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Fidel Castro: Cuba é território livre da América

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No dia primeiro de janeiro de 1959, o povo cubano pôde comemorar efetivamente o Ano Novo e o início de uma vida nova. O país amanheceu feliz com a renúncia do ditador Fulgêncio Batista e a informação de que os barbudos haviam tomado Santiago de Cuba e começavam a marcha para Havana.  Barbudos eram os membros do Exército Rebelde, vitorioso após dois anos de luta da serra (Sierra Maestra) até a planície, braço armado do Movimento 26 de Julho (M-26-7).

26 de julho de 1953. Data marcante na história de Cuba, quando 126 homens e duas mulheres tentaram tomar o quartel do Exército de Moncada, província de Santiago de Cuba. O objetivo dos rebeldes não era promover um golpe de estado para derrubar Batista, mas detonar um processo revolucionário, com a leitura de um manifesto pelas emissoras de rádio, conclamando o povo cubano a se levantar “pela derrubada da ditadura e a implantação de um novo regime, que garantiria a verdadeira independência do país, o respeito à integridade dos cidadãos, bem-estar e prosperidade econômica, com fundamento nos ideais do herói José Martí e na Constituição de 1940, que assegurava a entrega da terra aos que nela trabalham, a participação dos operários nos lucros das empresas, o estímulo ao capital nacional e o confisco dos bens dos corruptos”.

Não havia certeza do sucesso. Fidel foi claro com os companheiros: “Podemos vencer ou ser vencidos, mas, de qualquer forma, o Movimento triunfará. Se vencermos, se fará mais cedo o que aspirou Martí. Se ocorrer o contrário, servirá de exemplo ao povo de Cuba para que este tome a bandeira e siga adiante…”.

Um guajiro especial

O primeiro comandante, um jovem de 26 anos. Fidel Castro Ruz.  Fidel era chamado pelos colegas estudantes de Guajiro (camponês) e tinha exatamente esta origem. Mas sua família não era de camponeses pobres (“escapei da riqueza por sorte”, brincava ele). O pai de Fidel, Angel Castro, foi um soldado espanhol que ficou em Cuba após a “independência” (a Espanha dominou Cuba de 1492 a 1898). Seguiu-se a dominação dos Estados Unidos, que transformaram o país no seu quintal e bordel.

Angel Castro foi trabalhar nas minas, conseguiu economizar e comprou uma fazenda em Birán. Teve dois casamentos. Do primeiro, com Maria Luísa, nasceram dois filhos – Maria Lídia e Pedro Emílio. Do segundo, com a camponesa Lina Ruz Gonzalez, nasceram Angelita, Ramón, Fidel, Raúl, Juana, Emma e Augustina. Fidel nasceu no dia 13 de agosto de 1926.

Aos filhos que se interessaram pelo estudo, o pai proporcionou as condições necessárias. Fidel cursou o secundário no Colégio dos Jesuítas, em Havana. Na sua formatura, o padre Llorente discursou sobre ele: “Fidel Castro Ruz distinguiu-se sempre em todas as matérias relacionadas com as Letras. Foi um verdadeiro atleta; soube ganhar a admiração e o carinho de todos. Cursará a carreira de Direito e não duvidamos que preencherá com páginas brilhantes o livro de sua vida”. Profético.

Em 1945, deu-se o ingresso no Curso de Direito da Universidade de Havana. Logo se integrou ao movimento estudantil. Atuou com militantes do Partido Socialista Popular (comunista) e do Partido Ortodoxo. Com os primeiros, estudou o marxismo e aderiu a essa concepção, mas não se filiou ao partido, por considerar que este priorizava a institucionalidade e seguia cegamente a linha ditada pela Internacional, sem proceder à análise dialética da realidade cubana. Filiou-se ao Partido Popular Ortodoxo, onde não era bem visto pela direção por conta de suas posições independentes.

Na verdade, Fidel criaria um novo movimento político com membros da Juventude Ortodoxa, independentes e alguns integrantes da Juventude Comunista, a exemplo do seu irmão Raúl Castro. Não se limitava à universidade e aos meios intelectuais, ligando-se fortemente ao meio popular, a partir das amizades que construíra no Colégio Jesuíta com os funcionários da limpeza, da cozinha, dos serviços gerais e dos contatos que mantinha no campo. Foi esta base que forneceu os componentes do assalto ao Quartel Moncada e assegurou a organização do Movimento 26 de Julho.

Conspirando no México

Como consequência da derrota em Moncada, 90 participantes foram mortos, não em combate, mas a maioria sob tortura. Fidel foi preso e julgado no dia 16 de outubro, quando 28 moncadistas foram sentenciados. Os homens, com penas de três a 15 anos de prisão na Ilha de Pinos; as mulheres (Melba Hernndez e Haidée Santa Maria), a sete meses de reclusão na prisão feminina de Guanajay, a 45 quilômetros de Havana. Na condição de advogado, Fidel pediu autorização para apresentar sua própria defesa, que, na verdade, foi um libelo acusatório. Ele argumentou que o direito de rebelião é constitucional, pois o governo de Batista havia rompido com a Constituição do país e implantado uma ditadura. Esta, além de eliminar as liberdades individuais e coletivas, agravava a situação do país e do seu povo. Citou os 600 mil desempregados, os 100 mil agricultores sem terra para trabalhar, os 500 mil operários rurais em condições miseráveis, os 500 mil operários da indústria em péssimas condições de vida e trabalho, tendo como única perspectiva o túmulo, os pequenos comerciantes endividados e a precariedade da saúde, da educação, da moradia. No final, não pediu para ser julgado inocente. Conclamou: “Condenem-me, não importa. A História me absolverá”.

Em maio de 1955, o governo de Batista promulga a Lei da Anistia, como parte de uma estratégia de ganhar popularidade. Logo após a soltura, Fidel retoma as atividades políticas. Entretanto, diante das constantes perseguições, resolve exilar-se no México juntamente com o irmão Raúl e outros moncadistas. Na capital mexicana, destino dos oposicionistas mais visados pela ditadura, Fidel dedica-se a organizar o retorno visando à tomada do poder a partir de uma guerrilha desencadeada em Sierra Maestra por um grupo de combatentes. Esta ação, acreditava ele, vinculada ao movimento de massas liderado M-26.

É no México que acontecerá o encontro entre Fidel e o médico argentino Ernesto Guevara de La Serna, chamado pelos cubanos de Che. O encanto é mútuo. Ernesto se incorpora ao grupo na condição de médico, mas coloca duas condições aceitas por Fidel: não limitá-lo às funções de médico e que razões de Estado não o impedissem de sair de Cuba para lutar em qualquer país da América Latina, quando entendesse cumpridas suas responsabilidades com a revolução. Che Guevara  fala de sua opção da seguinte forma: “Via como duvidosa a possibilidade de vitória, mas envolvia-me com o Comandante rebelde, ao qual me ligava, desde  o princípio, um laço de simpatia romântica e aventureira e a consideração de que valeria a pena morrer em uma praia estrangeira por um  ideal tão puro”.

Depois de marchas e contramarchas, 82 revolucionários com armas e bagagens embarcam no iate Granma, na noite de 24 de novembro de 1956, um barco preparado para apenas 25 pessoas.

Ganhamos a guerra!

“Não foi um desembarque. Foi um naufrágio”, relata Che Guevara.  Prevista para 30 de novembro, só conseguiram chegar a 2 de dezembro, prejudicando o plano de um levante em terra para desviar a atenção das Forças Armadas. Para completar, o barco parou num lugar de mangue, dificultando o movimento dos homens. Alertada, a Força Aérea passou a bombardear a área, provocando a dispersão da pequena tropa. A grande maioria foi exterminada.  No dia 21, apenas 12 sobreviventes se reagruparam com o apoio da rede de camponeses da região, portando sete fuzis. Fidel não conteve o entusiasmo: “Agora sim ganhamos a guerra!”.

Ganharam sim. Pouco mais de dois anos depois. A entrada triunfal em Havana aconteceu no dia 8 de janeiro de 1959. “Agora começa a etapa mais difícil; cinco vezes mais”, exclamou Fidel.

Um território livre nas Américas

As primeiras medidas foram desapropriação dos latifúndios e grandes fazendas para a reforma agrária, com a implantação de fazendas coletivas e cooperativas, a começar pela fazenda de sua família. A única que se opôs firmemente foi sua irmã Juanita, que saiu do país e se juntou a outros ricos na Flórida (EUA), passando a combater o novo regime. Ela ainda vive e não compareceu ao sepultamento do irmão.

A reforma agrária e a nacionalização das empresas estrangeiras provocaram o rompimento de relações por parte dos Estados Unidos, que, desde então, decretaram o boicote econômico, ainda não suspenso, apesar do restabelecimento de relações diplomáticas ocorridas no governo de Barack Obama.

Com apoio da Agência Central de Inteligência estadunidense (CIA), os cubanos da Flórida contrataram mercenários e tentaram invadir o país. O Presidente Kennedy lavou as mãos, mas não autorizou o envio de tropas. Os mercenários foram derrotados na Baía dos Porcos, em 1961. Chegara o momento de anunciar o caráter socialista da Revolução e fazer parceria com a União Soviética que, embora já houvesse se afastado do ideal socialista e comunista desde o famoso XX Congresso (1956), interessava manter influência, ter um aliado nas portas do seu arquirrival, os EUA.

A opção socialista provoca divisões internas no M-26, do setor que defendia uma nação independente e um capitalismo democrático (algo impossível de se realizar). Com pesar, havia de derrotar esse inimigo também. E conseguiu. Camilo Cienfuegos, líder da Revolução e muito querido pelo povo, morreu num acidente de helicóptero, sobrevoando a região de Camaguey, onde o chefe do Regimento, Huber Matos, tentara um golpe contra o regime. A morte de Camilo causou comoção nacional e em Fidel, pessoalmente, pois, além de grande companheiro da Sierra, devotava grande afeto ao companheiro.

Em 1962, a instalação de mísseis soviéticos em Cuba levou o mundo às portas de uma guerra nuclear, visto que os EUA jamais admitiriam a existência de força soviética a apenas 150 quilômetros do seu território. A negociação da retirada se deu secretamente entre o Primeiro-Ministro soviético, Nikita Kruschov, e o presidente John Kennedy, dos EUA, sem a participação do governo cubano. Isto aborreceu muito Fidel e os dirigentes cubanos e, principalmente, o povo. De todo modo, foi positivo para Cuba o fato de que fez parte do acordo a não invasão do território cubano. Kennedy determinou o desmantelamento da operação Mangosta (nova invasão de Cuba), o que lhe gerou o rompimento por parte do comando dos exilados cubanos e provavelmente seu assassinato em 22 de novembro de 1963.

Além do bloqueio econômico, milhares de ações de fustigamento contra Cuba continuariam acontecendo, desde a promoção de atentados, lançamento de armas químicas e biológicas para prejudicar a economia,  a tentativas de assassinato de Fidel Castro. A necessidade de militarizar o país não impediu de o Estado cubano priorizar e conseguir elevar a níveis das nações capitalistas desenvolvidas a educação, a saúde, as condições básicas de vida do povo cubano. Para isso, contribuíram, sem dúvida, as relações comerciais favorecidas com o “bloco socialista”, especialmente entre URSS e Cuba, que, entretanto, custou à ilha o preço de se manter como a fornecedora de matérias-primas do bloco, limitando o desenvolvimento de sua economia.

Democracia e direitos humanos

Quanto ao mantra de Fidel como um ditador, repetido à exaustão pela imprensa burguesa no mundo inteiro, que chama respeitosamente de presidentes a Pinochet, Médici e tantos outros sanguinários ditadores, a explicação sempre dada por Fidel e demais revolucionários é a seguinte: Cuba não copia modelos e constrói o socialismo de acordo com a nossa realidade. Ao povo, é permitida a mais ampla participação na vida pública. A Constituição cubana, antes de sua aprovação pelo Parlamento, foi debatida em cada bairro, em cada rua, nas entidades populares e sindicais. O povo é quem indica os candidatos, que podem ser ou não membros do Partido Comunista. Agora, a reeleição sucessiva de Fidel como chefe de governo e de Estado é algo aprovado pela imensa maioria do povo cubano, que não entenderia o afastamento do seu herói dessa função, exceto por razões de saúde, como veio a acontecer em 24 de fevereiro de 2008. O cargo foi assumido pelo irmão, Raúl Castro, não pelo parentesco, mas por ser o líder histórico sobrevivente que acumula mais experiência, que apresenta maior capacidade política e administrativa.

Quanto aos direitos humanos, numa entrevista coletiva por ocasião da visita do presidente dos EUA, Barack Obama, no restabelecimento de relações diplomáticas, em março de 2016, Raúl desafiou os jornalistas de vários países a citarem qual o Estado que respeita integralmente os direitos humanos. Silêncio na sala.  Na verdade, numa nação capitalista, são priorizados os direitos individuais, enquanto não ameaçam o regime. Numa nação socialista, os direitos coletivos são os mais importantes. Aliás, no capitalismo, os direitos, mesmo os individuais, se concretizam apenas pelas classes dominantes. Para a maioria do povo, trata-se apenas de formalidade, haja vista a precariedade dos serviços públicos e a falta de recursos para prover a moradia digna, a saúde, a educação, etc.

Cuba nunca apoiou o terrorismo. Sempre foi solidária com as lutas de libertação, enviando suas tropas para a África, preparando guerrilheiros para lutar contra ditaduras na América Latina. Depois dessa fase, passou a exportar amor, como diz o compositor Sílvio Rodriguez, mandando médicos e outros profissionais para os países que precisam deles, seja com remuneração profissional, como no caso do Brasil (Programa Mais Médicos), seja sem remuneração alguma, como no caso do combate ao vírus Ebola, na África, ação pela qual foi elogiada pelo mundo inteiro.

O homem que teve a vida exposta em tantos combates e atentados, morreu tranquilamente em casa, aos 90 anos, no dia 25 de novembro de 2016. Durante nove dias de luto e no percurso do cortejo fúnebre, entre Havana e Santiago de Cuba, centenas de milhares de cubanos se despediram do seu herói com choro, bandeirolas e o grito uníssono “Yo soy Fidel”.

Somos todos Fidel

Fidel Alejandro Castro Ruz – simplesmente Fidel – foi muito mais que líder e herói do povo cubano, seguidor e sucessor dos ícones da luta pela independência Antônio Maceo e José Martí. Fidel representa o grito dos oprimidos do mundo inteiro; é a prova inconteste de que um povo unido, consciente de sua força, organizado e disposto a pô-la em marcha, se tem uma liderança em quem acredita e confia, pode alcançar a vitória e reconstruir sua vida, mesmo diante de um inimigo inúmeras vezes mais poderoso materialmente. A opressão imperialista, queda de muros e desmantelamento do seu bloco de apoio não podem servir de pretexto para o desânimo, a renúncia a princípios, a submissão à tese de que a História acabou. Tudo isso, separado da potência imperialista por apenas 150 quilômetros. É a lição que fica. Claro que houve erros, cuja autocrítica o PCC e Fidel sempre fizeram publicamente, com transparência (como gostam de falar, mas não praticam, os democratas burgueses).  “Penso como Niemeyer; é preciso ser consequente até o fim”, dizia Fidel. Cumpriu a palavra. Por isso, Fidel Castro não morreu. Passou para a imortalidade. Somos todos Fidel!

José Levino.

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