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sábado, 21 de fevereiro de 2026

Av. Araceli, já!: Câmara propõe Camata para substituir Michelini como nome de importante avenida em Vitória (ES)

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Após décadas de mobilização popular, um novo projeto na Câmara de Vitória ignora o clamor por homenagem à Araceli e propõe o nome de um político marcado por declarações contra comunidades negras.

Kayza Araújo e Ana Thompson | Espírito Santo


A discussão sobre o nome da Avenida Dante Michelini voltou ao centro do debate público em Vitória. Mas, em vez de representar um gesto de reparação histórica, a nova proposta apresentada na Câmara Municipal pode aprofundar a injustiça histórica. O Projeto de Lei nº 004/2026, de autoria do vereador Armandinho Fontoura (PL), propõe substituir o nome da via por Avenida Governador Gerson Camata. A iniciativa surge após a morte de Dante Brito Michelini, o “Dantinho”, um dos acusados pelo assassinato de Araceli Cabrera Crespo, em 1973. O que o projeto ignora é que o clamor popular não é recente, e tampouco aponta para Camata; aponta para Araceli.

Araceli tinha oito anos quando foi raptada, violentada e assassinada em 18 de maio de 1973. Seu corpo foi encontrado dias depois, em Vitória, em circunstâncias que chocaram o país. O crime nunca teve punição definitiva. Em 1991, os acusados foram absolvidos por falta de provas. Em 1993, o caso prescreveu.

Desde 2000, o dia 18 de maio, data de seu desaparecimento, tornou-se o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Araceli virou símbolo de uma luta nacional. Mas não virou nome da principal avenida da cidade onde foi morta.

A proposta Camata é controversa

A escolha de Gerson Camata como alternativa amplia a controvérsia. Ex-governador e senador por três mandatos, Camata tem trajetória política relevante no Espírito Santo. No entanto, também acumulou declarações públicas duramente criticadas por movimentos sociais.

Em 2007, durante debates no Senado sobre o programa Brasil Quilombola, que regulamentava a titulação de terras para comunidades remanescentes de quilombos, direito previsto na Constituição, Camata afirmou que a regularização poderia gerar uma “guerra racial” no país e classificou o direito como “falso”.

À época, lideranças da União dos Negros pela Igualdade (Unegro) e representantes quilombolas reagiram às falas, apontando que o discurso estimulava tensão racial e favorecia interesses de grandes proprietários de terra.

A proposta atual, portanto, cria uma ironia difícil de ignorar: substituir o nome ligado a um crime brutal contra uma criança por outro associado a declarações que deslegitimavam direitos históricos de comunidades negras. Em uma capital que ainda convive com desigualdades raciais profundas, a escolha carrega peso simbólico.

Memória ou conveniência?

A Avenida Dante Michelini foi batizada em 1967, antes do crime de 1973. Tecnicamente, o nome não homenageia nenhum dos acusados do caso Araceli. Ainda assim, o sobrenome Michelini tornou-se, para parte significativa da população, inseparável da memória do crime. O debate, portanto, não é jurídico, é moral e simbólico. Que memória a cidade quer eternizar na sua orla mais conhecida? A de uma elite política servil ao capital? Ou a de uma criança cuja morte transformou o 18 de maio em um marco nacional de proteção à infância?

Dar o nome de Araceli à avenida não reescreve o passado, não corrige a falha judicial, não apaga a dor da família. Mas reconhece publicamente que a cidade não esqueceu. Reconhece que a violência contra crianças não é apenas um dado estatístico, mas uma ferida histórica. E reconhece que o espaço urbano também é lugar de memória e de posicionamento.

Se a Câmara pretende rever o nome da avenida, a pergunta que fica é simples: Por que não Araceli?

A organização do Movimento Olga frente a essa realidade

Há meses, o Movimento Olga tem reivindicado que a história de Araceli ecoa não só como memória, mas também como denúncia e exigência: mais nenhuma mulher ou menina pode ser violada e assassinada pela omissão de um Estado que só atende aos interesses da classe economicamente dominante.

Com isso em mente, o Olga realizou ações diversas de intervenção política na Av. Dante Michelini e dialogou com diversos comerciantes e moradores da região sobre o caso e a impunidade burguesa. Além disso, a escolha da Av. Dante Michelini como local do ato Mulheres Vivas — em memória política ao Caso Araceli — partiu de uma proposta do Movimento Olga e foi consolidada em construção coletiva com outros movimentos feministas do ES. Esse ato foi uma mobilização nacional pelo fim do feminicídio e era evidente que a defesa da vida de mulheres e meninas do ES deveria acontecer na avenida que carrega esse nome manchado de sangue, com ponto de encontro no Viaduto Araceli. Isso foi resposta a uma dor profunda e histórica das mulheres capixabas.

Ainda, foi lançada a Rede Araceli de Enfrentamento à Violência contra Mulheres e Meninas em Novembro de 2025 pensando que é fundamental organizar de forma política, combativa e revolucionária todas as mulheres e meninas contra a violência estrutural e histórica que nos atravessa todos os dias. Assim, a Rede Araceli atua na realização de acolhimento e orientação de mulheres e meninas que não conseguem acessar seus direitos na rede pública, na criação de espaços de formação política, na mobilização das patrulhas do Olga, na organização de cursos de formação e geração de renda para mulheres, na agitação de atividades culturais, com a presença do Olga nas escolas, entre outras formas.

Araceli está presente na luta!


FONTES: A GAZETA ONLINE; VERMELHO.ORG; G1

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