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O marxismo e a psicanálise freudiana

Sigmund Freud

Dentro da psicologia há correntes que se cruzam com o marxismo e sua proposta e nos ajudam a entender melhor o ser humano em seu contexto social, como a psicologia social e, mais especificamente, a sócio-histórica (Vygotsky, por exemplo). A psicanálise é uma construção teórica e metodológica à parte da psicologia, que serviu como ponto de partida para que abordagens psicoterápicas de cuidado do ser humano fossem pensadas por outros teóricos, que inicialmente tinham referência em Freud, mas que romperam com suas teorias seguindo outros caminhos, desembocando na psicologia humanista.

Freud nasceu em meados do século 19, em 1856, na Tchecoslováquia, e morreu em 1939, sendo contemporâneo de Marx apesar de ser mais novo que este. Os dois pensadores seguem caminhos diversos nos estudos, mas com um ponto em comum: falam do humano e da sociedade.

Freud cursou Medicina, especializando-se em Neurologia. Propondo-se a estudar a mente humana – sua organização e manifestação –, ele partiu do relato dos seus pacientes através da interpretação dos seus sonhos e do método da associação livre, que consistia em falar livremente o que viesse à mente. Usou durante um tempo a hipnose para tentar acessar os conteúdos do subconsciente das pessoas que ele atendia. Generalizando o que encontrava nos atendimentos e estudos, chegou às suas conclusões sobre a organização da mente humana em consciente, subconsciente e inconsciente; e posteriormente em ego, superego e id. Buscou explicar também os sintomas apresentados pelas pessoas, como alucinações, delírios, agitação, agressividade, extrema dependência e tristeza, entre outras questões relacionadas ao comportamento humano.

Todo esse método configura a psicanálise, teoria construída por Freud, que até hoje vive o embate se é ciência ou filosofia. Essa construção teórica e metodológica foi inovadora na sua época, principalmente por possibilitar que a “loucura” e tudo o que era considerado transtorno fosse escutado e tratado de maneira diferente do habitual.

Marx fez faculdade de Direito, ligando-se então à filosofia. Durante sua vida se dedicou a estudar, escrever e colocar em prática suas reflexões sobre a organização da sociedade capitalista da época e o lugar dos trabalhadores nessa sociedade. Através do materialismodialético ehistórico, estudou o surgimento do capitalismo, suas leis e como transformá-lo. Seu ponto de partida foi o descontentamento com outros teóricos que não conseguiam separar ciência da religião, sempre recorrendo a explicações divinas para tentar compreender os fundamentos da sociedade. Nesses estudos e no próprio processo de luta no qual se envolveu, Marx apresenta o capitalismo como um sistema econômico que determina todo o sistema jurídico, político e religioso.

A teoria de Marx foi um divisor de águas dentro da filosofia, economia e ciência política, na medida em que “põe a nu” toda a crueldade do capitalismo e indica a forma dos trabalhadores se organizarem para mudar essa realidade.

Críticas a Freud

A teoria freudiana tem uma visão da mulher limitada e machista, por exemplo, colocando-a em um lugar de eterno desejo simbólico de se realizar plenamente em um homem, sendo este um filho, um companheiro ou objetos e fatos simbólicos que remetem ao masculino. Esta visão reduz a mulher ao lugar de submissão e ser que vive em constante falta, precisando de uma figura masculina para lhe completar. Partindo de uma visão paternalista de sociedade e de natureza humana, ser mulher é ser assim.

Estas questões vão de encontro à ideia de sujeito que Marx constrói na sua teoria, e que a psicologia sócio-histórica, que bebe do marxismo, propõe. Não haveria uma natureza humana, a priori. Os seres humanos, tanto mulheres quanto homens, são construídos e se constroem socialmente a partir da interação com outros seres, o ambiente e o que trazem de traços biológicos. Não existe dependência da mulher ao homem, nem dessa forma que Freud coloca, nem teríamos sido criadas a partir da costela de Adão, pois atualmente até a própria Igreja Católica reconhece que esse texto sobre Adão e Eva na Bíblia é uma simbologia. Existe, sim, construção de papéis sociais do que é ser mulher e ser homem, papéis que mudam ao longo da história da humanidade, e existe uma sociedade atual que se constrói tendo como centro o poder masculino, remetendo ao surgimento da propriedade privada com a necessidade de identificar os filhos pela linhagem paterna (a mãe se sabia quem era) para assegurar os bens da família (ver livro de Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado).

No seu método de investigação, Freud parte de casos específicos e generaliza para o todo, como pertencente a toda a sociedade aquilo que ele encontrava em pacientes que atendia e estudava. O problema é que não contextualiza seus casos, não os analisa a partir de um contexto social e cultural, não os considera como pertencentes e determinados por uma sociedade específica, no caso capitalista, europeia, branca e pertencente à classe média e alta.

O problema do método é que ele acaba determinando todo o resto, como o fenômeno vai ser visto e como vai ser analisado, então ele “influencia” nos resultados que se chega ao final de um estudo. Se a investigação parte da metafísica, teremos um tipo de resultado; se parte do materialismo histórico-dialético, teremos outro.

Freud aposta no inconsciente como grande “controlador” da mente e vida humana, como lugar das pulsões (desejos) de vida e de morte e que seriam essas pulsões que controlariam as atitudes e comportamentos humanos e as guiariam. As vontades, desejos e esforços do ser humano para agir estariam sempre sujeitados a essa estrutura inconsciente.

O papel do inconsciente na teoria de Freud é um ponto controverso, não só em relação ao marxismo, mas em relação a várias outras abordagens da psicologia. Não se trata de negar essas estruturas mentais como o ego, superego e id ou negar a existência dessa “divisão” em consciente, subconsciente e inconsciente, mas de questionar o grande controle que esse inconsciente freudiano exerceria na vida humana, deixando pouca possibilidade para uma autonomia do sujeito em relação a seus instintos e acontecimentos passados traumatizantes.

Tainan Amaralpsicóloga

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1 comment

  1. Glauber Ataide

    No que se refere à questão do inconsciente, este é justamente um ponto de convergência, de parentesco, de contato entre os dois pensadores, e não o contrário, como afirma o texto. O filósofo Paul Ricoeur já havia chamado a atenção para este fato quando utilizou o termo “mestres da suspeita” para caracterizar Freud e Marx devido à desconfiança de ambos em relação às ilusões da consciência. Para isso podemos citar pelo menos duas passagens: a primeira é quando Marx afirma que se aparência e essência coincidissem, a ciência seria desnecessária. Marx é claro quanto ao fato de que não devemos tomar as coisas da maneira como elas nos aparecem, o que é justamente o que Freud também faz através do método psicanalítico. A outra passagem é de Engels, que desenvolveu este ponto a partir das obras de Marx. Engels afirmou em “Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã” que os homens, ao fazerem a história, não agem de forma plenamente “consciente”, mas com ilusões (a passagem é longa, não vou citá-la). Engels mostra que, por essa razão, o resultado das ações dos indivíduos, na maioria das vezes, é contrário ao que eles almejavam inicialmente. O companheiro de Marx então afirma que as causas reais das ações, suas forças motrizes, não devem ser buscadas não nas consciências dos indivíduos, naquilo que eles acham que estão fazendo, mas em outro lugar (que no trecho ele vai explicar qual é).

    No final de sua vida, Freud reconheceu que não havia nenhuma grande divergência entre o marxismo e a psicanálise:

    “Sei que os meus conhecimentos sobre o marxismo não revelam nenhuma familiaridade maior, não mostram uma compreensão adequada dos escritos de Marx e Engels. Fiquei sabendo mais tarde, com certa satisfação, que nem um nem o outro negaram a influência dos fatores do ego e do superego. Isso desfaz o principal conflito que eu pensava existir entre o marxismo e a psicanálise.” (“O marxismo na batalha das ideias”, Leandro Konder, p. 111)

    Compartilho este texto que escrevi em 2013 sobre o assunto:

    Materialismo dialético e psicanálise

    https://omarxistaleninista.blogspot.com.br/2017/07/materialismo-dialetico-e-psicanalise.html

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