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quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Maracatu Solar resgata cultura negra

O jornal A Verdade conversou com o cantor e compositor Pingo de Fortaleza, presidente do Maracatu Solar. O Maracatu Solar faz referências à cultura afro-brasileira, pois, através de suas ações, agregam valores da expressão cultural de Fortaleza. As características mais marcantes são as figuras principais reproduzidas no cortejo tradicional do maracatu cearense: baliza, porta-estandarte, índios, balaieiro, negras, casal de preto-velhos, baianas, corte, batuque e tiradores de loas. O Maracatu Solar estreou no Carnaval de Rua de Fortaleza em 2007. Tem vários CD lançados, organizaram, em 2008, o 1º Festival de Loas (canções ou macumbas) de maracatu no Ceará, tem vários projetos de difusão cultural na cidade

Claudiane Lopes e Fábio Andrade, Fortaleza

A Verdade – Conte-nos como surgiu a ideia de uma associação cultural.

Pingo – Viemos de uma série de trabalhos na produção cultural, musical, literária, teatral, eventos e de assessoramento cultural, o que nos fez fundar a Associação Cultural Solidariedade e Arte – SOLAR de Fortaleza. Criamos a ONG em 2005, com cinco linhas de atuação: formação, difusão, assessoramento, produção e programa de solidariedade. No campo da cultura, a gente trabalha muito forte com uma visão que não é ditada pelo mercado. A importância do Solar é aglutinar pessoas nessa perspectiva de produção, do acesso ao que foi produzido culturalmente, o que elas produziram, isto é, viver a sua própria cultura, que é produzida, pois isso gera reflexão. Qualquer pessoa pode participar, nós não buscamos um tecnicismo artístico, queremos fazer arte com todos que queriam. Isso gera cidadania, autoafirmação, empoderamento das pessoas em relação as suas linguagens artísticas, identidade, e também de cura no sentido mais geral, pois nesse processo as pessoas encontram um apoio emocional, espiritual e afetivo. Temos até casos de pessoas que chegaram aqui com depressão e superaram.

Como o maracatu, um dos pilares do trabalho vocês reafirma a cultura afro-brasileira na sociedade?

O Maracatu Solar tem sua musicalidade inspirada nos batuques do Maracatu Az de Ouro das décadas de 1940 e 1950, o pioneiro em Fortaleza. Temos criado um maracatu mais dinâmico, mais ativo, que aglutine mais gente. O Solar foi adquirindo algumas características fundamentadas no trabalho de pesquisa que eu tinha feito sobre a história do Az de Ouro, oriundo dos terreiros. Uma dessas características é a diversidade rítmica, com ritmos mais livres. Além disso, nosso questionamento sobre a necessidade do negrume (pintura dos rostos de preto, representando os negros no Ceará), característica do maracatu cearense. A outra justificativa é que, no início da década de 1930, quem brincava no “corso” eram homens e poucas mulheres, que, para não serem reconhecidos, pintavam os rostos, pois ainda eram um pouco marginalizados os maracatus. O solar discutindo a reafirmação negra, em contraponto à negação da presença negra no Ceará, estabeleceu uma liberdade de não pintar o rosto, como forma de afirmação da matriz étnica negra de manifestação e também da presença negra no Ceará. Então fomos pelo viés antropológico. Nós fizemos essa reflexão, a identidade étnica não se dá apenas sobre a pigmentação da pele, embora você possa fazer uma análise crítica social do negro, mas é um dos elementos, e outra é a afirmação da identidade religiosa, política, não apenas no conceito físico, mas político. Até porque uma parte do movimento negro já questionava essa pintura no rosto, como forma de caricatura, de um negro que supostamente não tivesse existido na matriz cearense, mas tudo isso foi superado pelos estudos recentes, pelas descobertas das heranças culturais, da existência das comunidades quilombolas. O Maracatu Solar nasce nessa perspectiva da religiosidade, depois ele vai assumindo características mais conflitantes com o status quo, como: Não competir no Carnaval, não coroar a Rainha, não participar da coroação de Nossa Senhora do Rosário, porque toda essa ideia de coroação. Também questionamos a própria data do “Dia do Maracatu” (25 de março de 1884), no dia que oficializaram “o fim da escravidão” no Ceará. Não é uma data da emancipação das lutas dos negros, mas sim um decreto, que, quatro anos depois, o jornal O Liberal estava criticando a presença dos negros no passeio público, reprimindo as manifestações, defendendo o envio dos negros para a Guerra do Paraguai. Tudo isso é o Solar, uma reflexão coletiva permanente, com muitas divergências entre nós, mas decisão coletiva.

Musicalmente, qual a diferença do Maracatu Cearense para os demais maracatus do Nordeste?

Você vai ter maracatu mesmo, mais precisamente em Fortaleza, Pernambuco, Alagoas e Minas Gerais. Em outros lugares o movimento aparece com o nome de afoxés (uma pequena corte), mas não como a mesma termologia de maracatu. O maracatu de Pernambuco é divido em duas vertentes: o maracatu baque solto e o maracatu baque virado nação. O maracatu virado nação, de Recife e Olinda, é oriundo das casas de xangô, dos terreiros de candomblé. O outro maracatu é conhecido como maracatu rural, que veio dos canaviais da Zona da Mata, dos lanceiros, era conhecido como tambor de cabocla, muito mais indígena. A partir do Carnaval de Recife, na década 1920 e 1930, organizaram-se grupos para participar. Tinham que se incorporar na corte e aí se tornou o maracatu rural baque solto, que tem um ritmo mais indígena, de entoada. Isso quer dizer que cada maracatu vai ter seu próprio ritmo, embora os ritmos sejam semelhantes. Então você vai ter nuances diferentes de cada maracatu. Aqui nós iremos ter esses ritmos na década 1940, mas, de alguma forma, um ritmo prevaleceu no início da década 1950 à década de 1990, hoje chamado de solene de coroação. Antigamente, chamava-se de dolente de coroação, que tem referência a dor e, por isso, o ritmo é mais lento. Esse ritmo lento se soma com o peso das fantasias, isso na década de 1960, devido ao fato de essas fantasias serem muito pesadas, com ferro, com cangaias, pedrarias e apliques e, por isso, fazem uma batida mais lenta nessa coroação. Nos anos 1980, os grupos começam a mudar, tentando uma maior diversidade rítmica, com inspiração de muitos artistas, como o Descartes Gadelha, em 1985, entra com o ritmo diferenciado, mais acelerado, como também os grupos Vozes da África; Nação Fortaleza e o Solar. A nossa maneira de tocar é diferente da do povo de Recife. Os maracatus cearenses não têm relação religiosa explícita, pois eram maracatus mais carnavalescos. Mas, de 10 anos para cá, alguns grupos estão se encontrando para religiosidade, com os terreiros, estão voltando a beber da fonte. Atualmente, são 14 grupos de maracatus que desfilam e estão entre as principais atrações do Carnaval de Fortaleza.

Como vocês avaliam o Carnaval brasileiro e cearense?

O Maracatu Solar não participa do Carnaval de competição, e sim de participação. Temos essa preocupação de não ser um grupo de exibição, mas um grupo em que as pessoas assistem e participam. Participamos dos desfiles dos maracatus no Carnaval de Fortaleza com mais de 200 brincantes, todos do Solar, que fazem parte dos programas, nenhum é profissionalizado. Mas temos outras ações. Neste ano, iremos ter uma participação contínua dos tambores ancestrais, uma festa de caráter religioso, de matriz africana, cruzamentos dos tambores, brincar de maracatu trazendo o lúdico, além disso, fazemos um projeto paralelo aos desfiles oficiais. Já tivemos com o maracatu em duas comunidades quilombolas, e mais duas comunidades indígenas, e ainda iremos para o bairro da periferia de Fortaleza, o Bom Jardim, fazendo um cortejo pelo bairro, na segunda-feira de Carnaval.  O Carnaval de Fortaleza ainda está crescendo, não tem muito essa vertente comercial como existe no Carnaval do Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador.

Quais projetos vocês estão desenvolvendo?

O programa Solar é contínuo. Temos dois festivais: Vila Sonora e Fortaleza Instrumental. Promovemos formação cultural da juventude, produzimos o Festival da Meruoca, temos o Tambor Criola, alguns projetos no campo da literatura, como o dicionário sobre a arte cearense, patrimônios nas escolas. Queremos aproveitar para parabenizar o jornal A Verdade, um jornal de identidade, parabenizar seus militantes por deixar essa chama viva de transformação, que é muito importante para todos nós. Isso é o que nos alimenta, isso é preciso.

Mais informações do Maracatu Solar: http://ong-solar.blogspot.com.br/

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