Resistência popular à intervenção imperialista e a luta pelo socialismo na Venezuela continua forte mesmo após sequestro de Maduro. Confira a reportagem do Jornal A Verdade feita durante a Brigada Internacional de Solidariedade com a Venezuela.
Giovanna Almeida | Caracas e La Guaira (Venezuela)*
INTERNACIONAL – A invasão e bombardeio da Venezuela pelos EUA e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa e primeira combatente, Cilia Flores, a ditadura de Trump ampliou ainda mais o regime de sanções econômicas contra a Venezuela.
Uma das principais medidas de tutela econômica imposta pela força militar norte-americana diz respeito ao controle sobre a comercialização do petróleo venezuelano, que segue sendo a principal fonte de renda do país. Na prática, os Estados Unidos passaram a controlar a venda desse petróleo e os recursos obtidos não podem ser utilizados livremente pela Venezuela: parte significativa desse dinheiro fica sob controle externo e só pode ser liberada gradualmente ou utilizada para a compra de produtos e serviços de empresas dos próprios Estados Unidos.
Apesar da pressão externa, o país mantém uma estrutura institucional que busca garantir a continuidade do governo. Ao mesmo tempo, um elemento marcante observado durante a minha visita pela Brigada Internacional de Solidariedade ao país é o nível de consciência política da população em relação ao papel do imperialismo na crise venezuelana. Em diversos espaços, os moradores, mesmo os críticos ao governo e ao chavismo, expressam forte defesa da soberania nacional e reivindicam a paz, especialmente após o trauma coletivo provocado pelos bombardeios e pela escalada do conflito.
Além disso, não houve um único dia, durante os 15 dias da brigada, em que não tenha acontecido alguma mobilização em defesa da soberania do país. O ministro de Energia dos EUA e a CIA foram recebidos com uma marcha de milhares de jovens. As organizações políticas de esquerda que não são ligadas ao governo têm convocado a construção de uma frente antifascista e anti-imperialista. E a cada dia, um setor diferente está nas ruas mobilizando a campanha pela libertação do presidente e da primeira-dama.

Bloqueio econômico, inflação e as dificuldades do cotidiano
É no cotidiano da população que os efeitos da crise aparecem de forma mais concreta. A economia venezuelana atravessou, a partir de 2014, uma das maiores crises de sua história. A queda abrupta da renda petrolífera, combinada com sanções econômicas internacionais e problemas estruturais da economia, provocou uma forte retração econômica, hiperinflação e escassez de produtos básicos.
A partir de 2017, a situação atingiu seu momento mais crítico. A inflação chegou a níveis extremos, a moeda nacional perdeu grande parte de seu valor e o país enfrentou sérias dificuldades para importar alimentos e medicamentos. Muitos venezuelanos passaram a enfrentar enormes dificuldades para garantir itens básicos do dia a dia, enquanto os salários perdiam rapidamente seu poder de compra.
Diante desse cenário, o governo venezuelano adotou uma série de medidas econômicas para tentar estabilizar a situação. Uma delas foi permitir, a partir de 2019, um processo de “dolarização” da economia, flexibilizando o uso do dólar em transações comerciais e no cotidiano da população. Essa medida ajudou a reduzir parte da instabilidade monetária e contribuiu para uma leve recuperação econômica nos anos seguintes, após quase uma década de retração.
Outra medida importante foi a reforma monetária que criou o chamado “bolívar digital”, introduzido em 2021 como parte de uma nova reorganização da moeda nacional, em um esforço para incentivar seu uso e enfrentar os efeitos da inflação acumulada ao longo dos anos.
Além disso, o governo passou a desenvolver uma estratégia de diversificação econômica. Durante muitos anos, a economia venezuelana foi 100% dependente do petróleo. Com a queda da produção e das exportações do setor, o país passou a estimular outras áreas da economia, especialmente a produção agrícola, alimentar e turismo. Esse processo ainda está longe de resolver todos os problemas do país, mas já apresenta algumas mudanças importantes.
Se durante os anos mais duros da crise a Venezuela dependia majoritariamente da importação de alimentos, hoje o país já consegue produzir a maioria do que consome, resultado de políticas de incentivo à produção nacional e de reorganização da economia interna, com forte apoio da produção das comunas.
Ainda assim, as dificuldades para a população permanecem. Os salários, especialmente no setor público que concentra grande parte dos trabalhadores, continuam tendo baixo poder de compra, e muitos venezuelanos dependem de bônus e dos subsídios (serviços de água, luz, gás, gasolina e cestas básicas) distribuídos pelo governo para complementar sua renda. Mesmo assim, muitos moradores afirmam que a situação atual, embora ainda difícil, não se compara ao período mais crítico vivido por volta de 2017, quando a escassez de produtos básicos e a hiperinflação atingiram níveis mais dramáticos.

O desenvolvimento do poder popular e experiência das comunas
Um dos aspectos mais marcantes da realidade venezuelana é o avanço das experiências de organização popular conhecidas como comunas. Criadas durante o governo de Hugo Chávez como parte do projeto da Revolução Bolivariana, as comunas foram pensadas como uma forma de ampliar a participação direta da população nas decisões políticas, econômicas e sociais do país.
As comunas são estruturas de organização territorial formadas a partir da articulação de diversos conselhos comunais, que são assembleias populares organizadas em bairros urbanos ou comunidades rurais. Nesses espaços, moradores se reúnem regularmente para discutir os problemas do território, definir prioridades e participar da gestão de políticas públicas locais. Atualmente, existem mais de 5000 comunas registradas na Venezuela, além de milhares de conselhos comunais espalhados pelo país.
Essas estruturas reúnem moradores com diferentes posições políticas. Embora muitas lideranças estejam ligadas às ideias bolivarianas, também participam das comunas pessoas críticas ao governo ou sem identificação com o chavismo, já que o principal objetivo desses espaços é resolver problemas concretos das comunidades.
Durante a visita ao estado de La Guaira, o governador José Alejandro Terán explicou que o projeto das comunas busca transformar a forma tradicional de organização do Estado venezuelano. Segundo ele, a proposta é construir um modelo de gestão em que as próprias comunidades tenham cada vez mais protagonismo na definição das políticas públicas e no desenvolvimento de seus territórios.
“A comuna é uma forma de governo do povo no território. É onde a comunidade se organiza para decidir seus próprios projetos, administrar recursos e construir soluções coletivas para os problemas locais”, explicou Terán.
Nos últimos anos, o governo venezuelano passou a apostar ainda mais no fortalecimento dessas estruturas. A partir de 2024, Maduro iniciou um processo de consultas populares periódicas nas comunas, nas quais os próprios moradores escolhem, por meio de votação, quais projetos devem ser implementados em seus territórios. As propostas mais votadas recebem financiamento direto do governo para serem executadas pelas próprias comunidades. Esse mecanismo representa uma tentativa de transferir parte do poder de decisão e dos recursos do Estado diretamente para as organizações populares.

Poder popular resolve os problemas do povo
Durante a brigada internacional, foi possível conhecer exemplos concretos de como esse processo funciona na prática. Em Petare, considerada a maior favela da Venezuela, existem cerca de 90 comunas organizadas.
Uma dessas experiências é a Comuna Chávez 59, onde na consulta popular a juventude da comunidade apresentou um projeto para a criação de uma oficina de purificação de água potável, como forma de enfrentar os problemas de distribuição de água que afetam o território.
O projeto foi aprovado pela comunidade e hoje a iniciativa permite a distribuição de água tratada para cerca de 1.200 famílias, a um custo simbólico de aproximadamente 250 bolívares, garantindo acesso mais barato à água potável para os moradores e os valores arrecadados fazem a manutenção da oficina e retorna para a comunidade.
Experiências como essa ajudam a compreender como as comunas funcionam não apenas como espaços de organização política, mas também como instrumentos concretos para enfrentar problemas cotidianos das comunidades.
Outro elemento central dessas organizações é o desenvolvimento de atividades produtivas comunitárias. Em praticamente todas as comunas existem iniciativas econômicas organizadas coletivamente, como cooperativas, empresas de produção social e empreendimentos familiares. Essas iniciativas envolvem atividades como produção agrícola, fabricação de alimentos, pequenas indústrias e serviços locais.
Segundo a conselheira comunal Angu, da Comuna El Legado de Chávez, situada no município de Guaicaipuro, esse processo ganhou força especialmente durante os anos mais duros da crise econômica.
“Nos unimos mais como povo, e algo que ajudou muito a economia da Venezuela foi o crescimento do empreendedorismo popular dentro das comunas. Naquele momento, com o bloqueio econômico, era difícil para o governo garantir a mesma atenção de antes.”
Ela explica que, diante das dificuldades econômicas, muitas comunidades passaram a desenvolver iniciativas próprias de produção de alimentos, bens de consumo e pequenos serviços locais.
“A ideia era que cada comuna pudesse criar seus próprios projetos socioprodutivos, fortalecendo a organização popular e a independência das comunidades. O povo começou a produzir farinha, café, alimentos, produtos de limpeza. Quando fomos ver, já existiam centenas de marcas comunitárias feitas dentro do próprio território.”
Além da produção comunitária, outra iniciativa importante para enfrentar a crise foi a organização dos CLAP (Comitês Locais de Abastecimento e Produção), responsáveis por mapear as famílias dos territórios e distribuir alimentos diretamente nas comunidades.
Segundo Angu, essas experiências reforçam um sentimento de solidariedade e organização coletiva entre os moradores.
“Existe um ditado aqui que diz que só o povo salva o povo. E foi isso que aconteceu na Venezuela: diante da crise, o povo se organizou e encontrou formas de seguir em frente.”
Para muitos militantes do processo bolivariano, as comunas não são apenas uma forma de organização comunitária, mas parte de uma estratégia mais ampla de transformação social. A proposta do chamado Estado Comunal busca justamente ampliar essas experiências como base de um novo modelo político e econômico, no qual o poder popular organizado nos territórios tenha um papel central na gestão da sociedade e na construção de novas formas de produção e distribuição da riqueza.
Nesse sentido, as comunas são frequentemente apresentadas como uma das principais apostas do processo venezuelano para construir caminhos próprios de desenvolvimento e avançar na construção de um modelo econômico com características socialistas, baseado na participação popular e na organização coletiva da produção.
A luta pelo socialismo
O processo político venezuelano está longe de ser simples ou linear. Como destacaram militantes de organizações marxistas-leninistas do país, a Venezuela continua sendo uma sociedade capitalista, onde os meios de produção seguem majoritariamente nas mãos da burguesia e onde a lógica do mercado ainda estrutura grande parte da economia. Mesmo após décadas de Revolução Bolivariana e importantes avanços sociais e políticos, a ruptura com o capitalismo ainda não ocorreu.
Ao mesmo tempo em que o país busca desenvolver uma economia mais diversificada para além do petróleo, muitas vezes por meio de parcerias público-privadas e acordos com setores da burguesia nacional, também se fortalece uma estratégia distinta de organização econômica baseada nas comunas e nas experiências de produção social nos territórios. Essa dualidade revela uma das principais contradições do processo venezuelano: enquanto o país permanece inserido nas dinâmicas do capitalismo global, também experimenta, em seus territórios, formas de poder popular e organização econômica alternativa.
Na conjuntura atual, a contradição entre imperialismo e soberania nacional aparece como um dos eixos centrais da política venezuelana. As sanções econômicas, o isolamento diplomático e as pressões externas seguem condicionando as possibilidades de desenvolvimento do país. Ao mesmo tempo, episódios como o não reconhecimento internacional (incluindo o Brasil) das eleições de 2024 e a apatia das potências imperialistas que se vendiam como parceiras do país, como a China e Rússia, diante do sequestro de Maduro, contribuem para aprofundar esse cenário de isolamento político.
Nesse contexto, grande parte das forças populares venezuelanas têm concentrado seus esforços na defesa da paz e da estabilidade nacional. A experiência histórica recente, marcada por tentativas de golpe, bloqueios econômicos e ameaças de intervenção, reforçou entre amplos setores da sociedade a percepção de que a defesa da soberania nacional é condição fundamental para qualquer transformação social mais profunda.
Ao longo dos dias no país, uma coisa ficou clara: o povo venezuelano deseja paz, dignidade e melhores condições de vida. Logo, o socialismo é mais que urgente. Avançar para a superação do capitalismo e no enfrentamento aos ataques imperialistas é a forma de não deixar que o país se renda. O cenário político e econômico é complexo e cheio de contradições, mas também existe um povo que foi formado politicamente na resistência ao bloqueio, na organização comunitária e na construção cotidiana do poder popular.
É nesse terreno que se abre a possibilidade de novos avanços. A consciência política construída nas comunas, nos partidos e nos movimentos sociais, se avançar na disputa da guerra ideológica, pode se tornar um fator decisivo para que o povo venezuelano conquiste não só a soberania nacional, mas também supere as estruturas de exploração capitalista.
Não tem bloqueio capaz de bloquear a ideologia. Venceremos!
*Militante da União da Juventude Rebelião no Rio de Janeiro.