livro Os Condenados da Terra, mas também em obras como Pele Negra, Máscaras Brancas (1952), Em Defesa da Revolução Africana (1964, póstumo) e Alienação e liberdade (2018, póstumo).
Uma das grandes contribuições de seu estudo clínico a respeito dos complexos de inferioridade causados pela escravização e exploração, foi identificar alguns comportamentos recorrentes entre homens e mulheres negros das Antilhas: ora um ódio virulento a tudo que o colonizador branco qualificou como “de negro” – sua cultura, tradições, linguagem, características e afins – e uma tentativa de se assemelhar ao colonizador; ora um ódio a tudo que o colonizador qualificou como “de branco”, passando a buscar ansiosamente um passado apagado, supervalorizando tradições e culturas que poderiam ser chamadas de suas.
Ao fim, na análise de Fanon, ambas as soluções psicológicas pressuporiam um aprisionamento do negro e do branco em categorias de identidade que só foram criadas para justificar um processo de violência econômica, política e social, e de dominação de um povo sobre outro. Nas palavras do médico, “se há um complexo de inferioridade, ele resulta de um duplo processo: econômico, em primeiro lugar; e em seguida, por interiorização, ou melhor, por epidermização dessa inferioridade. Somente haverá desalienação genuína na medida em que as coisas, no sentido mais materialista possível, tiverem voltado ao seu lugar.”
Legado anticolonial
Em 1962, após quase oito anos de luta armada, a Argélia conquistou sua independência da França. No entanto, Frantz Fanon não viveu para vê-la. Devido a uma leucemia que o acometeu aos 36 anos, o médico faleceu em 1961. Mesmo assim, sua contribuição para a emancipação continua sendo lembrada pela massa do povo argelino – ainda que seu conteúdo revolucionário e anticapitalista esteja bastante apagado, tendo em vista o enfraquecimento dos ideais da Revolução Argelina.
Apesar de sua morte, as reflexões de Fanon seguiram inspirando a luta de libertação nacional dos países da África e Ásia, em especial os que optaram pela saída radical da luta armada contra os imperialistas. O médico foi decisivo para instigar o internacionalismo e a solidariedade entre os povos colonizados.
Vivendo sob o sistema capitalista, o Brasil ainda não acertou contas com quatro séculos de colonização e escravismo. Somos um país para onde seis milhões de africanos foram traficados ao longo desse período, a fim de servir de mão de obra forçada para o lucro dos imperialistas, o que teve consequências profundas sobre nossa formação social.
Somando o estudo de nossa história à obra de Fanon e às experiências de luta de outros países colonizados, podemos ter mais pistas das dinâmicas da opressão do negro em nosso país, e assim construir os caminhos para a libertação de nosso povo.
(Texto baseado em entrevista de Priscilla Santos, pesquisadora da obra de Fanon)