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Milton Santos, cientista negro, latino-americano

Geógrafo, comprometido com as lutas populares e com ciência a serviço do povo, propôs uma geografia nova, uma outra globalização. No fundo, propôs outro mundo e outra ciência.

André Molinari


Foto: Reprodução

Milton Almeida dos Santos nasceu em 1926 na Bahia. Negro, nordestino e filho de professores de ensino primário, foi alfabetizado, aprendeu álgebra e já tinha certo conhecimento de francês antes dos 10 anos de idade, quando foi matriculado no Instituto Baiano de Ensino, internato dedicado às famílias de classe média.

Aos 15 anos, aproveitava as horas vagas para dar aulas para os estudantes mais novos, principalmente sobre matemática e geografia. Milton era descendente de escravos emancipados antes da Abolição, considerou se formar em engenharia, mas desistiu após ser alertado do racismo presente nos corredores da Escola Politécnica.

Mas, como bem podemos imaginar, Santos, embora tivesse conquistado muitas coisas que para negros não passavam de sonhos distantes, não pôde escapar da crueldade do racismo. Ele participou ativamente da Associação dos Estudantes Secundários da Bahia e lá foi “convencido” a não se candidatar para a presidência da entidade, onde, de acordo com seus “colegas”, sendo negro, ele não teria como dialogar com as autoridades.

Em 1948, forma-se em Direito na Universidade Federal da Bahia e se torna Doutor em Geografia pela Universidade de Estrasburgo, na França, em 1958. O geógrafo foi ativo em muitas áreas e setores durante toda sua vida, atuando até mesmo como jornalista.

Milton, que já era um cientista de certo renome em seu estado, chegou a acompanhar Jânio Quadros numa viagem para Cuba, tornando-se seu amigo e admirador. Foi indicado subchefe da Casa Civil e representante do governo federal em seu estado, mas se desapontou com a figura de Jânio após sua renúncia em 1961.

Já em 1964, o geógrafo negro participou de uma comissão do governo baiano, onde surpreendeu muitos propondo um imposto sobre as fortunas e outras coisas que a burguesia e a política brasileira rechaçaram prontamente.

Em meio à ditadura militar fascista, Milton foi redator do jornal A Tarde e professor universitário, denunciando constantemente as condições de vida dos trabalhadores do campo. Sem surpresa alguma, devido à sua posição política, foi demitido da Universidade Federal da Bahia e ficou preso durante 60 dias, sendo solto depois de sofrer um princípio de infarto e um derrame facial. Milton Santos decide pelo exílio, indo lecionar em faculdades fora do país.

Em 1977, retorna ao Brasil depois de ter lecionado nas Universidades de Paris (França), Columbia (EUA), Toronto (Canadá) e Dar es Salaam (Tanzânia). Também lecionou na Venezuela e Reino Unido, encerrando sua carreira na Universidade de São Paulo. Além de professor, foi consultor de organizações internacionais, como a OIT, Unesco e OEA.

Na obra de Milton Santos temos a constante presença do pensamento marxista e da criação de uma geografia nova, criticando a globalização capitalista e trazendo ideias de economia, planejamento urbano e muito mais. Santos é considerado no Brasil o maior autor sobre geografia. Hoje não há uma universidade brasileira que tenha um curso de geografia que não estude os escritos desse grande negro baiano marxista.

A presença inovadora de Milton Santos alterou, provavelmente para sempre, o pensamento do espaço no Brasil e no mundo. Em suas críticas ao capitalismo e sua globalização, em seus escritos sobre o mundo rural e urbano, vemos marcadamente nas letras a defesa do povo brasileiro e dos países subdesenvolvidos.

“Então, na França, depois de dar aula um ano ou dois, eu, que era um seguidor quase que total da geografia francesa, comecei a me perguntar: mas será que isso responde, ajuda a entender? E é isso que me levou depois ao marxismo. O marxismo chegou para mim após um processo lento, amadurecido.”
– Milton Santos.

Santos, em seu texto A Totalidade do Diabo: como as formas geográficas difundem o capital e mudam estruturas sociais, já denunciava como o capitalismo se apropria dos objetos geográficos para melhor garantir a reprodução do capital e, consequentemente, a exploração do trabalhador, tal como mudar a organização de uma sociedade.

O trabalho dele será para sempre lido e relido por latino-americanos e oprimidos. Vemos em sua obra uma ciência feita em defesa do povo, dos trabalhadores. Faz-se necessário dizer: a construção de uma ciência nova é uma tarefa da atualidade. Milton Santos propôs uma geografia nova, uma outra globalização. No fundo, propôs outro mundo e outra ciência.

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