Após as eleições presidenciais de 2026, marcadas pela menor abstenção em duas décadas, Portugal enfrentou um segundo turno decisivo entre o projeto fascista e a continuidade da social-democracia.
Luan Almeida e Marcelo Gaspar | Portugal
INTERNACIONAL – No dia 18 de janeiro de 2026, aconteceram as eleições presidenciais em Portugal com uma participação de 61,5% de votantes e a mais baixa taxa de abstenção desde 2006, levando o pleito para o segundo turno, algo que não acontecia há mais de 40 anos. Esse pleito escancarou uma ferida aberta na sociedade portuguesa: o enfraquecimento dos movimentos de esquerda, a fragilidade das instituições ditas democráticas e o crescimento do fascismo.
Em 08 de fevereiro, após uma das maiores crises climáticas das últimas décadas, que deixou diversas cidades debaixo d’água, os portugueses foram votar entre um fascista (André Ventura), que reivindica o legado do Salazarismo, e o candidato António José Seguro, do Partido Socialista (PS), apoiado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro, do Partido Social-Democrata (PSD). O silêncio de Seguro na campanha perante o caos das cheias mostra a conciliação com o descaso do atual governo, reforçando a aliança histórica dessas duas forças que gerenciam o Estado burguês desde de 1976.
O avanço da extrema-direita
O crescimento do partido de extrema-direita Chega não é uma obra do acaso, nem um fenômeno exclusivo de Portugal, como mostram as ações terroristas dos EUA na Venezuela e no Irã, o bloqueio a Cuba, as ameaças à Groelândia, o genocídio permanente contra o povo palestino e os quatro anos da Guerra da Ucrânia. De 2019 a 2025 o Chega saiu de 1 para 60 deputados na Assembleia da República, sendo a segunda maior bancada do Parlamento português.
O neofascismo não cresceu do nada, mas sim pelo vácuo de disputa política deixado por uma esquerda que perdeu a ligação com as massas e pela capitulação da social-democracia. O país assiste, na prática, ao sucateamento do SNS (sistema de saúde), à destruição do ensino público, à normalização da corrupção, o enriquecimento dos bancos privados com dinheiro público, o descontrole da especulação imobiliária e o aumento da violência de gênero.
Os imigrantes são culpabilizados, enquanto os trabalhadores (imigrantes ou não) sofrem da miséria que o próprio capitalismo produz e que a social-democracia não quer e não tem interesse em solucionar.
Até a próxima eleição
A última década foi de grande acirramento da luta de classes na sociedade portuguesa. Com esse cenário montado, o capital fez uso do Salazarismo para empurrar goela abaixo da classe trabalhadora uma radicalização do discurso que mobilizou quase 1/3 dos votantes portugueses a irem às urnas para votar num fascista, além da multiplicação dos grupos neonazi – com participação das forças de segurança.
A maioria da população resistiu ao projeto fascista, mas o caminho que segue será nebuloso, num cenário em que as forças de esquerda (PCP e Bloco de Esquerda) somadas não alcançam 5% dos votos.
Além disso, o terceiro lugar das eleições (com 16% dos votos) ficou com a Iniciativa Liberal (IL) e João Cotrim – candidato que durante a campanha sofreu diversas acusações de assédio.
A derrota de Ventura deve ser o sinal verde para avançarmos na organização das massas trabalhadoras, dos jovens e das mulheres em busca de uma sociedade socialista, a única capaz de resolver os problemas fundamentais da população e de efetivar o poder popular.
Matéria publicada na edição impressa Nº 329 do jornal A Verdade