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quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Elis Regina, Dom Helder e uma carta para um preso político

Em 1978, quando levou seu show “Transversal do Tempo” para Recife, Elis participou de um ato público promovido por Dom Helder Câmara e “driblou” a polícia para homenagear o líder estudantil Edival Nunes, o Cajá.

“Elis era temperamental. Não levava desaforo para casa”. Essas duas frases viraram clichês para definir a personalidade de Elis Regina (1945-1982). Alguns viam nisso a força que ela sempre impôs para a sua carreira. Outros enxergam suas atitudes com reservas. O certo é que Elis, cuja morte completa 30 anos nesta quinta-feira (19), comprava não só suas brigas, como as dos outros também.

Um dos casos mais famosos em que Elis mostrou seu temperamento ocorreu em 1976, quando a cantora Rita Lee foi presa acusada de porte de maconha. Quando soube do fato, Elis decidiu ir ao Presídio do Hipódromo, na região central de São Paulo, para visitar a companheira de profissão. Em plena ditadura militar, fez um escândalo, pediu para ver a cantora e exigiu que um médico examinasse Rita, que estava grávida.

Mas nem só famosos contavam com o apoio de Elis. Um outro episódio, esquecido e revelado recentemente pela revista Continente, ocorreu no Recife, em 1978 , durante o governo de Ernesto Geisel. Elis estava na cidade para apresentações do show “Transversal do Tempo”, que tinha um roteiro com viés político e de forte crítica social. Lá, quis se encontrar com Dom Helder Câmara (1909 –1999), à época arcebispo de Olinda e Recife, conhecido por sua atuação contra as violações de direitos humanos no Brasil, em especial durante a ditadura.
Quem aproximou Elis e Dom Helder foi a atriz e especialista em cultura popular Leda Alves. Elis a procurou por indicação de Frei Betto. Por coincidência, neste mesmo dia, à noite, haveria uma missa em favor da libertação do líder estudantil Edval Nunes da Silva, o Cajá, que havia sido preso em maio de 1978, na capital pernambucana, acusado de tentar reorganizar o Partido Comunista Revolucionário. Elis decidiu que participaria do ato religioso. E assim o fez. Subiu ao altar da Matriz de São José e entoou os cânticos da celebração. “Estávamos em plena ditadura e, mesmo assim, ela não se intimidou”, diz Leda, que se tornou amiga de Elis. Depois da missa, a Elis foi à sacristia conhecer Dom Helder. “Ela estava muito interessada no trabalho que ele fazia em defesa dos direitos humanos”, afirma Leda.

No dia do primeiro show da temporada que faria em Recife, Elis decidiu dedicar o show ao estudante Edival Nunes da Silva, o Cajá. A homenagem rendeu a Elis uma repreensão da polícia local, que ameaçou impedir suas apresentações seguintes. No segundo show, Elis arrumou um jeito de falar o apelido do líder estudantil. Segundo o próprio Cajá, o que foi lhe contado depois é que Elis entrou no palco com a banda desfalcada do baterista. Alegando que não poderia começar o show sem um de seus músicos, perguntou por ele. Alguém apontou o músico sentando em uma das poltronas do Teatro Santa Isabel. Elis, marota, teria dito. ‘Vem cá, já. Não posso começar o espetáculo sem você’. “O público logo entendeu o recado e aplaudiu o ato de Elis”, diz Cajá, que hoje é sociólogo e tem 61 anos.

Antes de deixar o Recife, Elis ainda tentou visitar o estudante na prisão. Não conseguiu. Optou por escrever uma carta. Na correspondência, escrita em um papel timbrado do hotel onde Elis se hospedou, o Othon Palace, Elis dizia para Cajá não esmorecer e continuar a lutar pela liberdade. Para Cajá, o ato de Elis foi ‘iluminado’. “Depois de Elis, outros artistas tentaram me visitar, como os atores Bruna Lombardi e Cláudio Cavalcanti”, afirma. “Ela tinha um compromisso com o que há de mais bonito no ser humano: a liberdade”, diz Cajá.

Cerca de três meses após sua saída da prisão, em junho de 1979, Elis voltou ao Recife para uma apresentação e tentou marcar um almoço com Cajá. Ele, que havia acabado de se tornar pai, não pode comparecer, mas disse que, posteriormente, iria a São Paulo se encontrar com a cantora. O encontro dos dois nunca aconteceu . Em 19 de janeiro de 1982, o sociólogo, em meio a uma reunião da União Nacional dos Estudantes, foi surpreendido pela notícia da morte de Elis. No próximo mês de março, quando Elis completaria mais um aniversário, ele pretende realizar um show com artistas locais em homenagem à amiga.

Fonte: Época

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5 COMENTÁRIOS

  1. De uma coisa eu nao entendo. Porque tantas pessoas aida tem medo do passado da ditadura? agora é hora de mostrar pra todo mundo o que foi esse passado, muita gente ainda pensa que os comunista sao realmente aqueles que come criancinhas!!!! gente, vamos quebra esse paradigma de uma vez, vamos chegar realmente nas classes mais nescecitadas e dizer quem foram os parazitas da ditadura, se eles nao mais existem mas existem os descendentes deles!! os filhos os que seguiam na epoca, os partidos da thal ARENA ta ai!! por que nao falamos abertamente para o povo quem sao e quem foram eles!? e que ainda imperam nos dias de hoje!? Nos precisamos ser mais claros no que queremos, nao temo mais tempo para começao a mudança de uma construçao social, de um novo sistema politico, aliado ao povo, de acordar o Homem novo abolir o velho e cruel sistema, ate quando vamos ver esses miseraveis sugando as riquesas do pais para seu pro ego sustenvael!? os bens do pais é do povo e enos e que temos de uzufluir deses bens. Sou a favor ter representatividade em todas as cidades que estamos, escolher patriota de sangue e suor vermelho para falar pelo povo nas câmaras municipais de todo pais. uma vez representado fazer projetos de interesse do povo, revoluciomar, nao fazer acordos com a corrupçao, esta do lado do povo, perguntar diariamente quais os nossos anceios, as nossas vontades os nossoso sonhos, nosso desejo para os nossos jovens, o que eles querem como modelo de sociedade, dar oportunidades de ter uma escola de qualidade, e que seje nescesário parar no ensino medio, por que o grau maximo de um joven pobre hoje é ao menos terminar o ensino medio, isso é uma vergonha, enquanto que os ricos aproveitam as faculdades publicas para se formarem econmizando assim seu capital que acumulam com a força do trabalho desse mesmo jovem pobre que nao tem e nao vai te nunca chance se assim continuar com o sistema atual. REVULUÇAO JÁ, O QUE ESTAMOS ESPERANDO?

  2. Em novembro do ano passado tive em mãos a carta que Elis escreveu a Cajá e,li a reli. Escrita em folha timbrada do hotel em que ela estava hospeda. Um pouco amarelada pelo tempo… mas que carinho e solidariedade!!! Um abraço Cajá!!

  3. o grande companheiro Cajá é digno desta homenagem, Elis era extraordinária e como tal sabiamente reconheceu e homenageou outro extraordinário cidadão.

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