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Chico Science: “Faça do seu jeito, mas faça algo”

chico_scienceChico Science, que completaria 50 anos em 2016, deixou sua marca na música e na cultura pernambucana. Sua obra, marcada pela mistura de sons regionais, como maracatu, coco e embolada, com o rock e o eletrônico, entrou para história de Pernambuco e do mundo, constando na lista dos 100 maiores artistas da música brasileira, segundo a revista americana Rolling Stone.

Nascido em 13 de março de 1966, Francisco de Assis França Caldas Brandão cresceu nas ruas do bairro de Rio Doce, em Olinda. Influenciado pela cultura pernambucana, Chico teve contato desde cedo com os ritmos regionais. “Quando eu era mais novo, lá pelos 12 anos, dançava ciranda. Meus pais tinham uma ciranda. Elas geralmente eram feitas nas frentes dos botecos ou nas mercearias da região. Os caras pagavam aos tocadores para chamar mais clientes para as barraquinhas. Assisti na minha infância aos maracatus fazendo o acorda-­povo, que acontece na época do São João, sempre lá pela meia-­noite. Então eu vi todas essas coisas que nos ensinaram como folclore, como uma manifestação já passada, mas que não é bem dessa maneira que você tem que ver. Existem ritmos ali que podem ser aproveitados. E você pode aprender e tocar porque é de sua terra, é do Brasil, é uma coisa que você entende , é a tua língua”, disse Chico.

Antes de montar a Nação Zumbi, Chico Science lançou, em 1992, um manifesto junto com Fred Zero Quatro, da banda Mundo Livre S/A, “Caranguejos com Cérebro”. Numa mistura da sociologia de Josué de Castro com o movimento punk da Inglaterra, o próprio Chico explica seu manifesto: “Temos fome de informação. Na imagem do Josué (de Castro), somos caranguejo com cérebro, como os pescadores que ele descreve no livro Homens e Caranguejos. Eles pescam e comem caranguejos para depois excretá­-los num ciclo caótico. Fazemos uma música caótica”. Num trecho do manifesto, ele comenta o que pretende com sua obra: “O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife”, escreveu.

Em 1994, a Nação Zumbi lança o álbum Da lama ao caos e, em 1996, Afrociberdelia. As músicas, com forte teor social, despontaram na cena nacional. O manguebeat, movimento criado a partir dessas obras e que tem Chico Science como sua principal figura ainda hoje, ganhou destacado espaço na cena cultural pernambucana. Como outros movimentos, o manguebeat não se encerrava só na música; deixa reflexos também no cinema, moda e na realidade política e social. “O Chico tinha uma generosidade enorme, ele poderia ter dito que o mangue era uma batida que ele tinha criado e ‘vocês que arranjem alguma outra coisa’. Mas, ao contrário, ele teve essa percepção junto com a gente de que o conceito de diversidade é que tinha uma atração poderosa pra nos colocar no mapa. Ele nunca teve o desejo de que o mangue fosse um sucessor do axé. Pra ele, quanto mais coletivo e diversificado fosse, mais rica seria a cena daqui”, lembrou Fred Zero Quatro.

O manguebeat, como não poderia deixar de ser, causou também alvoroço também entre as camadas mais conservadoras de Recife. O jornalista Renato Lins destacou que muitas pessoas torciam o nariz, pois não havia nomes conhecidos nesse movimento. Segundo ele, “Ninguém da linha de frente pertencia às famílias tradicionais do Recife, ninguém tinha sobrenome ‘nobiliárquicos’, digamos assim, tanto que a maioria nem os destacava. Depois, a gente ousou pressionar a cultura popular e colocar o maracatu em pé de igualdade com o hip hop e a música eletrônica. Na época, a visão armorial via a cultura popular como algo estagnado, atemporal, quase fora da história, que tinha de ser preservado numa redoma”.

Em 1997, sua vida é interrompida de forma abrupta após um grave acidente de carro, na divisa das cidades de Olinda e Recife. Sua morte, porém, não permitiu que o movimento do mangue morresse. “O legado dele somos nós, vivos, fazendo coisas galgadas na intenção musical que a gente deixou ali e sendo sincero com o que a gente faz”, comentou Jorge Du Peixe, amigo de Science e atual vocalista da Nação Zumbi. Para o cantor China, que começou a carreira graças à influência de Chico, “o grande legado que ele deixa é: nós temos uma cultura incrível, vamos olhar pro passado e modernizá-la. Faça do seu jeito, mas faça algo”.

Science, imortalizado nas ruas de Recife com uma estátua, próximo ao Marco Zero de Recife, vem recebendo neste ano várias homenagens: a inauguração de um memorial de Chico Science, em Recife; o tema do bloco de Carnaval Galo da Madrugada; o lançamento do documentário Chico Science – Um caranguejo elétrico. Ao que parece, a cultura do mangue continuará ecoando nas cidades de Pernambuco por um longo tempo.

Ludmila Outtes, Recife

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3 comments

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