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domingo, 3 de julho de 2022

Renato Russo: rebeldia contra as injustiças

Renato RussoConsiderado um dos maiores poetas do rock brasileiro, Renato Manfredini Júnior, ou Renato Russo, nasceu em 27 de março de 1960, no Rio de Janeiro, onde veio a falecer no dia 11 de outubro de 1996, com apenas 36 anos de idade. Jornalista e professor de inglês, formou a banda Legião Urbana no início da década de 1980, em Brasília. Mais de 26 anos após o lançamento do primeiro disco, a banda ainda vende 250 mil cópias por ano, um recorde do gênero no País.

Renato Russo não cantou apenas os anseios, os medos e os conflitos da juventude, mas abordou em suas letras temas que vão desde a exploração do trabalhador, o desemprego, o machismo, a ditadura militar, a tortura, o racismo, a retirada dos direitos dos aposentados, passando por questões ambientais, até o cinema, o teatro, a pintura e a literatura.

Segundo Arthur Dapieve, biógrafo do cantor, uma das principais características das letras de Renato Russo, e que explica em parte o enorme sucesso da banda mais de 15 após seu término, é que Renato escrevia sobre temas atuais ao mesmo tempo em que retirava toda marca de temporalidade de suas letras, mantendo assim sua perenidade. Letras como Que país é esse continuam tão atuais agora quanto na época em que foram lançadas. Um exemplo mais sutil e que também carrega essa característica é a canção Metal contra as nuvens, do álbum V, a qual faz referências a algumas medidas antipopulares do governo Collor.

Se existe uma identificação tão grande da juventude brasileira com as músicas de Renato Russo é porque este público se vê espelhado, representado em suas letras. De fato, os jovens que povoam as letras de Renato são, em sua maioria, estudantes, trabalhadores, pais, precarizados e desempregados. São trabalhadores, por exemplo, os jovens namorados de O descobrimento do Brasil: “Ela me disse que trabalha no correio/ E que namora um menino eletricista”. São estudantes os jovens de Vamos fazer um filme: “A minha escola não tem personagem / A minha escola tem gente de verdade / … / O sistema é maus / Mas minha turma é legal”. E são desempregados numa época de crise os jovens de Teatro dos vampiros: “Vamos sair, mas não temos mais dinheiro/ Os meus amigos todos estão procurando emprego”.

“Eu quero trabalho honesto em vez de escravidão”

O tema do trabalho e de sua exploração aparece em canções tanto do início quanto do final da carreira de Renato, mostrando ocupar um lugar permanente nas preocupações do artista. A música Fábrica, do disco Dois (1986), por exemplo, inicia-se cantada na primeira pessoa do plural, como um hino: “Nosso dia vai chegar,/ Teremos nossa vez”. E compara o trabalho dos operários nas fábricas à escravidão: “Quero trabalhar em paz. / Não é muito o que lhe peço- / Eu quero trabalho honesto / Em vez de escravidão”. (1)

Segundo Angélica Castilho e Erica Schlude, autoras do livro Depois do fim – vida, amor e morte nas canções da Legião Urbana, a letra de Fábrica apresenta um questionamento do poder capitalista, assumindo uma postura marxista. Para as autoras, essa música “apresenta o capitalista explorando o trabalhador, uma vez que detém as ferramentas de domínio: o capital e os instrumentos de trabalho”.

Já no álbum A tempestade (último álbum lançado em vida), temos a Música de trabalho, na qual o eu-lírico, precarizado, mostra-se consciente de que não possui um trabalho, mas apenas um emprego: “Sem trabalho eu não sou nada/ Não tenho dignidade/ Não sinto meu valor/ Não tenho identidade/ Mas o que eu tenho é só um emprego/ E um salário miserável”. E descreve também a ditadura do capital sobre o trabalhador e sua inconformidade perante esse quadro: “Se você não segue as ordens/ Se você não obedece/ E não suporta o sofrimento/ Está destinado à miséria/ Mas isso eu não aceito”.

“Chega de opressão”

O protesto contra toda forma de opressão é uma constante nas letras de Renato Russo. A opressão sobre as mulheres, por exemplo, recebeu a atenção do compositor pela primeira vez na letra de A dança, do primeiro álbum, na qual o eu-lírico critica de forma veemente um interlocutor que insiste em tratar “… as meninas / Como se fossem lixo / Ou então espécie rara / Só a você pertence / Ou então espécie rara / Que você não respeita / Ou então espécie rara / Que é só um objeto / Pr’á usar e jogar fora / Depois de ter prazer”.

Renato RussoE no álbum póstumo Uma outra estação, na letra da melancólica canção Clarisse, o eu-lírico lamenta “a violência e a injustiça que existe / Contra todas as meninas e mulheres / Um mundo onde a verdade é o avesso / E a alegria já não tem mais endereço”.

Já o tema da invasão do Brasil e o saque histórico sobre os nativos desta terra, perpetrados por portugueses e outros europeus, são relembrados na letra de “Índios”, uma letra que, por um viés rousseauniano, toca em diversas questões importantes. O etnocídio (aculturação forçada), a violência, a ganância e a espoliação das riquezas naturais são algumas delas. (2)

Mas ao mesmo tempo em que fala do passado, “Índios” indica também o futuro. Os versos “Quem me dera, ao menos uma vez, / Explicar o que ninguém consegue entender: / Que o que aconteceu ainda está por vir / E o futuro não é mais como era antigamente” sugerem que a opressão de hoje é a mesma de ontem, apenas se revestindo de novas formas. Mas, ao mesmo tempo, o futuro, não reproduzindo a lógica de exploração do passado, será diferente. É a tese de Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista de que “a moderna sociedade burguesa […] não aboliu as oposições de classes. Apenas pôs novas classes, novas condições de opressão, novas configurações de luta, no lugar das antigas.”

Além desses, outro tema importante e recorrente na obra do cantor é a discriminação contra os homossexuais (sendo o próprio cantor homossexual). Letras como Soldados, Daniel na cova dos leões, Maurício, Meninos e meninas e Leila são algumas das que abordam a questão. Inclusive o título de um dos álbuns da carreira solo de Renato Russo, The Stonewall Celebration Concert, faz referência à chamada Batalha de Stonewall, quando em 28 de junho de 1969 uma batida policial em um bar gay de Nova York gerou um conflito de dois dias entre travestis, homossexuais e forças da repressão.

Política, ditadura e repressão

Menções à política perpassam toda a obra da Legião Urbana, embora Renato Russo quase sempre se esquivasse de perguntas mais diretas sobre o tema em suas entrevistas. (3) Logo no primeiro álbum, o grupo teve problemas com a censura brasileira pelo fato de o título da música Baader-Meinhof Blues ser uma referência direta ao grupo de guerrilha urbana alemão Baader-Meinhof.

E se no primeiro álbum o compositor menciona o grupo guerrilheiro no título de uma música, no segundo são discretamente aludidas a ditadura militar no Brasil e a tortura. Ouvimos em 1965 (Duas tribos): “Cortaram meus braços/ Cortaram minhas mãos/ Cortaram minhas pernas/ Num dia de verão”.

Já no álbum póstumo Uma outra estação esses temas são abordados abertamente. Em La Maison Dieu o eu-lírico promete a um provável perseguido político: “Se dez batalhões viessem à minha rua/ E vinte mil soldados batessem à minha porta à sua procura/ Eu não diria nada/ Porque lhe dei minha palavra”.

Alguns versos adiante, o eu-lírico vê, durante um devaneio, alguém entrar por sua janela e dizer: “Eu sou a tua morte/ Vim conversar contigo/ … / Eu sou a pátria que lhe esqueceu/ O carrasco que lhe torturou/ O general que lhe arrancou os olhos/ O sangue inocente de todos os desaparecidos/ O choque elétrico e os gritos/ … / Eu sou a lembrança do terror/ De uma revolução de merda/ De generais e de um exército de merda”.

E, ao final, deixa o seu alerta para o futuro: “Não, nunca poderemos esquecer/ Nem devemos perdoar/ Eu não anistiei ninguém…/ Abra os olhos e o coração/ Estejamos alertas/ Porque o terror continua/ Só mudou de cheiro e de uniforme”. (4)

João de Santo Cristo, um brasileiro

Mas uma das músicas de maior apelo popular da banda – talvez a mais popular – é Faroeste caboclo, que conta a saga de um jovem negro chamado João de Santo Cristo. Nascido de família humilde, João de Santo Cristo foi vítima desde pequeno do racismo e da discriminação por ser pobre. Mais tarde, saiu do interior e foi tentar a vida na capital do país, trabalhando inicialmente como aprendiz de carpinteiro. “O Santo Cristo até a morte trabalhava/ Mas o dinheiro não dava pra ele se alimentar”. A situação de pobreza o leva para a criminalidade, e esta, para a prisão.

Após conhecer Maria Lúcia, por quem se apaixona, decide tentar mais uma vez uma vida honesta, voltando a ser carpinteiro, decisão que ilustra a situação de milhares de ex-detentos no Brasil. Mas empurrado novamente para a margem da sociedade, Santo Cristo volta para a criminalidade e nela permanece até ser morto por outro traficante. No momento de sua morte, lembra-se de sua infância e de tudo que vivera até aquele momento, resumindo sua vida como uma via crucis, isto é, um caminho para a crucificação.

João de Santo Cristo é, segundo Angélica Castilho e Erica Schlude, um arquétipo. O herói – ou anti-herói – de Faroeste caboclo é “um entre os muitos cristos crucificados em nossa sociedade diariamente”.

Música e protesto

Embora afirmasse em entrevistas que separava música e política, na prática Renato Russo nunca fez isso. Em todos os seus discos encontramos críticas sociais e protestos contra um mundo que considerava injusto. “Este é o nosso mundo: o que é demais nunca é o bastante/ E a primeira vez é sempre a última chance/ Ninguém vê onde chegamos/ Os assassinos estão livres, nós não estamos” (Teatro dos vampiros, disco V).

Se a intenção de João de Santo Cristo, ao ir para Brasília, era chamar a atenção do presidente “para essa gente que só faz sofrer”, a obra de Renato Russo não deixa dúvidas de que a rebeldia, o protesto e a inconformidade social presentes em suas letras tem semelhante propósito: denunciar toda forma de opressão, a exploração e o sofrimento do povo brasileiro.

Glauber Ataide, Belo Horizonte

NOTAS

(1) Uma curiosidade sobre este álbum é que os ruídos quase indecifráveis que podem ser ouvidos antes do início da primeira música são nada menos que trechos de A Internacional, hino dos trabalhadores de todo o mundo. Daí a música Fábrica, do mesmo disco, tratar deste tema e se iniciar também cantada no plural, como um hino.

(2) Os versos “Nos deram espelhos / E vimos um mundo doente” se referem à prática dos europeus de trocarem objetos de baixo valor, como espelhos, por ouro e pedras preciosas dos nativos.

(3) Perguntado em quem votaria nas eleições presidenciais de 1989, Renato Russo declarou seu voto no candidato do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Roberto Freire, na época. E em 1994, afirmou que votaria em Lula, candidato do Partido dos Trabalhadores (PT).

(4) O motivo desta música ter sido lançada apenas postumamente foi o desejo do compositor de evitar conflito com os militares.

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