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Movimento das Comunidades Populares: história e luta

Na madrugada do dia 18 de fevereiro de 2018, cheguei à rodoviária de Feira de Santana, na Bahia, levando comigo as energias proféticas da Escola de Fé e Política Vilson de Jesus Silva, da Diocese de Caetité, BA, em que tive a alegria e a responsabilidade de assessorar o 1º módulo sobre Fundamentos bíblicos da íntima relação entre Fé libertadora e o compromisso com a Política com P maiúsculo (luta pelo bem comum e por direitos sociais). Levava comigo também a alegria inspiradora do Curso de Teologia para leigos/as, também da Diocese de Caetité, que funciona há 17 anos, sendo três anos de curso em vários finais de semana por ano.

Fui bem acolhido na Sede Nacional do Movimento das Comunidades Populares (MCP), em Feira de Santana, 2ª maior cidade da Bahia, que nasceu a partir de uma feira de tropeiros na encruzilhada de muitos destinos e sob as bênçãos de Nossa Senhora de Santana. Em dois dias intensos de convivência, de reflexão e de troca de experiências, pude conhecer muitas experiências concretas que atestam a existência do reino do Deus da vida no nosso meio. Conheci com maior profundidade a história do MCP, que em 2019 completará 50 anos de luta e celebrará seu 1º Congresso Nacional. O MCP, ao longo de 49 anos, assumiu vários nomes! Que beleza ouvir que o MCP tem sua origem em 1969, na JAC (Juventude Agrária Católica), que teve 22 anos de luta, de 1947 a 1969. Da JAC, o MCP herdou a articulação nacional e o apoio da Igreja comprometida com a opção pelos empobrecidos. O nascimento do MCP se deu com o MER (Movimento de Evangelização Rural), que existiu durante 16 anos, de 1969 a 1985. Do MER, o MCP herdou o método da democracia participativa e a religião libertadora, aquela que defende os oprimidos e participa de suas lutas libertárias. O MCP cresceu através da CTI (Corrente dos Trabalhadores Independentes), durante sete anos, de 1985 a 1992. Da CTI, o MCP herdou o princípio da autonomia política e a organização sindical. Por meio do MCL (Movimento das Comissões de Luta), o MCP fez história junto ao povo oprimido, durante sete anos, de 1993 a 2000. Do MCL, o MCP herdou o princípio da autonomia e a luta forte. De 2001 a 2011, o MCP herdou o embrião do poder popular na sua ação coletiva organizada em dez colunas (trabalho coletivo, saúde, moradia, educação, cultura etc.) em Comunidade Popular (CP). De 2012 para cá, o MCP está resgatando o passado para preparar um futuro de lutas emancipatórias.

Que beleza conhecer o trabalho coletivo que produz o Jornal Voz das Comunidades (JVC), do MCP, editado há 12 anos, com 24 páginas, com 3500 exemplares, edição quadrimestral e circulação nacional! Esse jornal tem sido um instrumento político emancipatório para fazer circular experiências de luta por direitos que acontecem nas Comunidades Populares em muitos estados do Brasil. O Jornal Voz das Comunidades é porta-voz das comunidades camponesas, indígenas, quilombolas, urbanas etc..

Que beleza conhecer diversos projetos coletivos do MCP que fazem o milagre da partilha do “pouco de cada um para que a vida comunitária seja digna”! Por exemplo, a reunião da Quinzena, momento em que se discutem os problemas da comunidade e do bairro e juntos se organizam para lutar por soluções. Sempre se faz uma cesta coletiva ou um consórcio coletivo. Cada pessoa leva um alimento de um pequeno valor estipulado na quinzena anterior ou se põe em comum um pouco de dinheiro. No final, quem for sorteado leva para casa a cesta de alimentos ou o total do consórcio em dinheiro. Quem foi sorteado continua contribuindo, mas só pode ser sorteado novamente após todos os integrantes da reunião forem sorteados. Que beleza conhecer o GIC (Grupo de Investimento Coletivo), que é um banco comunitário! Bem gerido, com coordenação, reuniões semanais e assembleias dos sócios/as, o GIC empresta dinheiro para socorrer quem está com um sério problema de saúde na família, ou para fazer uma melhoria na moradia, ou para construir a casa própria para se libertar da cruz do aluguel, ou para comprar uma máquina necessária para se tocar um projeto coletivo (uma horta, uma confecção de bolsas, um projeto de Produção Solidária de produtos de limpeza etc.).

Que beleza passar uma manhã conhecendo um trabalho extraordinário de limpeza urbana, de resgate da dignidade humana e de responsabilidade socioambiental e geracional: a ARTEMARES, Associação dos/as Trabalhadoras/res Catadores de Materiais Recicláveis de Feira de Santana e Região, um dos projetos gestados pelo Movimento das Comunidades Populares (MCP)! Com 24 catadoras/res trabalhando dentro da cooperativa e outros mais de 100 catadores de materiais recicláveis recolhendo nas casas e ruas de Feira de Santana e cidades vizinhas, a Cooperativa ARTEMARES está desenvolvendo um trabalho extraordinário de limpeza urbana, de cuidado com o meio ambiente, de produção de renda para mais de 120 famílias, de inclusão social e, acima de tudo, anunciando o caminho para a construção de uma sociedade justa e sustentável. A ARTEMARES conta com uma ampla rede de apoio envolvendo universidades, inclusive.

Inesquecível também foi conhecer o milagre das terapias naturais e a cura do paralítico acontecendo na Casa do Renascimento, da ESPA, que é Associação Educação Para a Saúde, no bairro Campo Limpo, também em Feira de Santana. Após um almoço com alimentos agroecológicos e saudáveis, enquanto ouvia relatos dos milagres das terapias naturais, me apresentaram a Casa do Renascimento. Só por estar lá, a gente já começa a melhorar a saúde. Acabei fazendo checagem através do sistema bioenergético e saindo de lá com as ervas medicinais para cuidar da minha saúde. O lema inspirador da Casa do Renascimento é a cura do paralítico do Evangelho de Jesus Cristo. O paralítico passou 38 anos esperando pelos outros. Jesus chegou, olhou para ele e disse: “Levante e ande!” (Evangelho de João 5,8). O paralítico começou a andar.  

Para o MCP antes de ensinar as pessoas do povo, devemos aprender com elas. O MCP cultiva um antivírus ao individualismo disseminado no tecido social pela idolatria do capital: trabalhar coletivamente, lutar coletivamente e conviver de forma coletiva.

Mariana Affonso Penna fez tese de doutorado sobre o Movimento das Comunidades Populares. A tese tem como título “À procura da comunidade perdida: história e memórias do Movimento das Comunidades Populares” (UFF, 2016). Com imensa gratidão, voltei para Minas Gerais, trazendo os bons fluídos do povo de luta baiano e do MCP, com a convicção de que há tantos sinais de emancipação no meio do povo que luta! Há tanta vida! É impressionante a força e o poder  da organização popular! É animadora a certeza da energia curativa da Mãe terra, da eficácia das terapias alternativas, naturais,  longe da indústria farmacêutica – que é a 2ª que mais acumula capital no mundo – e seus efeitos colaterais.

Gilvander Moreira, frei e padre da Ordem dos carmelitas, doutor em Educação pela FAE/UFMG e assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas de Belo Horizonte. 

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