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quarta-feira, 25 de março de 2026

Estudantes se revoltam contra sucateamento das escolas em Pernambuco

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Uma onda de manifestações e protestos tem tomado diversas escolas em Pernambuco. O motivo: inúmeros problemas estruturais nas unidades de ensino. O jornal A Verdade entrevistou a direção da União dos Estudantes Secundaristas de Pernambuco (Uespe) sobre a situação. 

Redação Pernambuco


EDUCAÇÃO- No último dia 16 de março, um ataque envolvendo um estudante de 14 anos em uma escola de Referência em Ensino Médio na cidade de Barreiros, Mata Sul de Pernambuco. O adolescente atacou três colegas da escola com uma faca, todas meninas, deixando uma aluna gravemente ferida. O ocorrido foi ligado pelas autoridades a questões envolvendo bullying, e levantou o debate sobre saúde mental dos adolescentes nas escolas pernambucanas.

A questão é que, recentemente uma onda de denúncias levantadas pelos próprios estudantes tem mostrado uma outra realidade crítica das escolas públicas no estado. O completo abandono estrutural deixa exposto a fragilidade das instituições de educação e ensino em Pernambuco e levanta algumas questões básicas: como cuidar da saúde mental dos estudantes quando as escolas estão sofrendo com o básico em seu dia a dia?

Abandono estrutural se repete em todo o estado.

No início do mês de março (04/03) parte do piso da Escola de Referência em Ensino Médio (Erem) Zumbi dos Palmares, localizada no Cabo de Santo Agostinho, no Grande Recife cedeu, deixando uma aluna ferida. As aulas na escola foram suspensas por tempo indeterminado. O estado se destaca nacionalmente em número de escolas de referência em ensino médio (são mais de 670 escolas nessa modalidade) mas ao mesmo tempo enfrentando problemas básicos como falta d’agua, banheiros, merenda de péssima qualidade, falta de quadras poliesportivas ou então defasadas, e, no campo pedagógico, professores e servidores com inúmeros problemas de trabalho.

Em 2025, dados do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) davam conta que dos quase 1,6 milhões de alunos matriculados nas 5.816 escolas públicas de Pernambuco, mais de 39 mil estudavam em unidades sem acesso à água tratada, 24 mil frequentavam instituições sem banheiro e 10 mil conviviam diariamente com a ausência de serviços de água e esgoto, com 400 escolas sem acesso a esse serviço. Ou seja, não adianta a propaganda de que o ensino público tem crescido a oferta de vagas, sem ter o mínimo de qualidade para manutenção das crianças e adolescentes nas escolas.

Valorização dos servidores

Diante das péssimas condições das escolas o Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco (Sintepe) realizou uma paralisação no último dia 18/03, pautando as condições de trabalho e reajustes para a categoria. A União dos Estudantes Secundaristas de Pernambuco (Uespe) vem acompanhando as denúncias das escolas pernambucanas e prepara uma grande mobilização para o dia 26 de março desse mês, dia de paralisação nacional em defesa do ensino público de qualidade. Os grêmios e entidades filiados à Uespe tem se dedicado ao trabalho juntos aos estudantes pernambucanos no levantamento nessas demandas.

O que diz os estudantes

O jornal A Verdade conversou com Raiana Rodrigues e João Rodrigues, presidentes da entidade sobre a situação das escolas em Pernambuco.

Jornal A Verdade- Esses últimos dias apareceram nas redes sociais diversos vídeos dos próprios estudantes denunciando a situação estrutural das escolas em Pernambuco. Como a Uespe tem enxergado essa situação?

João Rodrigues- Hoje as escolas de Pernambuco estão totalmente sucateadas e maquiadas, porque todas as escolas são muito bonitas por fora e muito feias por dentro. Então não tem, por exemplo, a estrutura básica para que os estudantes do integral passem o dia todo dentro da escola, mas também atinge os estudantes que estudam meio período.

As escolas tem uma pintura muito bonita, uma placa muito bonita, mas por dentro é piso caindo, com crateras no meio, banheiros e chuveiros sucateados, fora aquelas que não tem nem isso. E não adianta mais reproduzir o discurso de que “a culpa dos estudantes que destroem as escolas”. Isso não é verdade. Os estudantes, que passam o dia nas escolas, cuidam do espaço. A questão é que não se tem uma reforma constante das escolas.

Quais as denuncias que a entidade tem recebido dos estudantes?

Manutenção e abandono. Muitas escolas têm muito mofo e muitos estudantes terminam passando mal, porque não se tem ali uma limpeza contínua da escola, isso atrapalha diretamente a vivência do dia a dia dentro da escola. Tem muito banheiro que não tem porta, então muitos estudantes que tem que fazer barreira com os amigos para poder utilizar o banheiro. Água nem se fala. Temos recebido diversas notícias de muitas escolas que não tem água para os estudantes lavarem a mão, muito menos sabão. Além das quadras que não são cobertas, falta de professores e outros profissionais para manter o funcionamento no dia a dia.

Também correram inúmeras denúncias sobre a questão da merenda escolar. Essa ainda é uma dificuldade nas escolas ou houve alguma melhora?

Então, essa questão da estrutura dos banheiros e a falta d’agua acaba afetando isso também. Hoje tem gente que não almoça mais na escola, porque a merenda ainda é de má qualidade. Tem aluno levando comida de casa ou mesmo comendo biscoito, almoçando salgado, porque as condições da merenda ainda deixam a desejar.

Como é que se pode resolver essa questão da estrutura nas escolas em Pernambuco?

Raiana Rodrigues- É preciso se fazer uma reforma estrutural em diversos prédios em Pernambuco. Existem escolas que estão em funcionamento, por 50 anos, 10 anos, 15 anos, e nunca passou por uma reforma. A reforma que se tem é pinturas, e os próprios gestores dizem isso. Falta prioridade para esses serviços e mais verbas destinadas para isso. No caso da escola Zumbi dos Palmares, no Cabo, foi anunciado um recurso de R$ 17 milhões, mas a gente não tem certeza se a obra vai sair do papel, se vai ser finalizada a tempo, enquanto isso nos preocupamos com os pais e alunos que vão ter que ser realocados enquanto a escola se encontra interditada.

Outra preocupação é com a saúde mental dos estudantes. Como a gente pode passar o dia numa escola que não oferece o mínimo pra gente? No caso da escola em Barreiros, a situação é pior ainda. Como que é que fica a cabeça desses jovens, tendo que voltar para uma rotina “normal” depois de um acontecimento desse? Escola é pra ser lugar de acolhimento, mas sem essa estrutura, como é que vai receber e atender essas famílias, a juventude com seus problemas do dia a dia?

A Uespe está organizando junto com outras entidades um dia nacional de mobilização. Como atividades como essa podem ajudar na melhoria das escolas?

Estamos denunciando essa situação nas escolas e convocando as entidades municipais e grêmios estudantis para somar força nesse dia 26 de março, em memória do estudante carioca Edson Luís, morto pela ditadura militar em 1968, juntos com a Fenet, que ano passado organizou uma greve nacional pela construção dos bandejões nos IFs e com a União da Juventude Rebelião (UJR) a gente se soma junto às mobilizações nacionais exigindo que a educação seja uma prioridade de fato.

Estamos chamando também os estudantes para participarem do 46º Congresso da Ubes (CONUBES), que ocorrerá de 16 a 19 de abril de 2026, em São Bernardo do Campo, em São Paulo, onde nós construímos a tese Rebele-se, que é um movimento de oposição dentro da entidade, que hoje, infelizmente se encontra na mão de um grupo que não defende a luta dos estudantes. Se a Ubes enquanto entidade de representação nacional dos estudantes, estivesse nas ruas em defesa do ensino, a situação seria outra com certeza. É por isso que os estudantes tem que estar mobilizados.

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