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quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

De sorrisos e sonhos

À Manoel Lisboa de Moura (in memorian)

No dia 04 de Setembro de 2014, completaram-se 41 anos da prisão, tortura e assassinato de de Manoel Lisboa de Moura, fundador do Partido Comunista Revolucionário. Este texto é em sua homenagem. 

Ditadura-ArgentinaEra bonito aquele sorriso. Por mais que já tivesse olhado para aquela fotografia zilhões de vezes, não conseguia acostumar-se com um sorriso tão bonito e surpreendia-se sempre. Analisando friamente, não era um sorriso retilíneo, tampouco era de uma brancura exemplar; havia mesmo pontos amarelados pelo cigarro, mas era muito bonito, mesmo assim. Talvez fosse aquele jeito de sorrir com os olhos.

E era amor. Sim, definitivamente aquele sorriso transparecia amor. Pela vida, pelos amigos, pelo futebol no domingo. Por Maria Lúcia, namoradinha de colégio e de faculdade. Amor pelo futuro. Era exatamente isso, conseguia enxergar naquele sorriso as suas fantásticas projeções para o futuro; sempre buscara imaginar onde é que ele arrumava tanta criatividade para sonhar.
E ele dizia. Dizia que no futuro não haveria meninos dormindo embaixo das marquises, nem vendendo chicletes nos sinais. Dizia que as pessoas poderiam descobrir que estavam doentes antes dos sintomas tomarem conta do corpo, através de exames moderníssimos; que não seria apenas para os endinheirados, todos teriam acesso a essa tecnologia, porque assim seria com os trabalhadores na dianteira desse país. O sonho era tão bonito quanto aquele sorriso.
Chegara a sua vez. Guardou a foto na bolsa e caminhou em passos firmes. No caminho as lembranças iam surgindo como num filme: os tempos de escola, a primeira namorada e o primeiro arranca-rabo com o pai por chegar em casa após a meia-noite. Depois veio a faculdade, queria ser advogado, dizia que o problema eram os homens da lei. Se o povo mudasse as leis, criariam homens da lei a favor do povo, tudo se concertava, era questão de tempo. Sonhava bonito aquele sorriso.
Um dia chegou alvoroçado.
– Mãe, eles rasgaram as leis – gritou do portão da rua abanando um jornal amassado.
– Eles quem menino? Deixa isso quieto, vamos almoçar! – disse-lhe, em sua ordem de prioridades: “primeiro todo mundo bem alimentado, depois a gente junta os pedaços dessa lei rasgada e dá um jeito de emendar.”
Depois disso houve muita confusão. Nunca vira tanta cavalaria nas ruas, noite e dia. E onde houvesse passeata e protestos, lá estava a cavalaria e lá estava metido também aquele sorriso inconfundível e aqueles lindos sonhos. E o pai não brigava mais, porque todo dia chegava depois da meia-noite em casa, sempre muito silencioso; no começo pensava que era para não acordar o pai, depois descobriu que estava se escondendo dos mesmos homens que tinham rasgado as leis.
Até que um dia não apareceu mais. Os amigos não sabiam do paradeiro. Só teve notícias suas meses depois. Maria Lúcia que trouxe. Disse que estava bem, que estava escondido porque os homens que rasgaram as leis queriam pegá-lo, e estavam vigiando a casa agora mesmo, e que mesmo Maria Lúcia corria risco sendo vista ali. Disse que amava-a muitíssimo, que morria de saudades e pediu que continuasse a vida, porque logo chegava o futuro e levava todos esses rasgadores de leis e de sonhos para bem longe. E ela podia imaginar aquele sorriso em meio a todas essas palavras.
Alguns anos depois Maria Lúcia apareceu de novo. Não trazia boas notícias. Disse que houve choques elétricos, pau-de-arara, pauladas e pontapés. Disse que procuravam informações, nomes, endereços, queriam saber o que fazia e onde se escondiam aqueles sonhos todos. E por conta disso, não havia mais aquele sorriso que tanto amava, a tortura tinha-lhe arrancado os dentes e a alegria, mas o certo é que não houve informações. Não puderam encontrar os nomes que queriam, os endereços, não sabiam onde é que escondiam-se os sonhos. Também sabia ser durão aquele belo sorriso. Maria Lúcia chorava muito. Disse que jogaram o corpo no fundo do mar. Disse que isso não era coisa que se fizesse, que era covardia, que eles pagariam caro.
Enfim chegara o momento de depor na tal comissão da verdade. Era preciso contar tudo, depor contra aqueles que mataram homens, sequestraram e torturaram sonhos, destruíram sorrisos. Sim, eram os mesmos rasgadores de leis. Nenhum detalhe ficou de fora, podia-se pegar o ar com a mão naquela sala de reunião. Homens e mulheres ouviam e anotavam, e era possível ver a indignação crescendo nos olhos daqueles homens e mulheres.
O chefe da comissão pediu desculpas, em nome do Estado, pelos bárbaros crimes cometidos. Um jovem disse alto que era preciso punir os responsáveis pelas atrocidades, pois as leis, outrora rasgadas, estavam vigentes novamente e era preciso fazer valer o direito, o direito dos humanos. Houve um silêncio constrangedor. Quem seria capaz de discordar? Esse mesmo jovem falou que naquele exato momento outros jovens organizavam manifestações e protestos em todo o país, exigindo a punição de torturadores e carrascos. E quem poderia ser contra a juventude, tão cheia de sorrisos?
Voltando para casa, em um táxi, repassava mentalmente tudo o que ocorrera-lhe naquele dia. Esta memória misturava-se com o quarto arrumado igual como ele deixara, durante anos a fio, décadas.
Retirou a foto da bolsa, queria olhar uma vez mais aquele sorriso bonito carregado de esperança, nesse tal futuro, que ele tanto falava. E apesar do amarelo e da data impressa no canto da foto, percebeu que sorrisos não envelhecem… e parece que os sonhos também não.
Yuri Pires, São Paulo.

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